“Crentes” financiam músicos através de fundos de investimento na Web2.0 - Parte II Publicado 6 Nov 06
Na primeira parte deste post, abordei o site SellABand.com, um novo projecto da fornalha da Web 2.0 que pretende funcionar como uma plataforma de angariação de fãs ou “crentes” que querem ajudar novos músicos e bandas e estejam dispostos a investir em acções no valor de 10 dólares de forma a constituir um fundo de 50 mil dólares que servirá para a gravação de um álbum (aliás, fiquei entretanto a saber que os holandeses Nemesea já conseguiram recolher esse montante).
Este modelo de negócio da indústria musical baseado em doações de fãs destinadas a financiar o lançamento de novos trabalhos de artistas foi implementado inicialmente pela ArtistShare. Desde 2004, esta empresa tem apostado em músicos com um reportório ligado ao Jazz, oferecendo aos melómanos um contacto mais directo com as fases de composição e produção do disco. Desta forma, o produto deixa de ser o suporte físico para passar a ser o processo criativo. É que ao contrário do conteúdo, a interactividade e o contacto intímo com o público nunca poderão ser digitalizados e distribuídos por redes, como explica Brian Carnelio, fundador da ArtistShare. Sim senhora! Isto é que mesmo a total imaterialização da economia da produção cultural! Os serviços fornecidos, denominados “ofertas para participantes” (”Participants Offers”) podem ir desde o acesso antecipado a novas faixas, cópias autografadas de álbuns, bilhetes de borla para concertos ou a lições online de composição.

Deste modo, um artista que pretenda gravar um álbum e queira recolher dinheiro para alugar um estúdio ou contratar músicos de suporte, disponibiliza a partir da sua página no site uma lista de opções. Uma versão pré-lançamento de um novo disco pode custar entre 20 a 30 dólares. Já quem quiser uma cópia autografada da CD poderá ter que desembolsar 400 euros. Por três mil dólares, o artista pode até mesmo escrever uma música de propósito para o seu fã. Outras opções mais extravangantes incluem o acesso privilegiado a todo o conteúdo online do projecto - veja-se o caso de Ed Neumeister que tem actualmente à venda por 10 mil dólares um pacote de “produtor executivo”. Em troca, a ArtistShare obtém uma percentagem do dinheiro colectado através das ofertas e uma comissão sob as vendas do produto final até ao fim da visa do autor! Umm… parece mesmo que voltámos aos tempos do Antigo Regime em que os autores eram financiados por patronos como os Médici de Florença.
A primeira artista a aderir ao sistema foi a pianista e compositora Maria Schneider, que arrecadou no ano passado um Grammy pelo seu álbum de 2004, “Concert In the Garden”. A produção do disco - que custou quase 90 mil dólares - foi totalmente financiada através do ArtistShare, tendo sido o primeiro trabalho premiado com aquele galardão da indústria norte-americana de entretenimento a ser distribuído na Internet. No final, apesar de ter vendido menos, o álbum acabou por dar mais lucro que outros trabalhos anteriores da artista. Também, não admira: já a pensar no próximo disco, “Sky Blue”, a lançar em 2007, Maria Schneider está a solicitar 18 mil dólares por um pacote de “produtor executivo”.
Relativamente mais aberto é o Weedshare, um serviço que encoraja a partilha - ainda que controlada - de música entre os utilizadores. Como se pode ler na secção de ajuda do site, o sistema desta empresa codifica e converte os ficheiros contendo as faixas dos artistas numa versão do formato Windows Media da MS que contém a tecnologia de DRM (Gestão de Direitos Digitais em português) da Microsoft, permitindo desta forma controlar a distribuição e redistribuição das músicas. Os artistas podem então distribuir os ficheiros da forma que preferirem, incluindo o próprio site da Weedshare, lojas online afiliadas, blogs, site pessoal, página no MySpace ou mesmo em redes P2P.

Isto porque o software da MS - tal como todas as tecnologias de DRM - funciona como um porteiro virtual que impede que a faixa seja reproduzida gratuitamente mais do que três vezes. Quem quiser ouvir mais, terá que comprá-la. O preço é estabelecido pelo artista, variando entre os 50 cêntimos e os quatro dólares, sendo geralmente de um dólar. 50 por cento do dinheiro obtido com a venda vai directamente para o bolso do artista; 20 por cento vai para o utilizador que partilhou o ficheiro com o comprador; 10 por cento para o internauta que partilhou a música com essa pessoa; 5 por cento para a pessoa que partilhou o ficheiro com esse indivíduo. Os restantes 15 por cento vão para a Weedshare.
O Weedshare aposta assim numa estratégia de disseminação viral para incentivar a partilha de ficheiros dentro das regras das leis de copyright e direito de autor. Mas apesar de ser uma proposta mais justa, em termos éticos, quer para o artista, quer para o utilizador, os inconvenientes ainda são vários. Para além do sistema recorrer à tecnologia DRM para impor restrições ao utilizador - tratando-os como se fossem “piratas” -, antes de serem adquiridos, os ficheiros não podem ser convertidos para outros formatos que não o Windows Media, o que acaba por “prender” o utilizador ao sistema operativo da Microsoft. A possibilidade de gravar para um CD, converter para MP3 e, deste modo, tranferir as faixas para um iPod, por exemplo, só é concedida depois de efectuar a transacção.
Infelizmente, apesar das boas intenções demonstradas por alguns dos agentes do mundo das indústrias de conteúdos através de projectos como o Weedshare, as falhas técnicas de todas as barreiras artificiais erguidas entre o produtor e o utilizador continuam a demonstrar que a indústria de conteúdos ainda não se apercebeu da filosofia inerente à cultura digital: No final, por mais muralhas, portões, protecções, fronteiras que se queira erguer à música, à cultura e à informação em geral, todos os esforços proteccionistas serão em vão. Mais tarde ou mais cedo, virá um Jon Johansen ou outro miúdo qualquer para hackear a encriptação e DRM atreladas à nossa música ou filmes. A informação é intangível e por isso não pode ser tratada como um pedaço de terra, uma propriedade inerte. Como diz McKenzie Wark em “A Hacker Manifesto”, “a informação quer ser livre mas está acorrentada em todo o lado”. A alternativa passa por constituir plataformas baseadas em licenças livres, como a Pragmazic que os franceses do projecto Dogmazic.net estão a desenvolver.
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Comentário de Kristen Hersh lança CASH Music - música independente financiada pelos fãs :: Remixtures em 28 Nov 07 22:25.[...] fãs não é propriamente novo. Embora especializada na música Jazz, a empresa ArtistShare tem vindo a apostar num modelo de negócio bastante semelhante a este desde 2004. Quem [...]
Comentário de Cantora Jill Sobule pede a fãs para patrocinarem novo álbum | Remixtures em 20 Jan 08 13:44.[...] das faixas de uma forma viral, via blogs, lojas online e até mesmo redes P2P. Mas como eu referi aqui em Novembro, o que traçou o destino do Weedshare foi o recurso a DRM e a dependência num único [...]
Comentário de DRM e dependência de Windows Media levam ao fim de Weedshare | Remixtures em 17 Mar 08 00:02.