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Beatles, Jesus Cristo & Gloria Gaynor (re)apropriados Publicado 5 Mar 07

Depois de publicar a quarta e última parte da tradução de “Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons, lembrei-me de ir procurar nesse enorme e vasto bric-a-brac audiovisual chamado YouTube alguns vídeos que pudessem ilustrar os dois exemplos referidos por Joanne Richardson e Dmytri Kleiner no ensaio de mashups que, ao contrário do que Lawrence Lessig dá a entender, poderiam não ter visto a luz do dia caso os autores originais das obras em que se basearam tivessem optado por disponibilizá-las segundo o modelo da Creative Commons.

The Grey Album é um disco muito bom lançado em 2004 pelo DJ Danger Mouse e sobre o qual eu já falei aqui, que coloca as vozes de Jay-Z em The Black Album por cima das músicas dos Beatles do The White Album, resultando numa combinação não só bastante habilidosa mas também de muito bom gosto. O vídeo que viram é de Encore, a terceira faixa do álbum, que integra samples de Glass Onion e Savoy Truffle.
Jesus Cristo: O Musical é um vídeo muito engraçado em forma de mashup realizado pelo argentino Javier Prato em que um Jesus Cristo reencarnado deambula alegre e descontraidamente pelas ruas de uma megalópole contemporânea cantando a altos berros I Will Survive de Gloria Gaynor. É claro que alguns fundamentalistas religiosos irão, com certeza, ofender-se, mas esses, coitados, vivem toldados por nuvens que lhes ofuscam a capacidade de rir de si próprios e dos seus mitos.Mas para além dos radicais religiosos, Prato também teve que aturar os fundamentalistas culturais, pois em Agosto passado recebeu uma intimação da Universal que se queixava de que o vídeo violava o copyright de Gloria Gaynor. E apesar de o filme ser também uma readaptação de Alien Song (1999) de Victor Navone, não deixa por isso de ter a sua piada.

No futuro, toda a cultura poderá ser assim: pequenos incrementos que acrescem a esse recurso comum da humanidade onde a noção de autoria deixa de fazer sentido pois a criatividade é partilhada livremente por todos. A música, o vídeo e a literatura passariam a resultar de pequenos projectos colaborativos de edição permanente, tal como o software livre já é desenvolvido hoje em dia. Contudo, tal só irá acontecer se não deixarmos aprisionar a criatividade por debaixo de cláusulas não comerciais e de não modificação que podem ser interpretadas de um modo bastante arbitrário… Daí que faça todo o sentido estarmos atentos às implicações da arquitectura subjacente a cada dispositivo legal e tecnológico.

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