A expansão recente de muitas das plataformas da Web 2.0 tem assentado em grande parte naquilo a que o jornalista Jeff Howe da revista Wired apelidou de “crowdsourcing”. Este termo está associado a uma prática comercial que explora as potencialidades de lucro existentes no software open-source e noutros projectos colaborativos. No fundo, trata-se de outra forma de “outsourcing”, isto é, deslocalização das actividades de produção industrial para partes do globo onde a mão de obra é mais barata. Mas ao invés de depender de milhares de indianos e chineses não-qualificados, o crowdsourcing baseia-se no trabalho intelectual de uma vasta massa de voluntários e amadores profissionais – Pro-Ams – com elevadas qualificações que, a troco de uns míseros centímos ou mesmo de nada, produzem conteúdo, resolvem problemas técnicos ou desenvolvem investigação.
Um dos exemplos mais paradigmáticos desse tipo de plataformas comerciais é o Mechanical Turk da Amazon. Este serviço oferece às empresas um manancial de teletrabalhadores dispostos a executarem pequenas tarefas. As tarefas podem abranger desde verificar se as horas de funcionamento indicadas nos sites de restaurantes coincidem com os dados de um directório online, catalogar imagens com tags – etiquetas – ou transcrever emissões de podcasts. Embora estas actividades sejam de difícil execução para um computador, elas são bastante simples para um humano. Em alguns casos, os utilizadores recebem uma pequena quantia que pode ir desde um cêntimo até alguns dólares.
Mais recentemente, o Google lançou um serviço de crowdsourcing em que, através de um jogo de classificação de imagens, os utilizadores são convidados a assistir a uma sequência de “thumbnails” e acrescentar tags. O aspecto lúdico do jogo reside no facto de fazermos par com outro parceiro online aleatoriamente seleccionado. Deste modo, as imagens só avançam se os dois introduzirem uma mesma tag ou concordarem em passar à frente. Este tipo de folksonomias é também empregue desde há muito em sites como o Flickr e o del.icio.us, só que aí o utilizador tem uma motivação pessoal forte uma vez que está a catalogar imagens e sites que deseja partilhar com a sua rede social.
Apesar de muitas vozes do sector empresarial norte-americano encararem a “sabedoria das massas” como a solução ideal para reduzir os custos com a mão de obra e aumentar a inovação, alguns críticos, como Chris Messina, argumentam que o crowdsourcing não é mais do que um eufemismo encapotado para trabalho escravo semelhante às sweatshops existentes em países reconditos como as Filipinas e o Vietname, onde crianças passam às vezes 16 horas por dia em fábricas de vão de escada a fabricarem artigos desportivos e de moda que ostentam o logotipo de marcas como Nike e GAP.
Através da webzine italiana Neural, fiquei a conhecer dois projectos artísticos colaborativos que tornam evidentes as possibilidades e as deficiências do crowdsourcing. Um deles, Why Are You Here, Right Now? consiste numa publicação que partiu de um repto lançado através do Mechanical Turk. Mil pessoas oriundas de todas as partes do mundo responderam à questão que dá nome ao livro pelo preço de um cêntimo de dólar. A obra foi editada e organizada num período de 50 dias. O ebook está disponível aqui, mas quem quiser pode encomendar um exemplar em papel por 16.06 euros. Os organizadores prometem doar um terço dos lucros às crianças afectadas pelo furacão Katrina.
Em contraste com o tom cor-de-rosa e bem intencionado do YRUHRN, o The Sheep Market pretendeu mostrar de um modo sarcástico como é fácil tirar partido da boa-vontade dos Turkers. Aaron Koblin, um designer de media, colocou uma proposta no site da Amazon solicitando utilizadores que tivessem dispostos a desenhar uma ovelha com o focinho virado para a esquerda em troca de dois cêntimos de dólar. Em 40 dias, o projecto angariou uma colecção de 10 mil desenhos dotados de um estilo bastante peculiar, com traços ao mesmo tempo toscos e patuscos. No final, Koblin decidiu vender os desenhos ao preço de 20 dólares cada. Apesar dos protestos dos teletrabalhadores, o “golpe” foi perfeitamente legal, uma vez que os participantes tinham assinado um acordo em que cessavam todos os direitos sob as suas “obras de arte”. No site do projecto, pode-se assistir a gravações em Flash das sessões de desenho. The Sheep Market mostra de uma forma convicente como a ingenuidade de voluntários pode ser facilmente explorada através de engodos bem concebidos.

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