Há cerca de um ano, quando descobri essa “jukebox celetial” denominada Soulseek fiquei bastante escandalizado quando descobri num canal de chat que já andava a circular pela rede o mais recente EP dos Boards of Canada intitulado Trans Canada Highway. Na altura pensei que isso era um bocado ultrajante. Então os rapazes escoceses andaram a trabalhar dia e noite fechados no estúdio durante sei lá quanto tempo e depois não têm o direito de acabar o disco como deve ser e de o promover decentemente nas lojas? Depois, se decidirem alterar uma faixa, como é que é? Isso é comprometer a integridade artística do criador! Pelo que tenho escrito por aqui, podem adivinhar que hoje a minha posição já não é bem a mesma, muito pelo contrário.
Vem isto a propósito de duas notícias de que eu tive conhecimento nos últimos dias. A primeira refere-se aos Maximo Park, uma banda inglesa de Rock/Pop Independente que se insere na tradição do Britpop. De acordo com a TorrentFreak, o segundo e mais recente álbum do grupo foi parar à rede BitTorrent um mês antes do seu lançamento oficial. A este respeito, o vocalista Paul Smith afirmou ao site 6Music da BBC: “I’d like to strangle the person who did it, and part of me says this is the way it happens these days. People are online and searching it out and seeking it, and you can’t do much about it. I’m philosophical about it.”
E não há mesmo nada que possas fazer, Paulo. Portanto é bom que aproveites para beber umas bejecas aí em Paris – e já agora por Lisboa, onde o grupo irá actuar no âmbito do festival Super Bock Super Rock, a 4 de Julho. É que graças a esta exposição pública de borla, o álbum a ser lançado oficialmente a 2 de Abril em Newcastle pela Warp Records intitulado Our Earthly Pleasures, deverá ultrapassar as vendas de A Certain Trigger datado de 2005 e que conseguiu alcançar o estatuto de Platina no Reino Unido.
E como o enigmax do TorrentFreak refere, o facto de X&Y dos Coldplay ter também chegado primeiro às redes P2P do que às estantes das lojas de discos não invalidou que logo na primeira semana de lançamento, em Junho de 2005, tenha atingido o primeiro lugar das tabelas de vendas de mais de 20 países, entre os quais o Reino Unido (464 mil cópias) e os Estados Unidos (737 mil cópias), um marco apenas anteriormente alcançado por uma compilação dos Beatles em 2000.
Podemos até especular se a distribuição prévia na Net não aumenta a predisposição dos apreciadores para adquirirem o disco depois de o terem ouvido ou mesmo o interesse de outro público que se não tivesse lido a notícia não teria ficado a saber do novo lançamento. Podemos ir ainda mais longe e considerar se a “fuga” de um disco para as redes P2P antes de sair para as lojas não poderá ser uma estratégia deliberada de marketing viral…
Outro caso recente de pré-lançamento foi Foley Room de Amon Tobin, esse mago brasileiro dos samples que mistura Jazz, grandes batidas, ambientes sonoros claustrofóbicos que fazem lembrar Ennio Morricone e tudo e mais alguma coisa. Tobin não se limita a samplar, ele faz arte a partir de bocados fragmentados, resultando dessa amálgama um conjunto estranhamente apelativo. Este novo álbum foi oficialmente lançado a 5 de Março, mas na verdade ele já tinha chegado meses antes (!!) aos discos rígidos de milhares de pessoas em todo o mundo. Desanimado com a situação, o músico deixou uma nota no seu blog onde se queixa dos downloads ilegais. Dado que o novo site de Tobin abusa um bocado de Flash e tem tendência para “fritar” os computadores, deixo aqui o link para o post dele no MySpace. Alguns excertos:
well the debate about illegal downloads has obviously been raging for some time. some blame it for the crisis the music industry is currently facing, others herald this as a new utopian era for the consumer. contrary to the oversimplified views sighted by both ends of the spectrum I believe this to be a fairly complex issue with radically different implications for different artists and labels.
over the last few months I’ve received a surprising amount of mail from people who’d downloaded ‘foley room’.
