“Mashups: A mistura é bela” Publicado 8 Nov 06
Via mediateletipos, um blog colectivo espanhol bastante atento às novas tendências da cultura digital da remistura, cheguei a um artigo de Mercè Molist onde esta jornalista dá conta de outra variante do conceito de Mashup. É que para além da acepção mais tradicional associada a este tipo de produção colaborativa, relativa aos artefactos culturais que combinam sons e vídeos com valor estético (pouco ou muito, consoante os casos…), o termo passou a abarcar também um vasto conjunto de software social que agrega dados, na sua maioria relativos a geolocalização. Nesse sentido, trata-se também de uma forma de “locative media”. É claro que esse tipo de serviços agregados despertou logo o apetite de uma série de empresas, interessadas em tirar proveito comercial do “crowdsourcing”, isto é, da colaboração de voluntários. Daí que, embora o artigo se afaste da temática da cultura livre, eu o tenha decidido traduzir:
A MISTURA É BELA
O “mashup” ou combinação de serviços de diversos sites da Web atrai as empresas da rede
Mercè Molist
É como fazer uma poção mágica: pega-se numa pitada de mapas do Google, acrescentam-se umas gotas de fotos do Flickr, ferve-se a lume brando numa solução de coordenadas GPS e, “voilá”, temos um novo site da Web que mostra fotos geolocalizadas em diferentes partes do planeta.
É possível que os leitores tenham já deparado, sem o saber, com algum site que se inscreve dentro do movimento “mashup”. Isto porque o fenómeno chegou mais longe que a palavra, originária dos disc-jockeys que misturam diversos temas para criar outros novos.
Segundo o site Programmable Web, em seis meses o número de “mashups” na Internet aumentou para o dobro. A Wikipedia define-os como sendo “um sítio web ou aplicação web que combina conteúdo de uma ou mais fontes, numa experiência integrada. Este conteúdo provém habitualmente de terceiros, através de uma interface pública ou API, assim como de feeds de RSS e Javascript”.
As APIs são pequenos programas, muito fáceis de configurar, que se instalam no servidor Web em que o “mashup” é executado. A API entra em contacto com o site de onde o conteúdo provém - que pode ser o Google Maps, por exemplo - e solicita-lhe que lhe envie os dados que o utilizador requer naquele momento.
De momento, os principais fornecedores de conteúdo para “mashups” são grandes serviços como o Flickr, eBay, YouTube, Amazon, Yahoo!, Microsoft ou Google. Em Espanha, a maioria dos “mashups” baseiam-se no Google Maps.
Javier Casares, editor de OJObuscador e organizador do primeiro concurso espanhol de “mashups” adianta a seguinte explicação: “AS APIs do Yahoo! ou Microsoft ainda não têm a geolocalização implementada para Espanha, apenas para os Estados Unidos. Em troca, o Google Maps sim, é quem oferece mais APIs e dados”.
Assim, a imaginação dos nossos webmasters centrou-se nos mapas da península e nas múltiplas formas de aproveitá-los para localizar praias de surf, pontos de acesso WiFi, mercados, centros escolares, casas “okupadas”, clubes de xadrez, informação meteorológica e inclusive os assassinatos ocorridos em Madrid.
A estrutura de estes sites pioneiros é sempre a mesma: oferece-se uma cartografia, que pode ter diversos níveis de produndidade, com conteúdos localizados geograficamente e aos quais se acede clicando no mapa.
Alguns começam já a acrescentar mais complexidade, como Panoramio, que mistura mapas do Google com fotos do Flickr, para além de fotos tiradas por visitantes em diversas partes do mundo; de modo que é a própria comunidade de utilizadores que contribui com os conteúdos.
Outra filigrana é Hora y Lugar, que permite combinar um encontro com alguém e mandar-lhe uma mensagem por email a avisar-lhe do encontro, juntamente com o mapa do sítio onde terá lugar.
Juntamente com estas criações experimentais, destacam-se as empresas como a Adoos que compreenderam as possibilidades dos “mashups” e que os estão a usar com fins comerciais, para localizar lojas, reservar quartos de hotel ou vender apartamentos. Ou ainda para criar sites populares contendo publicidade, como o Bilbao.bi.
O Adoos é um serviço de localização geográfica de propriedades para venda da empresa Habitamos.com. O seu porta-voz, Julián Martínez, refere: “A ideia surgiu de modo a facilitar a compra ou venda de apartamentos e moradias, acrescentando mais informação aos anúncios que já oferecíamos. Assim, os anunciantes da Habitamos.com podem adicionar detalhes sobre a localização da sua propriedade de foma a que apareça no mapa”.
É um “mashup” simples mas eficaz, explica Martinez: “Contribui com nova informação, de forma mais interactiva e visual, pelo que as decisões relativas à compra são melhores e, para além disso, acaba por poupar tempo, uma vez que se encontra mais rapidamente os imóveis através dos mapas”.
Martinez está convencido do futuro dos “mashups” no sector imobiliário: “Vão se tornar ferramentas de uso quotidiano, para as pessoas que procuram a sua vivenda na Internet, por que contribuem com informação que ajuda na decisão final. O que se vê no presente é apenas o segundo passo no desenvolvimento destas aplicações e ainda há muito para andar”.
O Adoos está agora a tentar ampliar os seus “mashups” à venda de carros em segunda mão. Quem também pensa em ampliação é a Alianzo, a empresa-mãe do Bilbao.bi, que pretende repetir a experiência noutras cidades espanholas.
