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“Liberté, Égalité et Fraternité” na era do P2P - Parte II Publicado 10 Out 06

Através do blog do Alban Martin, encontrei uma míriade de sites que revelam o enorme grau de adesão que a cultura livre tem vindo a receber na França, um fenómeno que está a milhas do que se passa em Portugal. P2P para os franceses significa cada vez mais a partilha legal e sem limites de música. E o melhor é que, através de sistema de doações, os artistas podem sair a ganhar em termos financeiros.

Um dos sites que destaco é o Jamendo, onde se pode escutar os podcasts do “L’âge de Peer”. Lançado no início de 2005, o site funciona como uma plataforma de distribuição de música livre sob licenças Creative Commons ou Licence Art Libre, assim como uma comunidade de músicos e apreciadores. Qualquer artista pode publicar as suas faixas através de um software específico, o Jamloader (Windows e Linux), dando assim a conhecer a todo o mundo o seu trabalho. Isto porque o Jamendo, apesar de ter sido criado por uma start-up de informáticos franceses e de estar sediado no Luxemburgo, integra também versões completas em inglês e alemão, e parciais em português, espanhol, italiano e polaco.

Para reduzir os custos, o download dos ficheiros é assegurado via redes P2P como BitTorrent, eMule e Kazaa, podendo o utilizador partilhar posteriormente as músicas em qualquer lugar. O site inclui também a capacidade de escutar por streaming as faixas no próprio site. Os ficheiros estão disponíveis em MP3 e no formato livre Ogg Vorbis. Ao inscreverem-se no Jamendo, os artistas dispõem de uma página Web onde podem promover concertos e novos lançamentos ou interagir com o público e outros músicos. O interface baseia-se no modelo Web2.0: catalogação de discos e faixas por tags; utilização excessiva de AJAX e publicação de comentários, notas e críticas; listas de artistas e faixas preferidas, sistema de recomendações adaptativo - baseado no software iRATE, etc.

Apesar de tudo isto ser disponibilizado gratuitamente, o site aposta sobretudo num modelo de doações voluntárias. Os ouvintes poderm doar o montante que quiserem para os artistas de que gostarem mais. A empresa compromete-se a transferir entre 90 a 100 por cento da doação para a conta PayPal do artista. Outras fontes de receitas consistem na organização de concertos e na inclusão moderada de “anúncios não-instrusivos” no site e nas músicas online, como se pode ler aqui. À primeira vista, ao navegar pelo site não encontrei qualquer tipo de publicidade, e isto tanto nas páginas dos artistas como nos fóruns de discussão. Mas a avaliar pelas críticas de alguns artistas, isto não parece ser bem assim. Em termos de modelo de funcionamento, o Jamendo tenta conciliar a estrutura comercial de um MySpace ou Digg com o modelo filantrópico do Internet Archive.

Segundo as estatísticas que divulga, o portal disponibilizou até agora 1683 álbuns, integra 39783 utilizadores activos e publicou 24845 críticas de discos. Na altura em que o visitei, registava cerca de seis mil downloads em curso no BitTorrent. Pesquisando por grupos lusófonos apenas encontrei os brasileiros Irreversíveis do Recife, que têm online o trabalho H.G. Wells.

Dogmazic.net

Criado a partir de uma associação sem fins lucrativos destinada à promoção de licenças livres com mais de cinco anos de existência, o Dogmazic.net chamava-se até muito recentemente Musique-libre.org, tendo sofrido uma remodelação gráfica. O Dogmazic.net orgulha-se de contar com “1067 horas de música disponíveis, 7602 faixas de 844 grupos e 95 editoras sob 24 licenças escutadas ou descarregadas 8621410 vezes em 624 dias” o que dá uma média de um milhão de downloads por mês. Para além de integrar playlists de rádio e podcasts personalizados, os ficheiros que disponibiliza podem também ser descarregados em MP3 ou Ogg Vorbis.

Recusando qualquer tipo de publicidade - embora também aceite doações -, este portal adopta uma abordagem acentuadamente activista, de defesa da liberdade da partilha de conteúdos online, em contraposição com a perspectiva mais comercial do Jamendo. Também ao contrário deste último, não pretende usurpar o papel das netlabels, funcionando como um repositório e agregador das etiquetas independentes de todo o mundo. Assim, podemos encontrar por lá as páginas das editoras portugas Test Tube e You Are Not Stealing Records, contendo a totalidade dos seus catálogos. A base de dados do arquivo - com um interface um bocado pesado - do Dogmazic.net pode ser pesquisada por artistas, editoras, álbuns, cidades do mundo e mesmo por tipos de licenças, desde todas as modalidades de Creative Commons passando pela Licence Art Libre, General Public License, Domínio Público e outras mais esotéricas.

Pela documentação e recursos disponibilizados, bem como pelos pelos fóruns disponíveis, vê-se que existe uma enorme atenção por parte dos organizadores deste site em esclarecer melhor o público, os artistas e os promotores de concertos sobre as licenças livres, o que está em causa na nova economia da música digital e qual o potencial dos novos modelos económicos alternativos que respeitam tanto os músicos como o público. Infelizmente, o conteúdo encontra-se maioritariamente em francês, embora exista uma versão parcial em inglês.

De modo a oferecer às micro-editoras a possibilidade de venderem os seus produtos e promoverem os seus artistas , o grupo de activistas por detrás do Dogmazic.net planeia também lançar dentro em breve uma nova plataforma intitulada Pragmazic. Como se pode ler aqui, a ideia é que para além de descarregar livremente os ficheiros, o público possa adquirir um download digital por 6 euros, recebendo em troca um arquivo de ficheiros audio sem compressão (no formato WAV), conteúdos multimédia e outro tipo de material com valor acrescentado. 66 por cento será dividido equitativamente entre o artista e a editora, 17 por cento serão destinado a um fundo comum para as netlabels de música livre, com vista à organização de eventos e compilações e o restante servirá para financiar a plataforma.

Tudo isto mostra que a música livre parece ir de vento em poupa por terras gaulesas. Neste post tentei mostrar como dois projectos, Jamendo e Dogmazic.net, estão a contribuir para mudar definitivamente o cenário da indústria musical europeia. A distribuição massiva de conteúdos livres nas redes P2P está a colocar em causa o discurso hipócrita e moralista das editoras, fazendo com que a partilha de ficheiros deixe de ser uma mera prática underground para se transformar em algo mainstream, com impactos profundamente políticos, como irei explicar amanhã. La révolution P2P ne sera pas télévisée!

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Algumas respostas a ““Liberté, Égalité et Fraternité” na era do P2P - Parte II” :

  1. [...] estreia finalmente o Pragmazic. Já tinha falado desta plataforma comercial de música livre em Outubro passado. Bem sei que há muita gente que pode considerar um paradoxo tentar ser comercial e livre [...]

    Comentário de » Um modelo de negócio para as netlabels? em 28 Mar 07 22:46.
  2. [...] público? Foi isto que o que os elementos da associação francesa Musique Libre, responsável pelo portal Dogmazic e pelo site de venda online de CDs Pragmazic. Dito e feito, depois de um trabalho de concepção e [...]

    Comentário de Automazic: quando a música livre chega ao espaço público em 18 Out 07 10:18.
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