Álbuns, singles, toques de telemóvel e o futuro da música

by Miguel Caetano on 27 de Março de 2007

Por mais que eu goste de música, não irei nunca conseguir ouvir tudo o que de bom se fez ao longo dos últimos 40 anos na música popular. É assim, por exemplo, que só há cerca de um ano dei a devida atenção a Trout Mask Replica do Captain Beefheart e da sua “Banda Mágica”. Aquilo foi gravado em 1969 e no entanto gosto mais de ouvir os sons esquizofrénicos e alucinados do Capitão (AKA Don van Vliet) do que uns Fiery Furnaces. Todo o ambiente por detrás daquela paleta sónica composta de uma mírade de cores soa-me hoje mais genuíno e vivo do que Blueberry Boat (2004). O mesmo se passa com outras duas descobertas recentes, Negro É Lindo (1971) e A Tábua de Esmeralda (1974) do mago Jorge Ben Jor. Todas as faixas dessas duas pérolas perdidas pelo tempo – sendo a primeira actualmente o meu álbum preferido de sempre – só fazem sentido se escutadas na sua totalidade com as outras 9 ou 10 faixas que compôem a obra. Só assim ficamos com a verdadeira noção da experiência estética que o artista nos queria proporcionar – as estórias que as palavras e os instrumentos nos segredam ao ouvido. E isso é algo de muito especial e pessoal.

Mas será que no futuro os verdadeiros apreciadores de música irão deixar de ter acesso a esse contacto “real”com os músicos que o formato álbum lhes oferecia? Será que vamos ter que suportar apenas músicas inventadas à pressão para inundar iPods, telemóveis e anúncios televisivos? Essa é pelo menos a tendência que a indústria parece estar a seguir, como revela o New York Times. No ano passado, graças à possibilidade de gastar “apenas” 99 cêntimos por uma música individual que as lojas online oferecem, as vendas de singles digitais ultrapassaram as de álbuns em suporte de CDs. Mas uma vez que o lucro que os singles geram é bastante inferior aos álbuns, as majors começaram a adoptar novas estratégias para fazer face a este novo panorama.

Assim, em vez de assinarem um contrato chorudo para gravarem um álbum, as bandas recebem uma quantia bastante inferior para criar toques para telemóveis e duas ou três canções para serem distribuídas como downloads digitais. Só se estas faixas forem um sucesso é que recebem um cheque maior para gravarem um CD completo. Outra técnica consiste em conceder um crédito aos consumidores que tenham adquirido uma faixa e depois queiram comprar o álbum. A Apple pretende aplicar esse esquema aos clientes da loja do iTunes de modo a que deixem de ser obrigados a comprar a mesma faixa duas vezes. Por fim, outra solução passa por transformar as companhias discográficas em clubes de fãs com serviços especiais para assinantes. Quem se tornasse subscritor de um determinado artista passaria a receber músicas, vídeos e outros produtos, assim como descontos ao longo do tempo.

Mas será que alguém daqui a 30 anos se irá recordar dos nomes por detrás dos êxitos momentâneos que a indústria continua a fabricar às catadupas? É que há sempre um preço a pagar pela sobrexposição num curto período de tempo, como refere Bob Lefsetz, o guru do rock independente na Web. Gosto do que este senhor escreve, apesar de às vezes se deixar cair numa certa verborreia. Uma carreira baseada em hits é, na opinião dele, algo impossível. Uma banda que se agarra apenas a este tipo de faixas está condenada a uma vida breve, pois ninguém acredita nela. Por outro lado, se o grupo for pacientemente ao longo dos anos construindo uma base de fãs fiéis, o dinheiro gerado será muito maior, com a vantagem de que o investimento inicial foi bastante inferior.

Essas bandas ganham os trocos que precisam tocando em bares, clubes, cafés, associações recreativas, tascas e todo o estabelecimento que lhes pague. Elas não precisam de se vender para produzir uma música capaz de chegar às playlists das rádios ou aos toques de telemóveis de adolescentes que não sabem fazer o upload de um MP3 para os seus aparelhos. Porque elas utilizam a Internet para chegar directamente ao seu público, pessoas como eles que têm os mesmos gostos e interesses. E apesar de disponibilizarem muitas vezes a sua música de borla, os fãs acabam por comprar os CDs. Porque as músicas valem a pena, não são apenas pacotes de três minutos e meio para agradar ao maior número de fregueses. Elas ficam nas suas cabeças. E como Lefsetz refere:

Give people something to believe in and they’ll give you all their money. Hell, isn’t that what religion is about? Think about your act as a religion. Gain adherents. They’ll spread the word. And guard your core principles very closely. The more honest and trustworthy you are, the more people will flock to you. And the slower the build, the longer the career.

Quem me dera que tivesse palavras para escrever assim. Apenas posso acrescentar que partilho totalmente da sua opinião. A música é para nós, melómanos, uma autêntica religião. Como posso eu exprimir o sentimento que Palomaris do Jorge Ben Jor me transmite a cada manhã senão dizendo que é uma mensagem de esperança, que dá sentido a vida? Mas assim como um artista tem capacidade para gerar uma fé à sua volta, também essa fé pode desaparecer de um dia para o outro. Foi o que aconteceu com os Metallica em 2000, quando decidiram processar o Napster… Voltando ao princípio, enquanto houver artistas mais interessados na sua arte do que no dinheiro, os álbuns não vão acabar – eles oferecem uma coerência estética que os singles nunca irão proporcionar; tanto os músicos como o público precisa deles. Agora, a época dos álbuns que continham apenas duas ou três faixas de jeito e o resto era enchido com “chouriços”, essa tem os dias contados.

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Milionário Mark Cuban acha que o álbum está morto | Remixtures
23 de Janeiro de 2008 ás 23:15

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1 Mind Booster Noori 27 de Março de 2007 ás 18:17

Tal como a cassete ou o Vinyl, o CD (e o conceito de LP) nunca irá, a meu ver, desaparecer. O seu mercado vai diminuir? Concerteza. Mas isso pode não ser particularmente mau. Não podemos misturar toda a gente no mesmo saco. Nem todos aqueles que compram música são melómanos. Há mercado para todos, logo que deixem que haja mercado. Quanto ao futuro… será interessante vivê-lo.

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2 Miguel Caetano 27 de Março de 2007 ás 20:06

Há mercado para todos, logo que deixem que haja mercado. Quanto ao futuro… será interessante vivê-lo.

Yep, essa é a teoria da cauda longa do Chris Anderson. Os hits não deixarão de ser hits, apenas vão passar a ficar com uma fatia menor do bolo. Mas na perspectiva de uma banda, acho que faz mais sentido dar pequenos passos de cada vez do que tentar agarrar o grande êxito logo à partida. O problema é que o sistema das playlists das rádios e das televisões está completamente minado. Não há espaço para novos nomes senão aqueles que a indústria promove. Existe a Internet, é claro; mas a tentativa de acabar com o YouTube e as redes de partilha de ficheiros também tem a ver com este aspecto. A liberdade de escolha e o pluralismo cultural ficam ameaçados, como o Rasmus Fleischer notou muito bem no artigo que eu traduzi.

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