Ser pirata no século XXI é “cool” e os suecos do Pirate Bay que o digam. Basta elencar algumas das palavras que hoje em dia associamos a este novo héroi mítico: partilha, troca, dádiva, generosidade, altruísmo, fraternidade, solidariedade, amadorismo profissional, paixão, comunidade, igualdade, horizontalidade, participação ou mesmo, hacker, esse termo até recentemente olhado com suspeição. Em contrapartida, se fizermos o mesmo exercício ficcional em relacção à indústria de entretenimento, poderíamos apresentar palavras como ganância, arrogância, egoísmo, avareza, cegueira, cobiça e corrupção. É espantoso como os propalados defensores e representantes dos artistas e criadores em geral se deixaram cair em desgraça por causa daquilo que vêem como um “roubo” da sua “propriedade”. Cada vez que processam um “pirata” estão a proclamar em voz alta a todos a sua obsolescência iminente. O Rei vai nú! Mas se eles conseguissem despertar da sua fantasia maniqueísta – como parece que está a acontecer, pois agora já consideram a hipótese de estabelecer uma licença global para a partilha de música – poderiam aprender umas quantas lições com empresas de software livre como a Red Hat e a Novell, que compreenderam que o que pode ser infinitamente multiplicado mas nunca reduzido não vale nada.
Vem isto a propósito de uma entrevista publicada em sueco pela IDG.se em que Gottfrid “Anakata” e Peter “Brokep”, os dois revolucionários ao leme do Pirate Bay – mais de quatro milhões de ficheiros torrent servidos por dia -, se submeteram a um batalhão de questões colocadas pelos leitores relacionadas com o dinheiro que o site gera e a propaganda criada com a história de que queriam comprar Sealand, entre outros assuntos que nunca ninguém tinha ousado colocar aos nossos piratas. De entre o rol de perguntas feitas, queria salientar aqui estas (tradução para inglês a cargo do TorrentFreak):
Tommy Sköld asks: How do you think software companies should make their money? By forcing ads on the users, like the Pirate Bay does?
Peter: I don’t believe it’s our job to provide solutions for their problems. We’re not economists or marketers.
Gottfrid: I worked as a software developer before the Pirate Bay started. Back then we made money on adaption, consulting and installation, instead of on the software itself.
(…)
Totte Alm asks: The Pirate bay is defending file sharing with the argument that artists makes their money on live performances, and actors on ticket sales, and that home users and poor students never would buy Photoshop anyway. But, what is forgotten is that file sharing in reality strikes against the small developer.An example: A small company have pu down a lot of time and borrowed money to develop a program that resembles Photoshop. It can’t do everything that Photoshop can do, but the price is low, say 400 to 700 SEK ($57-100). The market exists – everyone thinks that Photoshop is too expensive.
The problem for the user is: why pay 70 bucks when you can have Photoshop for free via the Pirate Bay, and Photoshop is much better?
As you can see, piracy strikes against the small developers, not the big ones. The small die and the big gets bigger. Have you ever concidered that you help big business by evaporating their competition?
Gottfrid: Again, The Pirate Bay as a unit has no opinions in any question. My personal opinion is that you’ll have to find other ways to make money than selling licenses. I have this background myself, so I am aware of the problems. One have to find ways around them instead of calling for more police and harder controlling methods.
Peter: Perhaps that market model doesn’t work anymore? One have to look at other alternatives.
Quando o génio – salvo seja, o sofware, a música e a informação em geral – sai da garrafa já não é possível colocá-lo lá de volta, como diz muito bem o Jonas Anderrson, do projecto Liquid Culture do Goldsmiths College (Londres) em “The Pirate Bay and the ethos of sharing”, respondendo ao ensaio “The Grey Commons” escrito por Rasmus Fleischer e Palle Torsson. Não vou aqui entrar na discussão de saber se os conteúdos tiveram alguma vez dentro da garrafa ou se se tratou de uma ilusão fomentada pela indústria e apoiada por uma estrutura tecnológica centralizadora – e mesmo assim sempre houve excepções: as mixtapes que ajudaram a cultura punk a florescer no final dos anos 70 e a imprensa samizdat nos países do antigo bloco do leste, por exemplo -, mas gostaria de destacar aqui alguns pontos:
When we freely share content on the Internet, we are currently bypassing the established forms of the market place — generating, in effect, new systems of exchange. Appropriation and consumption are just that; it is all about the uses of media content; turning it into something else, or using it beyond the means dictated by the producer. We could therefore ask ourselves: is cultural appropriation piracy?
