Darknets contra Lightnets - Parte II Publicado 4 Dez 06
Na primeira parte deste post falei sobre as darknets, um tipo de redes privadas de acesso restrito tipo “friend-to-friend” que funcionam como um abrigo seguro para a partilha de informação, escapando assim ao controlo de certas entidades que querem controlar essa informação. Entre estas entidades contam-se os conglomerados multimédia interessados em defender a sua “propriedade intelectual” como se esta consistisse em bens físicos e tangíveis e os estados ditadoriais que pretendem evitar a disseminação de material político contrário às suas posições.
Face à perspectiva fechada, protegida, secreta, inacessível e invísivel ao mundo exterior associada ao conceito de darknet, Lucas Gonze, criador do WebJay, um serviço Web de playlists compostas por links para MP3 e outros ficheiros áudio, contrapôs num post de Novembro de 2005 o termo lightnet enquanto novo modelo para o futuro da distribuição de conteúdos digitais, um tipo de ambiente em rede que fomenta a remistura e a partilha de conteúdos. Ao contrário do material que circula pelas darknets que não pode ser linkado e por isso é ignorado pela Web, o que está disponível numa lightnet pode ser facilmente encontrado através do Google. Nessa medida, pode ser linkado, acedido e copiado sem ser necessário violar qualquer lei.
Do ponto de vista de Gonze, as tecnologias de DRM, redes P2P como o Napster, o KaZaa, o extinto WinMX e a plataforma de hardware/software iPod+iTunes são tudo exemplos de darknets - curiosamente em 2003, pouco tempo após o lançamento da loja virtual da Apple, Ross Mayfield designou o iTunes de lightnet.
De forma a salientar o princípio de acessibilidade que está na base de uma lightnet, Gonze dá os exemplos do ccMixter - site onde se pode efectuar o upload e download de remixes de obras com licenças livres -, a Creative Commons, o Webjay, a netlabel comercial Magnatune, os podcasts e os videoblogs. Tudo isto pode ser recombinado e repartilhado sem restrições.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me mais um rótulo cool, uma estratégia comercial da Web 2.0 para atrair dinheiro das grandes empresas de media. Vejam o que Gonze disse a respeito da sua “visão” num artigo publicado na Publish: “Num mundo Lightnet, o áudio e vídeo do New York Times será tão acessível como o texto. Qualquer um poderá enviar por e-mail o link para um amigo, incorporar o item numa playlist, comentar sobre o item na sua própria home page, e talvez criar uma obra derivada na forma de um remix, podcast ou videoblog.” Perceberam? A “pirataria” é remetida para o canto obscuro da darknet, ao passo que a lightnet passa a ser o domínio do conteúdo gerado pelos utilizadores crowdsourcers, que nunca acabam por ver um tusto do dinheiro que ajudam a gerar.
Na verdade, Gonze converteu as darknets numa amálgama onde cabem coisas totalmente distintas como DRMs, formatos proprietários e redes privadas entre amigos e desvirtuou-o com vista a tornar agradável aos olhos dos conglomerados multimédia a sua visão iluminada para combater as trevas representadas pelos “piratas”: “O conteúdo lightnet tenderá a ser mais popular que o conteúdo darknet. As editoras irão ceder parte do seu conteúdo de forma a vender outro conteúdo, e irão encontrar novas fontes de receita quando elas próprias se tornarem remixers”, profetiza ainda no mesmo artigo.
Noutra entrada do seu blog, podemos ficar com uma ideia de como funcionam as técnicas de propaganda memética da Web 2.0: “O termo darknet foi um desastre para a democracia digital. Pegou numa virtude universalmente admirada - a partilha entre amigos em espaços que preservam a privacidade - e pintou uma imagem de um underground sórdido (…) Contudo, as darknets não são o local para os media, elas são o local para a intimidade. Os media renováveis têm que estar à luz do dia, onde toda a gente os pode re-los”.
Por outras palavras: deixai vir os conteúdos, perfis e hábitos de consumo dos utilizadores aos vossos sites e vocês verão o dinheiro! Enquanto isso, o regime de direitos de autor continuará tão obsoleto como sempre, a desigualdade na distribuição da riqueza gerada online tenderá a agravar-se, etc. Ao contrário da abordagem burguesa de Gonze à política digital, partilho da opinião de que as economias underground em moldes anarquistas vão continuar a ser necessárias enquanto houver opressão e censura e a liberdade de partilha de informação for restringida em nome de noções irracionais como “propriedade intelectual”.
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