(…)
today, the release date for my album, it’s unlikely that you will see it in most high street shops and after the initial run it’s unlikely that you will be able to order a copy even from online stores. this is because in-spite of more people having access to and apparently listening to my music than ever before, the predicted sales of the record were so low that it didn’t justify the manufacture or distribution to any significant level.
(…)
I won’t speculate on the wider picture and you can draw your own conclusions as to what this means with regards to my own future output. again I stress that I’m not talking about what should happen here.
Lição de moral a tirar daqui: se não te dás ao trabalho de comprar música, os artistas talentosos (especialmente os que desenvolvem trabalhos de vanguarda) não terão incentivos para continuar a criar. Eu compreendo o Tobin, a sério. Admiro a qualidade do seu trabalho. Ele queria fazer uma “obra-prima total” que não se limitasse a ser apenas mais uma pasta ZIP de ficheiros MP3 entre milhares de outras. Para isso, ele e a editora dele, a Ninja Tune, desenvolveram um site magnificente e faustoso no sentido de deslumbrar os seus exigentes fãs, recriando um ambiente subaquático de imersão total. Uma experiência “interactiva” que faz lembrar aquelas megalomanias muito comuns em 2000, que partiam do princípio que toda a gente usava Flash e tinha computadores super-artilhados. O que Tobin se esqueceu é que nós não precisamos de toda essa parafenália para apreciarmos a sua experiência estética. Basta-nos a sua música. O próprio processo de produção do disco também implicou custos muito elevados, com experiências sonoras que muito dificilmente podem ser reproduzidas em concertos ao vivo. Para juntar ao pacote, concebeu também um documentário em DVD explicando em pormenor o processo de gravação do disco.
Mas apesar de todos os comentários ao post no MySpace lamentarem o sucedido – é interessante que muitos fãs reconhecem que “sacaram” o disco na net semanas antes mas que tencionam comprar ou já compraram o CD -, penso que a melhor opção que o Tobin poderia ter tomado seria antes de tudo passar por cima da Ninja Tune e dirigir-se directamente aos seus apreciadores, solicitando-lhes doações via PayPal e explicando-lhes todos os meandros do processo de produção, bem como os respectivos custos – tudo isto a partir de um blog de navegação simples e leve, aberto a comentários e regularmente actualizado. Aqueles que contribuíssem mais poderiam receber acesso prévio ao disco, obter conteúdos adicionais, etc.
Quanto a mim, penso que a verdadeira lição a tirar é que a música caminha cada vez mais na direcção do software. Não vale a pena passar um tempo infinito a esconder um álbum concebido a partir de samples originais obtidos na rua, como se este fosse passível de proporcionar uma experiência estética integral, única e definitiva. Numa época em que a faixa individual domina os iPods de todos, através de mixtapes, podcasts, playlists e outros mecanismos de selecção personalizada, faz muito mais sentido para um artista de vanguarda já com nome firmado colocar online novas músicas à medida que elas forem ficando prontas; melhor ainda – porque não disponibilizar diferentes takes e samples de música para que outros possam aprender e até contribuir com alterações? Da “obra de arte total” passaríamos para um work-in-progress constante. É claro que são muito poucos no mundo os que podem fazer algo parecido com o que Amon Tobin faz. Mas isso não impede que um génio não possa aprender com os outros. E depois de concluído o processo, o produto final seria colocado à venda sob a forma de CD. Isto é o mesmo que acontece com o software livre: existe uma versão instável para o qual “todos” os hackers podem teoricamente contribuir e que é actualizada regularmente e uma versão definitiva para utilização pelo público em geral, em que só entra o código aprovado pelos líderes do projecto. Até agora tem resultado: não consta que a Red Hat ou a Novell estejam à beira da falência…
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