Estas novas redes digitais de partilha, segundo o Rasmus e o Palle, permitem o surgimento daquilo a que chamam de “grey commons”. Situado à margem da lei e do discurso legalista de “alguns direitos reservados” das Creative Commons, esse “grey commons” é um espaço onde, devido ao seu estatuto invísivel perante os olhos da lei, prosperam mutações e híbridos vários como mashups e remixes que desaparecem de circulação tão depressa como surgem. Ora, segundo Jonas,
They thus equate `grey’ with the blurring of the distinction between form and content that digitization brings about (`zeros and ones have no taste, smell or colour’), the blurring of the distinction between copy and original, and with the blurring of distinction between consumers and producers (they actually hold that the demarcation between these two is `impossible to institutionalize’). I see this refusal to distinguish between ‘consumers’ and ‘producers’ as a strategic, arguably even propagandistic move.
O Rasmus deu a sua resposta no seu copyriot e eu também meti a minha colher nos comentários, mas para não me alongar muito em discussões teóricas, coloco aqui uma citação retirada de uma entrevista com Robert Nunnally (a.k.a. GurdonArk), da netlabel especializada em música ambiental Negative Sound Institute, publicada no Bleepwatch:
Q. Speaking of freeware—you list a number of free music tools in the notes for “Tallgrass Canticle. €? Which is a really neat example of the kind of thing a net-label can do that a traditional label can’t do (or can’t do as well)—which is to not only present music created with a particular tool, but to also provide access to the tool itself. Net-labels can also foster online communities through message boards and such, which traditional labels don’t really do. Do you think that this might become an important aspect of net-labels as they continue to evolve?
A. That is a really good point. I believe that netlabels have a unique ability to strip away a number of artificial distinctions between audience and performer. In a sharing, Creative Commons/GNU/PD netlabel environment, it’s not really so important who is the creator, and who is the listener (…) The artificial distinctions between audience and creators can and should dissipate.
I see a netlabel as a place where the artist doesn’ t really say “hey, listen to me, I’m amazing €?, in the proverbial myspace way (not that I dislike myspace, which reminds me of university bulletin boards). The artist says instead “hey, I’ve done this, hope your computer and mp3 player like it, and, if you’re interested in making your own, here’s how €?. We who long for a different way to relate to music have the tools in our hands. We need not pirate, we need not be imprisoned by the need for capital or the need for technical sophistication. The average PC, Mac or Linux user has all the tools within easy freeware/shareware reach. The only ingredient formerly missing is the rise of a sharing culture to appreciate the potential for a new way of experiencing music. The challenge now is not “how do I have a home studio €? or even “I wish I played guitar like Bill Nelson €?, but instead “how do we reach out and listen and perform and create a netlabel culture €?. The beauty of it is that netlabel culture is unstoppable, and we’re just waiting to see which promotion formulae work best to cause its spread. Viral marketing of the ultimate freeware melodious virus.
Vale bem o esforço de ler a entrevista até ao fim e passar pelo site da NSI para ouvir alguns dos sons que já publicou. Este post já vai longo, mas termino com isto: a comunicação nunca irá substituir a comunhão e o contacto directo entre o músico e o ouvinte, porque a música é acima de tudo feita de experiências físicas e, ao mesmo tempo, um sistema simbólico onde o espectáculo ao vivo assume as proporções de um ritual sagrado entre amantes da mesma arte, logo, algo que não pode ser tratado como uma simples mercadoria. Revisitando o que Jacques Attali escreveu em “Potlatch Digital”:
O verdadeiro prazer da composição existe fora da economia de mercado, apenas pelo gozo que dá, onde a violência é recanalizada através da criação. Para que quando eu crio algo e em seguida ofereço-te, eu possa ter a chance de permanecer na tua memória para sempre.
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Só um comentário, ter as ferramentas à disposição não quer dizer que se produza algo de interessante com elas. As pessoas podem divertir-se na mesma, mas se há coisa que o talento não é é democrático, só alguns o têm.
