A evolução do gratuito para o pago numa netlabel

by Miguel Caetano on Novembro 30, 2006

Será que uma netlabel que começa a cobrar pela música que até então disponilizava gratuitamente pode continuar a ser considerada uma netlabel? Coloco esta pergunta porque o selo espanhol de música electrónica Synergy Networks passou recentemente a cobrar por novos lançamentos de trabalhos dos seus artistas. Num fórum de discussão da webzine cultural Animatek gerou-se uma discussão interessante entre alguns dos elementos do movimento espanhol de netlabels. Como seria de esperar, grande parte dos comentários criticam esta decisão.

No texto de uma apresentação realizada no final de Outubro em Madrid durante um debate dedicado ao tema “Netlabels, Creative Commons e outras formas de difundir a tua música através da Internet”, Luis Ortiz, fundador e responsável da Synergy Networks, justifica esta passagem do gratuito para o pago com o fracasso do sistema de doações voluntárias. “Infelizmente, não encontrámos qualquer resposta nos últimos três anos, tendo apenas recebido uma doação de cinco euros.”

A solução encontrada pela editora espanhola para não hostilizar o seu público-fiel passa por continuar a disponibilizar alguns conteúdos gratuitos como gravações de concertos ao vivo e vídeos. Em contrapartida, pretende lançar coletâneas de vídeos em suporte DVD distribuídas mundialmente em edições limitadas.

Ortiz elabora na sua comunicação uma série de reflexões interessantes sobre a reputação, o valor e a sustentabilidade a longo prazo das nelabels. Mas se as dúvidas que coloca no ponto de partida são pertinentes, a saída apontada carece, a meu ver, de algum fundamento. Por exemplo, Ortiz queixa-se de que muitos DJs “roubam” as netlabels e os artistas ao receberem dinheiro por passarem as suas músicas sem os recompensar em troca. Mas como relembra acertadamente um participante no fórum da Animatek, se um selo de música online publica os seus trabalhos segundo uma licença Creative Commons que impede a utilização para fins comerciais das obras por outrem e se alguém desrespeitar essa condição, essa pessoa deve ser denunciada, podendo até ser levada a tribunal, caso o licenciamento da obra tenha sido registado por um “registrar” como o RegisteredCommons e a Numly.

Outro obstáculo que o fundador da Synergy Networks identifica na actividade de uma netlabel gratuita tem a ver com os custos de manutenção e funcionamento implicados na disponibilização de música livre. Uma vez que os artistas têm que estar inscritos em sociedades de autores como a SGAE espanhola e a GEMA alemã, as netlabels são obrigadas a pagar a estas organizações uma taxa por cada download.

Mas isso não implica necessariamente que a única solução seja colocar um preço em música que até ontem era distribuída em formato digital de borla, para ser compartilhada livremente. Existem vários projectos de edição música espalhados por todo o mundo que dividem as suas actividades entre um selo tradicional especializado em vinil e CDs de edição exclusiva e uma label gratuita – veja-se o caso da portuguesa Monocromática/Test Tube. Para além de dificultarem a promoção e disseminação de novos artistas – que foi, afinal de contas, o objectivo inicial da Synergy -, os downloads pagos não impedem que as faixas sejam imediatamente compartilhadas por alguma “alma caridosa” – excepto, é claro, se se recorrer a uma tecnologia de DRM e mesmo assim, será sempre possível quebrar a protecção…

Por outro lado, não podemos também ignorar que a origem e história das netlabels remete para uma associação ao conceito de cultura livre enquanto partilha livre – embora não necessariamente grátis – da informação que lhe serve de base, como explica o blog MinimalNet numa crítica contundente a este novo modelo comercial.

O signficado da palavra “netlabel” por si só é o de “selo online”, mas através do tempo e com o uso massivo que a sociedade lhe concedeu, tal como sucede com muitos outros termos, derivou numa acepção mais específica, “selo online gratuito”
(…)
O termo “netlabel” traz implícito uma série de valores que não se associam a outro tipo de selos como… generosidade, altruísmo, romantismo, rebeldia…, palavras que hoje em dia são quase utópicas mas que por oposição, como se se tratasse de um milagre, são uma realidade neste tipo de selos”
(…)
Por isso, quando alguém que vende a sua música se auto-proclama como netlabel, está claramente a aproveitar-se de todos os benefícios estéticos/sociais que esta palavra transporta sem pôr em prática nenhuma das razões que o fariam merecedor dela”
(…)
Eu, como é lógico, compreendo que um artista ou selo venda a sua música mas nesse caso, por uma questão de respeito para com as verdadeiras netlabels, deveria-se usar outra palavra para se definir. “Online label”, por exemplo.

Contudo, independentemente dos esforços de muitos activistas do movimento pela cultura livre, como também alguém referiu na discussão do fórum da Animatek, a verdade é que aquilo que começou como um espaço de partilha está-se a converter em alguns casos num espaço de venda, com o consentimento dos artistas, labels e a indústria.

A Clever Music é um dos exemplos mais recentes dessas netlabels de downloads pagos. Este selo alemão estabeleceu uma parceria com a Beatport, uma loja online que vende downloads de música de dança e remixes em formato MP3 de 320 Kbps e WAV por um preço que pode variar entre 1.49 e 3.49 euros. Nos últimos anos, este site tem vindo a integrar no seu catálogo os trabalhos de uma série de editoras independentes e netlabels, contando actualmente com cerca de 3000 selos.

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