BitTorrent: a empresa de serviços e o protocolo aberto Publicado 13 Out 06
“O que é que acontece quando os cartéis de empresas de entretenimento engolem aplicações open-source?”, pergunta o P2Pnet A resposta pode ser lida num artigo/entrevista com Ashwin Navin, director-executivo da BitTorrent.com, ao site PaidContent. Segundo Navin, aquela empresa prepara-se para lançar no final do ano uma nova plataforma legal de distribuição de conteúdos que irá introduzir várias alterações “de forma a melhorar a experiência do utilizador”. Mas a grande novidade é que o novo software-cliente da empresa vai deixar de ser totalmente open-source, passando a estar também disponível numa versão fechada dotada de funcionalidades adicionais.
Na verdade, este anúncio era já prevísivel uma vez que a BitTorrent.com tinha celebrado em Novembro de 2005 um acordo com a MPAA, a associação dos grandes estúdios de cinema que zela pela defesa dos direitos de Hollywood por todo o mundo mediante a instauração de processos judiciais a putativos “piratas”. De acordo com o estipulado, a BT.com comprometia-se a bloquear o acesso a todo o material protegido por copyright através do seu motor de busca.

Contudo, ao longo do texto, a jornalista que assina o artigo parece confundir a empresa BitTorrent com o protocolo de rede de partilha de ficheiros com o mesmo nome, como se pode ler em alguns comentários. Tal como o HTTP e o FTP, o BitTorrent é um modelo distribuído de transferência de dados cuja arquitectura impede que seja controlado por qualquer entidade individual.
Esta tecnologia foi desenvolvida por Bram Cohen, que juntamente com Ashwin Navin, viria mais tarde a fundar a BT.com. A empresa foi criada para tirar partido das vantagens de rapidez e custo que o modelo cooperativo ou cliente-para-cliente que o protocolo oferece face a ofertas alternativas. Este modelo de negócio assenta no fornecimento de um serviço de pesquisa de ficheiros .torrent de conteúdos “legais” que podem ser transferidos recorrendo à tecnologia em questão. Nesse sentido, a BT.com tem vindo a assinar uma série de acordos de licenciamento com os gigantes da indústria de entretenimento, entre os quais a Warner Brothers. A companhia possui actualmente cerca de 32 funcionários e conseguiu recolher até agora 9 milhões de dólares em capital de risco. De acordo com o PaidContent, a nova plataforma da BT.com deverá combinar um serviço gratuito financiado por publicidade com uma modalidade de subscrição para utilização sem limites.
No entanto, a tentativa de credibilizar a marca BitTorrent como um sistema de distribuição legal parece, à partida, condenada ao fracasso, pois como se afirma no artigo, “no seu estado actual cerca de 90 por cento dos conteúdos do BitTorrent são ilegais” e, uma vez que o protocolo de rede assenta numa arquitectura distribuída, será impossível bloquear todos os ficheiros que violem o copyright. Por outro lado, grande parte da popularidade obtida por esta rede P2P - a maior em termos de número de utilizadores e de ficheiros - deriva da opção de Bram Cohen de disponibilizar a implementação original do protocolo sob uma licença open-source, o que permitiu o desenvolvimento de aplicações semelhantes como o Azureus e impediu que, ao contrário dos agora extintos Grokster e WinMX e do Kazaa, a rede fosse atolada por processos judiciais.

Se a BT.com decidisse agora fechar completamente o código - o que não parece ser o caso, como se pode ler no P2P Blog -, o seu potencial mercado “legal” desapareceria numa ápice, pois nenhum utilizador continuaria a utilizar uma tecnologia de partilha de ficheiros proprietária e contendo exclusivamente conteúdos protegidos por DRM. Até porque muitos projectos de software open-source, netlabels e ONGs utilizam o protocolo como sistema de distribução de conteúdos livres e legítimos.
Ainda sobre o BitTorrent, Bram Cohen deu também recentemente uma entrevista ao site ZeroPaid onde afirma recusar desenvolver um patch para o protocolo que ajude os sites privados de indexação de ficheiros torrent a controlar melhor o rácio de uploads/downloads por utilizador. Estes serviços de tracking são utilizados sobretudo para o download de material ilegal e, dado serem de acesso restrito, oferecem velocidades superiores. O tipo de monitorização pretendida evitaria que “abusadores” (leechers) retirassem mais do que dão em troca aos outros utilizadores. Embora Cohen afirme que qualquer interferência desse género na rede irá desencorajar a partilha, alguns partidários dos rácios acusam-no de estar apenas a defender os interesses de Hollywood.
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