Sobre as “fugas” de novos CDs e o fim da obra-prima total

by Miguel Caetano on 20 de Março de 2007

Há cerca de um ano, quando descobri essa “jukebox celetial” denominada Soulseek fiquei bastante escandalizado quando descobri num canal de chat que já andava a circular pela rede o mais recente EP dos Boards of Canada intitulado Trans Canada Highway. Na altura pensei que isso era um bocado ultrajante. Então os rapazes escoceses andaram a trabalhar dia e noite fechados no estúdio durante sei lá quanto tempo e depois não têm o direito de acabar o disco como deve ser e de o promover decentemente nas lojas? Depois, se decidirem alterar uma faixa, como é que é? Isso é comprometer a integridade artística do criador! Pelo que tenho escrito por aqui, podem adivinhar que hoje a minha posição já não é bem a mesma, muito pelo contrário.

Vem isto a propósito de duas notícias de que eu tive conhecimento nos últimos dias. A primeira refere-se aos Maximo Park, uma banda inglesa de Rock/Pop Independente que se insere na tradição do Britpop. De acordo com a TorrentFreak, o segundo e mais recente álbum do grupo foi parar à rede BitTorrent um mês antes do seu lançamento oficial. A este respeito, o vocalista Paul Smith afirmou ao site 6Music da BBC: “I’d like to strangle the person who did it, and part of me says this is the way it happens these days. People are online and searching it out and seeking it, and you can’t do much about it. I’m philosophical about it.”

E não há mesmo nada que possas fazer, Paulo. Portanto é bom que aproveites para beber umas bejecas aí em Paris – e já agora por Lisboa, onde o grupo irá actuar no âmbito do festival Super Bock Super Rock, a 4 de Julho. É que graças a esta exposição pública de borla, o álbum a ser lançado oficialmente a 2 de Abril em Newcastle pela Warp Records intitulado Our Earthly Pleasures, deverá ultrapassar as vendas de A Certain Trigger datado de 2005 e que conseguiu alcançar o estatuto de Platina no Reino Unido.

E como o enigmax do TorrentFreak refere, o facto de X&Y dos Coldplay ter também chegado primeiro às redes P2P do que às estantes das lojas de discos não invalidou que logo na primeira semana de lançamento, em Junho de 2005, tenha atingido o primeiro lugar das tabelas de vendas de mais de 20 países, entre os quais o Reino Unido (464 mil cópias) e os Estados Unidos (737 mil cópias), um marco apenas anteriormente alcançado por uma compilação dos Beatles em 2000.

Podemos até especular se a distribuição prévia na Net não aumenta a predisposição dos apreciadores para adquirirem o disco depois de o terem ouvido ou mesmo o interesse de outro público que se não tivesse lido a notícia não teria ficado a saber do novo lançamento. Podemos ir ainda mais longe e considerar se a “fuga” de um disco para as redes P2P antes de sair para as lojas não poderá ser uma estratégia deliberada de marketing viral

Outro caso recente de pré-lançamento foi Foley Room de Amon Tobin, esse mago brasileiro dos samples que mistura Jazz, grandes batidas, ambientes sonoros claustrofóbicos que fazem lembrar Ennio Morricone e tudo e mais alguma coisa. Tobin não se limita a samplar, ele faz arte a partir de bocados fragmentados, resultando dessa amálgama um conjunto estranhamente apelativo. Este novo álbum foi oficialmente lançado a 5 de Março, mas na verdade ele já tinha chegado meses antes (!!) aos discos rígidos de milhares de pessoas em todo o mundo. Desanimado com a situação, o músico deixou uma nota no seu blog onde se queixa dos downloads ilegais. Dado que o novo site de Tobin abusa um bocado de Flash e tem tendência para “fritar” os computadores, deixo aqui o link para o post dele no MySpace. Alguns excertos:

well the debate about illegal downloads has obviously been raging for some time. some blame it for the crisis the music industry is currently facing, others herald this as a new utopian era for the consumer. contrary to the oversimplified views sighted by both ends of the spectrum I believe this to be a fairly complex issue with radically different implications for different artists and labels.

over the last few months I’ve received a surprising amount of mail from people who’d downloaded ‘foley room’.

(…)

today, the release date for my album, it’s unlikely that you will see it in most high street shops and after the initial run it’s unlikely that you will be able to order a copy even from online stores. this is because in-spite of more people having access to and apparently listening to my music than ever before, the predicted sales of the record were so low that it didn’t justify the manufacture or distribution to any significant level.

(…)

I won’t speculate on the wider picture and you can draw your own conclusions as to what this means with regards to my own future output. again I stress that I’m not talking about what should happen here.