O Bilbao.bi nasceu no Verão de 2005 como uma comunidade virtual baseada nesta cidade. “Tinha acabado de surgir o Google Maps e compreendemos logo que isto era o que havia de mais próximo da nossa realidade na Internet: ver a tua casa, o local em que trabalhas ou a praia em que destes o primeiro beijo”, explica José Antonio del Moral, da Alianzo.
O Bilbao.bi explora ao máximo o “mashup”: os utilizadores podem marcar no mapa locais que consideram importantes para eles e que os outros poderão ver, assim como o seu restaurante preferido ou onde compram o pão. Também mostra o percurso dos autocarros, o tempo, fotos da cidade retiradas do google ou as últimas entradas em blogs e meios de comunicação. Tudo isto são misturas de conteúdos externos ou dos próprios utilizadores.
Na Alianzo, estão muito satisfeitos com a experiência: “Tem índices de crescimento mensal de 40 por cento, já estamos em mais de 3.000 visitas únicas diárias e está-nos a gerar receitas publicitárias”. Para Del Moral, os “mashups” são uma mais-valia: “Se há alguém que faz algo melhor, não temos que ser nós próprios a fazer tudo, como acontecia na época dos portais”.
Outra empresa que já se aventurou no desenvolvimento de “mashups” é a eListas, através do BlogoMapa Hispano, onde se podem localizar 8.000 blogs em diversas regiões e cidades do mundo. Trata-se de um serviço adicional do Zoomblog.com, da mesma companhia, que oferece alojamento para blogs, embora esteja aberto a todos.
Rogelio Bernal, da eListas, imagina futuras aplicações empresariais baseadas em “mashups”: “Por exemplo, uma aplicação de Gestão de Relações com o Cliente, que permita a um cliente criar funcionalidades que o ajudem a colaborar com uma empresa e vice-versa”.
No seu caso, a aposta é: “Mais que fazer “mashups” baseados nos serviços de outros, interessa-me oferecer APIs para que terceiros montem os seus com base nos nossos serviços, o que seria uma situação vantajosa pois, dessa forma, outros estendem as possibilidades do teu serviço de formas que nunca te tinham ocorrido a ti até então”.
Javier Casares também pensa que “as empresas irão retirar o maior proveito dos “mashups”, como já o estão a fazer alguns hotéis, a Muchoviaje.com através de uma oferta de lazer geolocalizado ou a Starbucks que permite saber onde há um café seu em qualquer lugar do mundo e coloca publicidade fixa nos mapas”.
A empresa GeoFactory, filial da LaNetro Zed, prepara-se para lançar um novo serviço de geolocalização para telemóveis e PDAs baseado num “mashup”: “Vamos utilizar o Google Maps e o Google Earth para funcionalidades específicas, para além de outras cartografias, num serviço que localizará a oferta de lazer e serviços com informação actualizada, como a distância, horários ou telefone”, explica Manuel Muñoz, director de Marketing da GeoFactory.
Por se encontrarem ainda numa fase inicial, os “mashups” limitam-se por agora a uma única área: a geolocalização. Seja na Terra ou em outros corpos celestes, como o mapa da Lua onde o Google marcou os lugares de aterrissagem das expedições Apolo, Casares deixa bem claro: “Os “mashups” não vai mais além do que a geolocalização”.
Mas segundo as estatísticas do ProgrammableWeb, o principal centro de encontro dos criadores mundiais de “mashups”, ainda que os primeiros apenas se baseavam em mapas, agora já representam somente uma terça parte. Os restantes misturam outras coisas, como motores de busca, lojas, informação desportiva, vídeos, música ou viajens de forma a criar, por exemplo, um motor de busca de celebridades.
Quais os perigos?
Os pioneiros dos “mashups” em Espanha reconhecem a existência de alguns pontos obscuros. Para Julián Martínez, da Adoos, “o aspecto negativo é que exigem mais recursos, tanto aos nossos utilizadores, já que uma ligação telefónica normal demora muito tempo a mostrar os mapas com toda a informação, como ao nosso sistema, que deve suportar mais de dois milhões de utilizadores e um “mashup” muito interactivo.
Rogelio Bernal, da eListas, teme pela propriedade intelectual: “Um “mashup” combina duas ou mais propriedades intelectuais para criar uma terceira. Por exemplo, tu colocas uma foto no Flickr. O Flickr oferece uma API para que possamos criar “mashups”. De repente, a tua foto aparece num “mashup”. E se alguém no processo tenta obter benefícios económicos? E se eu autorizo que as pessoas possam criar “mashups” no Flickr, onde aparece a minha foto, mas oponho-me a que alguém lucre com ela? Conforme o fenómeno se for desenvolvendo, este tipo de situações pode complicar-se”
José Antonio del Moral, da Alianzo, vê outro risco: “A dependência. Hoje em dia, o Google permite-nos utilizar os seus mapas até um limite de 10.000 transferências diárias. Mas o que iria suceder se amanhã decidisse fechar a torneira?”.
Concurso de “mashups” do Google Maps em Espanha
http://concursos.ojobuscador.com/googlemaps/
Panoramio
http://www.panoramio.com
Hora y Lugar
http://www.horaylugar.com
Adoos
http://maps.adoos.es
Bilbao.bi
http://bilbao.bi
El BlogoMapa Hispano
http://www.egrupos.net/blogoMap.html
GeoFactory
http://www.geofactory.com
ProgrammableWeb.com
http://www.programmableweb.com
Missões Apolo na Luna
http://moon.google.comCopyright 2006 Mercè Molist.
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No Brasil, um bom exemplo de mashup é o Imobilien (www.imobilien.com.br), que usa a API do Google Maps para disponibilizar imóveis de diferentes fontes.
Comentário de Marcos em 21 Mai 08 16:58.