Isso não há net nenhuma que o mude, faz parte da natureza humana.
Mário,
Concordo parcialmente contigo. O acesso aos recursos não basta para se fazer arte e para isso ajuda ter alguém que nos ensine os rudimentos técnicos mínimos através de cursos de formação presenciais. Depois, convém também praticar muito.
Quanto ao resto, a arte é, por essência, subjectiva pelo que não existirá nunca uma noção de talento que seja universal ou, pelo menos, consensual. Isso fica mais claro ainda se pensarmos em movimentos estéticos influentes como o Punk, que foram negativamente avaliados pelo gosto dominante na época do seu surgimento. As vozes eram horríveis, estrilhaçavam os ouvidos mais sensíveis, mas montes de gente gostava. As músicas tinham apenas três acordes e demonstravam em geral uma falta de virtuosismo técnico que escandalizava os progressistas. Contudo, o que é certo é que trinta anos passados, o Punk é um dos legados mais importantes da música popular do pós-guerra.
Poderia referir aqui vários outros exemplos de que o juízo estético prevalecente é sempre mau conselheiro. A minha opinião é que todo o esforço criativo que não se limite a imitar vale a pena, porque haverá sempre potenciais apreciadores espalhados pelo mundo, mesmo de vozes esganiçadas como as de Diamanda Galas ou Lydia Lunch
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O melhor critério para saber o que prevalece é o tempo, já ouço música há trinta e tal anos e já testemunhei muitos movimentos musicais a nascer, morrer e voltar como revivalismo. A maioria da música que ouço agora foi composta há vários séculos (embora também ouça coisas produzidas agora) e se elas continuam a deliciar as pessoas é porque resistem ao tempo e demonstram uma qualidade que muitas outras não têm.
Por acaso fui um progressista escandalizado pelo Punk, o que até é normal, já que a consistência musical e a capacidade de explorar musicalmente os temas é uma das coisas que sempre achei importante. Do Punk hoje o que resta ? O 1º disco dos Sex Pistols, e algumas coisas dos Clash (os Ramones não eram punk mas fizeram um disco fabuloso de Rock snd Roll sintético), é pouco, mas o punk sempre foi mais uma coisa política que musical. Qeum quis singrar no sistema rápidamente adoptou outra atitude mais comercial, mas restou muito pouco mesmo. Mas pelo menos para quem esteve envolvido foi divertido, pelo que valeu a pena. É o mesmo com esta coisa das partilhas e tal, o pessoal anda divertido, depois desistem ou passam a outra coisa “cool” que dê pouco trabalho (porque raros são os que estão preparados para se comprometerem com algo que exija muito esforço e pouca recompensa imediata).
De qualquer forma a Pattty Smith sempre foi muito mais punk que os SP.
Do Punk hoje o que resta ? O 1º disco dos Sex Pistols, e algumas coisas dos Clash (os Ramones não eram punk mas fizeram um disco fabuloso de Rock snd Roll sintético), é pouco, mas o punk sempre foi mais uma coisa política que musical. Qeum quis singrar no sistema rápidamente adoptou outra atitude mais comercial, mas restou muito pouco mesmo. Mas pelo menos para quem esteve envolvido foi divertido, pelo que valeu a pena.
Sim, “just for the fun of it”. E essa atitude deixou marcas na indústria da música. Por isso é que, mais do que um movimento político, o Punk foi uma corrente cultural que estendeu as suas raízes a todo o mundo. E o que é certo é que mesmo que não representem todos o ideal de pureza do Punk, bandas como Ramones, Pere Ubu, Dead Kennedys ou até mesmo os Green Day e os Offspring continuam a fascinar milhares de pessoas em todo o mundo que não têm medo de serem apelidadas de rídiculas por usarem cristas de galo coloridas, blusões de picos e botas de tropa. Tanto na Indonédia, como no Brasil , o espírito e a ânsia pela livre expressão de alguns punks persiste ainda hoje em dia, mesmo contra os discursos dominantes relativos ao gosto e ao virtuosismo técnico.
É o mesmo com esta coisa das partilhas e tal, o pessoal anda divertido, depois desistem ou passam a outra coisa “cool