São raros os casos de bandas que publicam trabalhos exclusivamente online no seu próprio site, em acesso livre e sem recurso a uma netlabel. Mais surpreendente, contudo, é quando uma banda opta por reincidir num lançamento online no seu segundo trabalho. Os Zémaria, um grupo originário de Vitória – no estado brasileiro de Espírito Santo – com um som electro que puxa irresistivelmente os pés para a pista de dança, aventurou-se pelo caminho da autopublicação em 2004, com o EP 17:42. Em Dezembro do ano passado colocou para download no seu site todas as sete faixas do novo EP Aqui não tem silêncio. Coisa de doidos, poderão comentar os mais cépticos.
Pelo contrário, estes brasileiros sabem muito bem o que fazem. Com 17:42, que alcançou 20 mil downloads em dois anos, conseguiu arranjar contactos para duas digressões por terras europeias, incluindo Lisboa (em Julho passaram pelo Texas Bar) e um prémio na categoria de música electrónica. E agora com o mais recente disco, que no primeiro mês de lançamento quase atingiu a marca dos cinco mil downloads, uma companhia discográfica portuguesa parece estar interessada em editar uma versão em suporte físico no mercado europeu. Para uma banda como os Zémaria, a autopublicação livre a partir da rede faz todo o sentido. Afinal de contas, a música é produzida em computador e escutada em computador. Mas o que importa mesmo e o que serve de ganha-pão para os músicos são os espectáculos ao vivo, marcados por uma mistura explosiva de guitarras a abrir, sintetizadores e sons maníacos vindos de laptops, como se pode comprovar com o vídeo que acompanha este post, gravado num concerto em Vitória, no passado mês de Setembro. Para ficarem a conhecer melhor a história da aventura dos Zémaria no mundo da música digital, recomendo a leitura do artigo “Aqui não tem silêncio” do Erly Vieira Jr. no Overmundo. Podem também visitar a página da banda no MySpace.
Actualização (22 de Fevereiro): Alterei o título e o endereço do post porque, como é evidente, autoprodução é completamente diferente de autopublicação. Já agora, aproveito para salientar o trabalho pioneiro dos Mombojó, uma banda de Recife, Pernambuco, que em 2004 disponibilizou para download gratuito no seu site o seu primeiro lançamento, intitulado Nada de Novo, sob licença Creative Commons, tendo voltado a repetir a façanha em 2006 com Homem-espuma. O exemplo dos Mombojó, ainda que contando com a edição em formato CD por parte da Tratore e da Trama, respectivamente, inspirou outras bandas brasileiras como os Seminovos. Este grupo de Rock humorístico herdeiro dos Mamonas Assassinas e originário de Uberlândia, uma cidade de Minas Gerais, colocou online todas as faixas do seu álbum Não Tem Preço. Vale a pena ler o que Ronaldo Lemos escreveu a respeito deles no Overmundo (obrigadão pela referência, Daniel “Duende”).
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