Lição de moral a tirar daqui: se não te dás ao trabalho de comprar música, os artistas talentosos (especialmente os que desenvolvem trabalhos de vanguarda) não terão incentivos para continuar a criar. Eu compreendo o Tobin, a sério. Admiro a qualidade do seu trabalho. Ele queria fazer uma “obra-prima total” que não se limitasse a ser apenas mais uma pasta ZIP de ficheiros MP3 entre milhares de outras. Para isso, ele e a editora dele, a Ninja Tune, desenvolveram um site magnificente e faustoso no sentido de deslumbrar os seus exigentes fãs, recriando um ambiente subaquático de imersão total. Uma experiência “interactiva” que faz lembrar aquelas megalomanias muito comuns em 2000, que partiam do princípio que toda a gente usava Flash e tinha computadores super-artilhados. O que Tobin se esqueceu é que nós não precisamos de toda essa parafenália para apreciarmos a sua experiência estética. Basta-nos a sua música. O próprio processo de produção do disco também implicou custos muito elevados, com experiências sonoras que muito dificilmente podem ser reproduzidas em concertos ao vivo. Para juntar ao pacote, concebeu também um documentário em DVD explicando em pormenor o processo de gravação do disco.

Mas apesar de todos os comentários ao post no MySpace lamentarem o sucedido – é interessante que muitos fãs reconhecem que “sacaram” o disco na net semanas antes mas que tencionam comprar ou já compraram o CD -, penso que a melhor opção que o Tobin poderia ter tomado seria antes de tudo passar por cima da Ninja Tune e dirigir-se directamente aos seus apreciadores, solicitando-lhes doações via PayPal e explicando-lhes todos os meandros do processo de produção, bem como os respectivos custos – tudo isto a partir de um blog de navegação simples e leve, aberto a comentários e regularmente actualizado. Aqueles que contribuíssem mais poderiam receber acesso prévio ao disco, obter conteúdos adicionais, etc.

Quanto a mim, penso que a verdadeira lição a tirar é que a música caminha cada vez mais na direcção do software. Não vale a pena passar um tempo infinito a esconder um álbum concebido a partir de samples originais obtidos na rua, como se este fosse passível de proporcionar uma experiência estética integral, única e definitiva. Numa época em que a faixa individual domina os iPods de todos, através de mixtapes, podcasts, playlists e outros mecanismos de selecção personalizada, faz muito mais sentido para um artista de vanguarda já com nome firmado colocar online novas músicas à medida que elas forem ficando prontas; melhor ainda – porque não disponibilizar diferentes takes e samples de música para que outros possam aprender e até contribuir com alterações? Da “obra de arte total” passaríamos para um work-in-progress constante. É claro que são muito poucos no mundo os que podem fazer algo parecido com o que Amon Tobin faz. Mas isso não impede que um génio não possa aprender com os outros. E depois de concluído o processo, o produto final seria colocado à venda sob a forma de CD. Isto é o mesmo que acontece com o software livre: existe uma versão instável para o qual “todos” os hackers podem teoricamente contribuir e que é actualizada regularmente e uma versão definitiva para utilização pelo público em geral, em que só entra o código aprovado pelos líderes do projecto. Até agora tem resultado: não consta que a Red Hat ou a Novell estejam à beira da falência…

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{ 2 trackbacks }

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1 carlos paulo 21 de Março de 2007 ás 14:20

Miguel, esclarece-me uma dúvida: o Amon Tobin quis fazer, de facto, uma obra-prima total, ou apenas juntou conteúdos a um cd de música para que este tivesse mais valor junto do consumidor?

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2 Miguel Caetano 21 de Março de 2007 ás 15:39

Carlos,

penso que aqui houve um pouco das duas coisas. Na perspectiva da Ninja Tune é claro que houve uma aposta num “produto” multimédia dirigido a várias plataformas que pudesse apelar à venda. Agora, não acho que o Amon Tobin seja tão interesseiro em pensar apenas em termos de branding comercial. Calculo que ele, como artista dotado, deve ter uma auto-estima muito grande e propõe-se a si próprio metas de exigência muito elevadas de modo a não ficar para trás. Isso acontece com outros músicos. Mas depois vai-se a ver e a megalomania não tem concretização real. No caso do Amon Tobin, estou impressionado com algumas faixas e a opinião dos críticos não tem sido má…

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3 Work Buy Consume Die 22 de Março de 2007 ás 12:07

Bem, eu fui um daqueles que já tinha o “Trans Canada Highway” meses antes do seu lançamento, mas como fã indeféctivel e doentio dos BoC tenho tudo o que posso ter deles legal e ilegal…

Em relação ao último disco do Amon Tobim, já tinha lido esse texto que ele escreveu e só posso concordar com ele. Deve ser frustante alguém dedicar toda essa energia a construir um disco (excelente, por sinal) e não ser recompensado com mais do que uma “palmadinha nas costas”.

