…ou porque é que o P2P nunca irá servir como plataforma comercial de conteúdos protegidos, mas pode vir a ser o futuro da Internet (se o deixarem).
Continuando o que eu começei aqui. Sejamos no entanto simpáticos e admitemos que os estudos que revelam que o tráfego HTTP é superior ao tráfego P2P são “científicos”, logo, objectivos e rigorosos. Se for assim, o crescimento apontado dos serviços de streaming de vídeo e áudio via Web parece bater certo com as recentes reflexões de Mark Cuban no seu blog a respeito do P2P e, em especial, do protocolo – ou será a empresa? – BitTorrent (BT), onde apontava uma série de obstáculos que esta tecnologia teria que ultrapassar de forma a tornar-se um produto bem-sucedido para a distribuição comercial de conteúdos multimédia. Como seria de esperar, isto gerou um grande alvoroço na comunidade de partilha de ficheiros, em que o próprio Bram Cohen, criador do protocolo e co-fundador da empresa BitTorrent.com, se envolveu.
Mark Cuban, empreendedor “self-made man”, pioneiro da televisão de alta definição HDTV e dono da equipa de basquete Dallas Mavericks, é um moço trabalhador que soube como ganhar dinheiro, muito dinheiro, antes do estouro da bolha das dotcoms. Mas não só: o empresário teve a coragem de financiar a defesa da Grokster contra a MGM no processo que opôs esta produtora e distribuidora de cinema àquela empresa de software P2P, embora não tenha servido de muito. Infelizmente, o rapaz é também famoso pelas suas gaffes fenomenais. “MP3 will die. I’m sure of that” afirmou peremptoriamente em Março de 1999; mais recentemente, em Setembro de 2006, o desassombrado Cuban proferiu a frase “Only a ‘moron’ would buy YouTube” apenas um mês antes de o Google comprar a referida empresa por 1,65 mil milhões de dólares. Desta vez, as previsões do nosso profeta parecem ter algum fundamento com a realidade, a julgar pelos estudos agora divulgados, embora talvez não da forma como Cuban imaginava.
De acordo com Cuban, embora as tecnologias P2P como o BT sejam benéficas para os criadores de conteúdo, uma vez que permitem economizar quantidades enormes de largura de banda – a despesa fica a cargo dos clientes individuais, os “peers” – e acelerar a distribuição dos ficheiros, se olharmos as coisas na perspectiva de um potencial utilizador de um serviço comercial de vídeo online como o que a BitTorrent.com pretende implementar, que irá incluir filmes e séries dos maiores conglomerados multimédia “protegidos” com DRM, o cenário já não é tão cor-de-rosa: qual é o interesse que ele terá em pagar pelo download dos conteúdos se for obrigado a ceder a sua largura de banda? Isto porque na maior parte das redes de partilha de ficheiros, para poder efectuar downloads o utilizador tem de permitir o upload de dados, de forma a que os outros, por sua vez, obtenham o conteúdo. Para além disso, o princípio tit-for-tat de reciprocidade em que assenta o BT exige que o rácio de partilha seja igual ou superior a 1, isto é, que o volume de dados que carregamos (upload) seja pelo menos o mesmo que o volume de dados que descarregamos (download). Do mesmo modo, uma condição indispensável para obtermos uma boa velocidade de download é configurarmos de forma adequada a velocidade de upload.
Os “obstáculos” do P2P segundo Cuban
Dos quatro problemas que Cuban elenca e que foram impiedosamente refutados pelo Smaran do Torrent Freak, o principal é que o modelo P2P de semeação (”seeding”, o processo de distribuição de um torrent depois de se obter o ficheiro completo) acarreta custos ocultos para o utilizador de ligações de banda larga com tarifários de pagamento por Megabyte ou por minuto – uma situação em que ainda se inserem muitos portugueses. Essas pessoas ignoram muitas vezes que os seus planos não são ilimitados, acabando por pagar quantias enormes aos seus ISPs. Isso poderá levar a que estas empresas bloqueiem os acessos através de protolos P2P. Por seu lado, o Smaran do TorrentFreak contesta afirmando que à medida que o BT e o P2P se tornarem mais populares, a tendência será a de os utilizadores exigirem aos seus ISPs planos ilimitados e que estes terão que satisfazer essa demanda através da criação de pacotes-extra – como já acontece por cá em Portugal.
