“You can’t steal a gift“. A frase é de Dizzy Gillespie que a proferiu em defesa de um músico acusado de imitar o estilo de Charlie Packer e é “retirada” de “The Ecstacy of Influence”, um texto longo mas fundamental do escritor de ficção científica Jonathan Lethem publicado na Harper’s Magazine do mês passado em defesa do plágio, enquanto reapropriação inteligente de imagens, sons e frases. Na sua perspectiva, o plágio é um instrumento para o progresso da criatividade que deve ser aceite a valorizado nos seus devidos termos, enquanto arte. Afinal de contas, Shakespeare, Walt Disney, e James Joyce, todos eles pegaram nas criações de outros e deram nova vida a elas, recriando-as e suscitando um renovado interesse por elas. Os defensores do conceito tradicional de direito de autor e propriedade intelectual assumem, por isso, uma perspectiva hipócrita e arrogante quando advogam o mito do artista isolado que, como que através de um acto de inspiração divina, produz obras de arte intocadas pela “vileza” da mera cópia. E essa atitude egoísta que nos últimos 30 anos têm orientado uma empresa como a Disney a impedir que o rato Mickey entre no domínio público. O que era comum a todos passou a ser enclausurado.
Daí que Lethem considere que seja mais apropriado falar em monopólio de uso (usemonopoly) do que em direito de autor ou copyright, porque o que se trata na verdade é de um monopólio de utilização exclusiva concedido pelo Estado ao artista e aos seus herdeiros, em detrimento de toda a comunidade. O que é interessante é que no seu manifesto em prol da cultura livre, Lethem aplica à letra o espírito do plágio. É que, como se pode ler nas notas no final do texto, todo o ensaio é uma colagem literária, um “corte e costura” minucioso de obras de Lawrence Lessig, Siva Vaidhyanathan, Kembrew McLeod e dezenas de outros autores que promovem a liberdade de remisturar ideias . Resta saber é se a Harper’s Magazine permite que o texto de Lethem seja livremente redistribuído e reutilizado ou se a revista se arroga a reservar todos os direitos para si… “There’s no business like stealing“, para reciclar os Negativland, uma banda californiana de música experimental e colagem Pop que ficou famosa por ter sido processada pela Island por samplar e parodiar músicas dos U2.
Por falar em Negativland, Mark Hosler, um dos elementos do grupo, foi, junto com Jonathan Lethem, Siva Vaidhyanathan e Mike Doughty (dos extintos Soul Coughing), entrevistado por Christopher Lydon para o programa de rádio “Open Source” da estação pública norte-americana PRI. Podem ouvir aqui o podcast desta emissão sobre a relação entre plágio e a originalidade.
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