Netlabels e cultura livre em Portugal

by Miguel Caetano on 15 de Outubro de 2006

Todos os blogs são fruto do egoísmo dos seus criadores. Este não é excepção. Há alguns meses atrás, depois de terminar a minha dissertação de mestrado sobre media tácticos, começei a interessar-me pela noção de Cultura Livre e, em especial, pelas netlabels. Um pouco por todo o mundo estavam a surgir novas formas de produção, distribuição e (re)apropriação cultural que punham em causa os monopólios mantidos ao longo do século XX graças à protecção do copyright. Como investigador, considerava que era útil e importante transmitir a outras pessoas o dinamismo e a pujança desta nova ecologia cultural. Inicialmente, guardava no meu del.icio.us todos os sites e artigos interessantes que ia encontrando. Mas mais tarde concluí que talvez a melhor opção fosse criar um blog que funcionasse não só como um bloco de notas, mas onde também pudesse desenvolver algumas ideias a partir do que ia lendo e entrar em diálogo com as pessoas que estão realmente envolvidas nesta “revolução cultural”. Aí nasceu o Remixtures.com

Enquanto esperava pela defesa da minha dissertação, fiz o esboço de um projecto de investigação. Não me valeu de nada até agora, mas pode ainda ser útil para um projecto de doutoramento – isto, é claro, noutro país que não Portugal. Aqui fica o texto. Agradeço desde já todo o tipo de comentários, críticas e sugestões.

Nos últimos anos têm surgido na Internet um número crescente de netlabels, editoras independentes que distribuem música alternativa através de formatos digitais de áudio. Tal como as editoras tradicionais, as netlabels produzem e promovem projectos musicais de artistas seleccionados. A maior parte permite descarregar gratuitamente as obras, através de licenças Creative Commons que possibilitam a partilha dos ficheiros.

Se fizermos uma pesquisa no Google por “netlabels” obtemos 4,5 milhões de resultados. Actualmente, o Internet Archive, que aloja gratuitamente os trabalhos de muitas netlabels, contém nos seus servidores os catálogos de mais de 500 destas editoras, abarcando cerca de 8100 registos (http://www.archive.org/details/netlabels).

Em Portugal, existem actualmente oito netlabels, a grande parte das quais surgidas nos últimos dois anos. Este novo modelo de distribuição e produção cultural também já foi alvo de notícias em jornais nacionais:

  • Jornal de Notícias – Netlabels (2005/12/31)

A nível europeu, começam também a surgir os primeiros estudos académicos sobre netlabels:

Partindo do trabalho da minha dissertação de mestrado em que já abordava a produção colaborativa de cultura e conhecimento por intermédio de tecnologias digitais, pretendo investigar as netlabels e outras formas de netaudio através de uma abordagem da subcultura de utilizadores e criadores que participam nela de uma forma DIY (Faça Você Mesmo) e das práticas de partilha envolvidas. Tenciono também analisar as possibilidades de auto-sustentatibilidade económica destas iniciativas, tanto em termos nacionais como comparando com outros contextos e iniciativas semelhantes, como o caso do site Trama Virtual, que permite aceder a 20 mil músicas inéditas de mais de 10 mil artistas e que foi criado pela reputada editora independente brasileira Trama (no catálogo desta editora encontram-se artistas como Elis Regina, Tom Zé, Ed Mota, Gal Costa, Tim Maia) ou do Overmundo, um site colaborativo que permite aceder e distribuir músicas, vídeos, notícias e outros textos, de forma a disseminar a produção cultural brasileira.

Deste modo, colocam-se as seguintes questões:

  • De que modo é que as netlabels e outras iniciativas semelhantes fomentam a disseminação global de novas estéticas e práticas de produção cultural?
  • Que relações existem entre a rede de netlabels e espaços de divulgação como o site MySpace.com, blogs e publicações especializadas? Qual o papel que estes desempenham na promoção de novos artistas e lançamentos?
  • Como é que as netlabels podem financiar as suas actividades se disponibilizam gratuitamente a música em formato digital? Será que estes projectos inovadores não se limitam a ser meras formas de produção voluntária motivadas pelo puro altruísmo de semi-amadores ou pela filantropia de grandes fundações, universidades, instituições públicas ou até mesmo empresas privadas?
  • Será que estas editoras recorrem ou podem recorrer a planos de negócio semelhantes aos adoptados por empresas de software livre e de código-fonte aberto através da comercialização de CD-Rs e DVDs que ofereçam ao público um valor adicional (extras, gravações ao vivo) e de merchandising, da organização de concertos e DJ sets ou de sistemas de doações.
  • De que modo é que os artistas podem também ser renumerados? Até que ponto é que estes poderão eliminar a intermediação da netlabel que ao desempenhar um papel de curadoria assegura a qualidade da obra do criador junto da comunidade de ouvintes do género de música em que esta se insere.
  • De que forma é que as novas licenças jurídicas do tipo Creative Commons podem proteger os artistas? Por outro lado, será que as netlabels nacionais permitem a criação de obras derivadas a partir das músicas que disponibilizam?
  • Qual a repercussão que o trabalho das netlabels tem vindo a obter junto dos críticos de música dos media generalistas e de maior circulação e das rádios de grande audiência?

De forma a responder a estas questões, será necessário realizar:

  • questionários e/ou entrevistas online a responsáveis por netlabels, artistas representados por estas editoras, bloggers especializados, colaboradores de publicações especializadas, críticos de música, apresentadores de rádio e visitantes dos sites/utilizadores.
  • pesquisa etnográfica junto do circuito de concertos e outro tipo de espectáculos promovidos por netlabels.
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    1 MrCool 15 de Outubro de 2006 ás 15:56

    belas perguntas, acho que deves “correr a trás” e se precisares de contactos ou ajuda para qualquer coisa avisa.

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    2 Miguel Caetano 15 de Outubro de 2006 ás 16:04

    OK. Obrigadão pela força, Cool!

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