Uma segunda questão relacionada com esta apontada por Cuban é que o utilizador acaba por gastar mais largura de banda do que se fizesse o download via HTTP, uma vez que ele é sempre obrigado a fazer o upload do ficheiro que pretende; ainda por cima, depois de ter recebido o ficheiro completo é lhe pedido que continue a participar na partilha mediante a distribuição de partes do ficheiro a outros utilizadores. Esta regra de etiqueta da comunidade BT é uma forma de impedir a redução da velocidade dos downloads e assim evitar uma depreciação do desempenho geral da rede BT. A resposta do Smaran foge um pouco a este problema ao dizer que o utilizador não se importa de fazer upload dos bits enquanto está a receber e que a necessidade de partilhar ou “semear” depois de terminado o download é apenas um requisito de trackers privados.
Outra dificuldade do P2P, segundo Cuban, consiste na existência de um cada vez maior número de programas-cliente incompatíveis entre si, sobretudo no campo do BT: apesar de partilharem o mesmo protocolo e código-fonte aberto, as aplicações instalam-se no computador do utilizador, funcionando como se tivessem acesso exclusivo e detivessem o controlo do PC. Para além de confusão a que a existência de vários clientes na mesma máquina induz, esta “balkanização do BitTorrent” como lhe chama Janko Roettgers, poderá levar a alterações indesejadas das configurações dos tipos de ficheiros, podendo os utilizadores incomodados acabarem por remover todas as aplicações. Este seria o cenário do regresso da “guerra dos leitores de media” do século passado entre Real Networks e Microsoft… Por outro lado, os trackers de torrents poderão banir os clientes incompatíveis e que aldrabam o seu valor de rácio. Quanto a este ponto, embora o Smaran afirme que o processo de associação de ficheiros pela aplicação instalada mais recente seja algo comum na esmagadora maioria do software de todos os sistemas operativos, a questão da profusão de clientes incompatíveis fica, contudo, por resolver.
Isso leva-nos directamente à última questão levantada por Cuban, isto é, que o utilizador-final não entende o modo de funcionamento do P2P, não sabe como abrir as portas da sua firewall, etc. E quando percebe, faz todos os possíveis para evitar o upload, chegando ao ponto de fechar imediatamente o cliente após receber o ficheiro completo para não gastar largura de banda. Esse egoísmo pode levar a uma redução geral da velocidade dos downloads da rede. Aqui, o Smaran contrapõe com os dados da CacheLogic relativos a 2004, que indicavam que a partilha de ficheiros via BT representava um terço de todo o tráfego da Internet, para sustentar que os utilizadores sabem trabalhar com BT. É claro que, mais uma vez, ele olvida o pequeno detalhe de que, como parece indicar o estudo da Ellacoya, uma pequena minoria de “power-users” da Internet – cerca de cinco por cento – é responsável por quase metade do tráfego. O mais provável é que esta power-law se acentue quando falamos apenas de P2P, ainda por cima se os “power-users” sacarem principalmente DVDs de filmes… Depois, o Smaran parece também esquecer-se dos malefícios que o egoísmo dos comportamentos “sanguesuga” (“leecher”) acarretam.
Queremos uploads mais rápidos!