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4 NeLaS 23 de Março de 2007 ás 20:46

Acho que ainda é preciso muito teste para avaliar o efeito negativo nas vendas de disco, mas é um pouco esperado que ocorra uma baixa nas vendas sim. Não pelas pessoas que podem comprar o cd, mas por aquelas que não podem simplesmente investir muito dinheiro neste tipo de produto, mas que tem como alternativa alcançá-los via p2p.

Eu gostaria muito de saber se quantas pessoas que vão assistir ao Amon Tobin (por exemplo) compraram o cd, quantas apenas baixaram o cd e quantas baixaram o cd e depois compraram… Será que alguém já fez uma pesquisa desse tipo?

Quem sabe, a maioria da platéia conheceu via P2P, mostrando um retorno imediato ao músico através do compartilhamento.

E aí cabe a produtora mudar um pouco a estratégia…

Abraços!

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5 falácia 4 de Abril de 2007 ás 2:41

O problema com a argumentação é o facto de achares que a promoção dada pelas fugas na internet provocaram um aumento de vendas. Tenho para mim que esse facto não é provável.

Outro argumento falacioso é defender que a Internet promove artistas, dando de seguida como exemplo uma banda como os Coldplay. E defendê-lo ao ponto de achar que são os downloads ilegais e não a promoção/publicidade feita pela própria banda a causa desse sucesso, sabendo-se de antemão que a percentagem das pessoas que compram álbuns depois de o terem pirateado é diminuta.

Seria bem menos falacioso ver que impacto é que a promoção através dos downloads ilegais têm nas vendas de artistas não tão conhecidos e sem os budgets de promoção que outros têm.

Ou seja, não é pelo Figo ganhar muito dinheiro que outros em divisões inferiores não passem fome. E é esse o grande e grave problema dos downloads ilegais.

Responder

6 Miguel Caetano 4 de Abril de 2007 ás 10:33

Cara falácia:

Seria bem menos falacioso ver que impacto é que a promoção através dos downloads ilegais têm nas vendas de artistas não tão conhecidos e sem os budgets de promoção que outros têm.

Ou seja, não é pelo Figo ganhar muito dinheiro que outros em divisões inferiores não passem fome. E é esse o grande e grave problema dos downloads ilegais.

Não vejo como isso possa ser verdade. Em primeiro lugar, os artistas desconhecidos disponibilizam geralmente de vontade própria os seus discos através de redes de partilha de ficheiros, pois sabem que só têm a ganhar e nada a perder. As vendas deles já são tão reduzidas e a percentagem de receitas obtidas dessas vendas que vai para o seu bolso é tão pequena que oferecer o disco de borla apenas gera mais promoção do seu trabalho.

Em segunda lugar e em resultado disso, a promoção gerada com a distribuição livre da obra faz com que um número maior de elementos do público – para além da própria família e amigos do artista – fiquem interessados por ver um espectáculo ao vivo. E aí é que está o dinheiro, aí é que está o principal meio de sobrevivência dos músicos actuais. A percentagem das receitas dos concertos que vai parar ao seu bolso é muito superior ao que acontece nos discos. É por isso que todos os meses vemos mais netlabels a surgirem e mais bandas a enveredarem pelo caminho da autopublicação.

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7 Mário 4 de Abril de 2007 ás 13:20

No entanto, a aposta na música ao vivo vai a meu ver inviablizar obras que não serão tão fáceis de recriar num concerto ou cuja produção dependa de muitos músicos e/ou de técnicas de estúdio demoradas. Acho que isto acaba por apenas permitir a subsistência de alguns tipos de música, inviabilizando económicamente outras (e os grandes nomes em termos de lucros não estão interessados nessas música mais complexas ou mais dificeis de passar em concertos).

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8 Miguel Caetano 4 de Abril de 2007 ás 14:06

No entanto, a aposta na música ao vivo vai a meu ver inviablizar obras que não serão tão fáceis de recriar num concerto ou cuja produção dependa de muitos músicos e/ou de técnicas de estúdio demoradas. Acho que isto acaba por apenas permitir a subsistência de alguns tipos de música, inviabilizando económicamente outras (e os grandes nomes em termos de lucros não estão interessados nessas música mais complexas ou mais dificeis de passar em concertos).

O caso do Amon Tobin é paradigmático, nesse sentido. Mas, como eu refiro no post, esse tipo de obras não està à partida inviabilizado. Partindo do princípio que só um artista com créditos firmados junto de um segmento específico de público se aventuraria de qualquer forma a um investimento tão avultado como o que essas obras complexas exigem, ele pode recorrer directamente ao apoio desse público, comunicando com ele, mostrando-lhe os planos do seu projecto e solicitando-lhe doações em troca de acesso prioritário a faixas, etc.

Estamos tão toldados pelos mecanismos industriais da música repetitiva fabricada pelos grandes conglomerados que não conseguimos ver que existem outros modelos alternativos para além da dependência a contratos exclusivos que apenas constrangem a criatividade.

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