“Crentes” financiam músicos através de fundos de investimento na Web2.0 – Parte I

by Miguel Caetano on 1 de Novembro de 2006

Através de estratégias como o crowdsourcing e a “cauda longa”, a Web 2.0 está a começar a aplicar ao mundo da música online metáforas oriundas do mundo dos negócios como os fundos de investimento. O SellABand.com é um dos fenómenos mais recentes dessa moda – tendo até recebido honras de destaque na bíblia TechCrunch -, uma vez que os artistas que aderem a este site são financiados pelos fãs e por publicidade. Esta empresa alemã tem como mui nobre missão acabar com todos os muros da indústria discográfica que separam os que estão dentro – os autores – e os que estão fora – o público. “Todos os que têm paixão pela música podem estar dentro. É a tua música. É a tua escolha”. Com esta declaração de fé, não admira que a linguagem empregue pelos senhores do SellABand.com esteja impregnada de um certo misticismo.


O esquema consiste em fazer com que, depois de criarem uma página de perfil e efectuarem o upload de três ou menos faixas demo no formato MP3, os artistas possam atrair o patrocínio de melómanos interessados – chamados de “crentes” (believers). Se gostarem daquilo que ouvirem, esses “crentes” podem comprar acções no valor de 10 dólares. Quando o total recolhido por cada artista ascender aos 50 mil dólares, essa verba é alocada para a gravação de um álbum num estúdio profissional com o apoio promocional e técnico de uma equipa de produção e A&R especializada. O disco é então impresso numa edição limitada de cinco mil cópias que serão, em seguida, enviadas gratuitamente por correio para os “crentes” que acreditaram no potencial artístico do projecto.

Posteriormente, as músicas que integram o trabalho são disponibilizadas de graça para download numa secção especial do site. As receitas de publicidade que daí advirem serão repartidas irmamente entre artistas (33%), “crentes” (33%) e a empresa SellABand (33%). Quanto mais downloads essa banda tiver, maior será a sua quota de mercado sob o dinheiro gerado pelo portal em anúncios. Em paralelo, será também lançada uma versão normal do CD que os artistas poderão vender através das suas páginas e nos espectáculos ao vivo. Os lucros obtidos com as vendas serão também divididos entre os músicos e os fãs.

A empresa quer funcionar como uma rampa de lançamento para novos artistas. Na prática, a SellABand oferece-se para desempenhar a função de intermediário entre o músico ou o grupo e os potenciais admiradores. Mas a verdade é que actualmente um artista pode muito bem vender os seus trabalhos num site próprio caso tenha uma base de fãs suficientemente grande. Daí que as bandas que aderem ao SellABand poderão estar a cair numa relação de dependência. Por isso, seria bom ler atentamente todos os termos do contrato antes de assinar qualquer coisa…

É que apesar de poderem escolher livremente os produtores e o estúdio que querem utilizar – desde que se enquadrem no orçamento -, os músicos têm que aceitar obrigatoriamente o executivo de A&R que a empresa escolher e que terá como função “orientar o artista na gestão do orçamento destinado à gravação”. Está-se mesmo a ver que as bandas terão toda a liberdade criativa… Mas não se preocupem, caros músicos esfomeados: Johan Vosmeijer, “managing director” da SellABand, promete que os juros gerados pelos fundos de investimento de cada artista irão servir apenas para o desenvolvimento do site e para a criação de um programa de promoção de artistas – isto é, marketing.

Até agora, os Nemesea foram a banda que conseguiu juntar mais dinheiro, com 42500 dólares em dízimos recolhidos desde 15 de Agosto. Estes holandeses apresentam uma sonoridade metálica-gótica direccionada para a MTV semelhante aos finlandeses Evanescence. A religião, perdão…, o grupo que vem em segundo lugar, embora muito distanciado, são os americanos cubworld, com 6930 dólares angariados dos fiéis desde 10 de Setembro e um som a lembrar Ben Harper, jack Johnson e Dave Matthews. Em terceiro lugar, vem o credo francês The Fakes que reuniu 5910 dólares desde 29 de Setembro, apostando num rock/popr melódico e romântico.

Coitados. Mesmo que consigam editar o álbum, apenas recuperarão os direitos sob as músicas passados 12 meses. Enquanto isso, a SellABand poderá vender as faixas para publicidade, toques de telemóveis, etc… É preciso ser muito “crente” para acreditar na boa fé de antigos executivos de companhias discográficas! Na segunda parte deste post, irei abordar outros sites comerciais que apostam num modelo de doações para financiar o trabalho de artistas.

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1 MrCool 3 de Novembro de 2006 ás 15:13

mais uma vez parabéns pelo trabalho.
e é sempre assim, não há bela sem se não…

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2 Miguel Caetano 3 de Novembro de 2006 ás 15:19

Hehe, pois… Mas há alguns projectos que começam a mudar a situação, como o Dogmazic.net na França.

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