O multimilionário Cuban, que investiu recentemente 1,7 milhões de dólares na RedSwoosh, uma nova empresa de partilha centralizada de ficheiros – e não de “peer-to-peer”, convém notar -, exaltou-se com o artigo no TorrentFreak e com os comentários maledicentes dos defensores acérrimos do BT e, como se não tivesse nada melhor para fazer, decidiu escrever um comentário ao próprio post em que era criticado. Sentindo-se despeitado, Bram Cohen continuou a discussão no seu blog e começou a disparatar. Para além de dizer que o BT conta actualmente com 135 milhões de instalações e 55 por cento do tráfego da Internet sem adiantar como é que chegou a esses valores, desviou-se completamente das questões levantadas por Cuban, arranjando uma analogia um bocado forçada com o computador pessoal e a tecnologia de comutação de pacotes em que assenta o protocolo TCP/IP da Internet para, pegando nas palavras de Cuban, demonstrar que tal como o BT, também estas invenções “eram óptimas em teoria, mas na prática enfrentavam muitos desafios”.
Em resposta a este post, Cuban deixou-lhe o recado: “Get a Clue”. E apesar de truculento e controverso qb, o empreendedor não deixa de ter razão: os ISPs farão tudo para diminuir o upstreaming de dados e tentar controlar ou mesmo banir todo o tráfego que implique mais largura de banda. Desconheço todos os contornos da economia geral por detrás do acesso à Internet, mas agora que o Joost – ex-Venice Project – que promete a “união perfeita” entre P2P e televisão, financiada com publicidade e protegida por DRM, usando uma tecnologia proprietária de encriptação – ameaça devorar toda a largura de banda do mundo – cerca de 320 Megabytes de download e 105 Megabytes de upload por hora -, é necessário começar a pensar muito seriamente numa rede física de comunicações que corresponda à natureza simétrica, isto é igualitária, das redes P2P de partilha directa entre pares, seja ela o BitTorrent ou outra mais eficiente e igualitária que tenha sido entretanto inventada.
Isto porque há muitos milénios atrás – na verdade há seis/sete anos… -, quando os ISPs desenvolveram as suas redes, eles estavam a pensar em vender serviços de vídeo ao pessoal, presumindo que estes continuariam para todo o sempre apenas interessados em consumir o que lhes era impingido. Em consequência, as velocidades de ADSL saltaram rapidamente enquanto que os uploads continuam ridículos. Na altura, nunca lhes passou pela cabeça que os serviços de upload como o P2P podiam gerar dinheiro.
E talvez não tivessem tão errados quanto isso, como Cuban dá a entender do seu jeito meio abrutalhado a Cohen:
I like your complexity analogies. You are right. BT has huge challenges. It works great for stealing content. Getting people to contribute bandwidth in order to get content for free. To quote Borat “Thats Nice”. But as you know yourself, you havent been able to make a real business out of content being bought and sold using BT. Could it be that there are users, the ones willing to pay for content, have challenges using the clients out there now ?
É que a única forma de obter velocidades mais rápidas no BitTorrent é semear e, quando lhe é pedido para desembolsar dinheiro, o consumidor típico está-se nas tintas para a partilha e para ajudar a empresa a poupar largura de banda. É óbvio que ele sempre irá preferir ir “ali ao lado” onde sabe que poderá sacar o filme de borla, mais depressa e sem qualquer tipo de controlo panóptico.
Voltando ao início: se a curto prazo os serviços de streaming de vídeo via HTTP como o YouTube parecem fadados para o sucesso, mais tarde ou mais cedo os seus utilizadores irão rejeitar o controlo e a censura que a estrutura centralizada desses novos portais permite. Estarão assim criadas as condições para que o P2P cumpra finalmente o ideal inicial da Internet – uma metarede livre, aberta e igualitária. Mas pelo que eu disse anteriormente, se o volume de uploads continuar a crescer exponencialmente, o mais provável é que os ISPs façam tudo o que estiver ao seu alcance para bloquear ou travar as vias de acesso às redes P2P. O tempo das “mesh networks” ou redes virais assentes em protocolos P2P anónimo está a chegar. O P2P está morto. Longa vida ao P2P!
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