A lei do mais forte chega ao BitTorrent Publicado 9 Jan 07
O BitTorrent é considerado o protocolo P2P mais eficiente, embora tenha os seus problemas. Nesta rede de partilha de ficheiros todos os utilizadores ligam-se a um swarm (enxame) de computadores-cliente em que para iniciar o download de ficheiro é-se obrigado a iniciar automaticamente o upload. Isto é alcançado mediante um sistema de rácios em que quanto maior volume de uploads um utilizador efectuar, melhor será o desempenho em velocidade dos downloads. Este sistema é, por isso, vantajoso para os utilizadores que possuem uma maior capacidade de largura de banda, prejudicando, contudo, aqueles com uma velocidade limitada para upload. Daí que muitos membros da comunidade BitTorrent se queixem por vezes de que os downloads são muito lentos.
De forma a ultrapassar esta situação, foram sendo desenvolvidas uma série de técnicas fraudulentas no sentido de “convencer” a rede de que o cliente já efectuou um maior volume de uploads do que na realidade se realizou. Desta forma, a velocidade dos downloads aumenta ligeiramente. Mas se estes truques apenas estão normalmente ao alcance de utilizadores avançados, na última semana surgiram duas novas aplicações-cliente para BitTorrent desenvolvidas no âmbito académico que prometem satisfazer as necessidades dos mais impacientes, com o agravante de poderem vir a ameaçar a ética de partilha em que a rede está fundamentada.
BitTyrant
O BitTyrant resulta de um projecto de investigação do Departamento de Informática da Universidade de Washington, baseando-se no código do Azureus 2.5, sendo por isso uma aplicação Java multiplataforma (Windows, Linux e Mac) open-source, como informa o TorrentFreak. Num artigo científico, os investigadores afirmam que o software é capaz de alcançar ganhos de velocidade dos downloads na ordem dos 70 por cento ao estabelecer uma ordem de prioridade das ligações de upload do utilizador. Assim, quando se inicia o download de um ficheiro, o BitTyrant detecta as velocidades de uploads dos outros utilizadores. alocando maior capacidade de transferência de dados àqueles que lhes enviarem mais depressa. Desta forma, para além do download ser efectuado mais rapidamente, os utilizadores com taxas mais rápidas de upload são recompensados.

Quem sai prejudicado são aqueles com velocidades de upload mais lentas e com um downstream mais rápido, ou seja, a grande maioria dos utilizadores do BitTorrent. Por outro lado, a longo prazo, estes também podem beneficiar quase tanto como aqueles com ligações mais rápidas, uma vez que irá demorar menos tempo a criar mais cópias completas de um ficheiro torrent partilhado, dispondo então de mais pares por onde escolher. É claro que isto não irá funcionar se todos aqueles com ligações mais rápidas decidirem desligar-se imediatamente da rede depois de efectuado o download.
Mas há já muitos elementos da comunidade BitTorrent que consideram que o BitTyrant é um cliente “egoísta” que explora a generosidade de altruístas. Daí que não seja de estranhar que já tenha sido banido por dois trackers privados de torrents (Oink - de música independente - e Bitmetv - dedicado a séries de televisão), como refere a Slyck. Por enquanto, os programadores do software afirmam desconhecer quais as suas verdadeiras consequências para a estabilidade da rede, admitindo no entanto que se todos os que acedem regularmente à BitTorrent passassem a utilizá-lo, o desempenho global desta seria provavelmente afectado.
BitThief
Se o BitTyrant é pelo menos “anti-social”, o BitThief faz troça das regras e convenções do protocolo BitTorrent, bem como das de todas as redes P2P, constituindo a arma ideal para os “abusadores” (leechers) que apenas querem receber sem darem nada em troca e contribuirem para o aumento dos recursos de todos. Desenvolvido pelo Laboratório de Redes e Engenharia de Computadores de um Instituto Tecnológico de Zurique, o programa permite efectuar downloads de torrents sem fazer qualquer upload através do recurso a uma série de alterações que, segundo o TorrentFreak, faz com que se apresente constantemente à rede “como um novo par recém-chegado sem nada para dar”. Tal como o BitTyrant, o BitThief também se baseia no Azureus, sendo por isso escrito em Java (apenas disponível para Windows e Linux).
Durante o início de um download, o cliente anuncia-se a si próprio por diversas vezes, ignorando a regra do intervalo de 30 minutos que todos as outras aplicações BitTorrent cumprem. O objectivo é ligar-se ao maior número de pares possíveis, explorando-os e abrindo um número muito mais elevado de ligações simultâneas (cerca de 500) do que o que é habitual noutros programas (80), pelo que o router do utilizador acaba por ir abaixo.
Também ao contrário dos outros clientes, que apenas pedem de cada vez o bloco do ficheiro menos disponível na rede que ainda não possuem, garantido assim a eficiência e estabilidade da rede, o BitThief transfere logo todas as partes do ficheiro que conseguir obter. Num relatório de pesquisa, a equipa de programadores do BitThief conclui que os “enxames” com um maior número de pares e uma percentagem mais elevada de “nós semeadores” (seeders) garantem um melhor desempenho em termos de velocidade para o BitThief.
Este cliente parece ser, em suma, uma praga para a comunidade BitTorrent. O mais interessante é que os investigadores afirmam no artigo que realizaram uma série de testes a ficheiros obtidos de trackers como o Mininova e o TorrentLeech (privado), não tendo sido nunca banidos… Mas embora coloque em causa a sustentabilidade do sistema, o BitThief não serve apenas para os impacientes que não conseguem esperar mais alguns minutos para que o download acabe. Isto porque muitos utilizadores poderão querer evitar serem acusados de distribuirem material protegido por direitos de autor, tendo em conta a legislação europeia actual sobre a partilha de ficheiros, que permite o download mas ilegaliza o upload. Mas, uma vez que o protocolo em si cauciona esse comportamento, a solução não é banir esses clientes, porque haverá sempre maneiras de disfarçar o programa como se se tratasse do Azureus ou de outro cliente cumpridor das normas, mas sim alterar o protocolo de forma a que se torne tecnicamente impossível fingir repetidamente que se é um novo par “não-semeado”
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Desconhecia essa da legislação europeia permitir o download mas não o upload. É sempre bom de se saber…
Comentário de Tiago Devezas em 9 Jan 07 21:47.