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Torrentes de desejo Publicado 11 Mar 07

Há dias falei aqui no fetichismo da mercadoria manifestado na sua forma física pelo consumo obssessivo de discos em vinil. Mas não será o gesto de descarregar quantidades enormes de filmes, séries de televisão, álbuns e toda a bugiganga pop que a indústria cultural nos quer impingir também ele uma manifestação subliminar desse fetichismo provocado pela sobrevalorização da propriedade privada? Mais precisamente, será que os mecanismos inconscientes que levam um “vinílico” a desembolsar milhares de euros por uma edição de um disco do James Brown cujo valor de uso é, na verdade, de apenas meia de dúzia de euros, não podem ser comparados ao próprio processo de armazenamento compulsivo que leva os utilizadores de redes P2P a guardarem cópias de tudo e mais alguma coisa que encontram pela frente em DVDs, CDs e discos rígidos, constituindo às vezes autênticas bibliotecas de Terabytes de informação que provavelmente nunca vai ser acedida mais do que uma vez sequer?

Numa altura em que a informação é produzida a uma velocidade e quantidade que seriam inimagináveis para todas as gerações que nos antecederam e em que caminhamos para uma situação em que quase praticamente tudo o que é filmes ou música pode ser imediatamente acedido, qual a necessidade que existe em acumular uma colecção de títulos de filmes e séries de televisão que frequentemente acabam por não ser vistos? Num artigo recente, a Wired entrevistou alguns indivíduos que padecem desta versão digital da disfunção a que os psiquiatras dão o nome de acumulação compulsiva. Essas pessoas encontram-se literalmente soterradas em informação, pois gastam a minutos a encontrarem o que querem por entre tralhas de material inútil. Dado que o tempo e a atenção continuam a ser bens preciosos e escassos num universo digital, o perigo da overdose informacional torna-se uma questão premente.

Há também que ter em linha de conta uma das debilidades da tecnologia digital: cada formato corre sempre o risco da obsolescência iminente - mesmo o MP3 tende a ser superado, mais tarde ou mais cedo, por formatos lossless como o FLAC. Por outro lado, o perigo de perdermos irreparavelmente os dados guardados num suporte físico é sempre uma possibilidade. Daí que hoje em dia, faça mais sentido guardar os metadados, isto é, a informação sobre a informação, do que os próprios conteúdos em si. O assunto pode parecer caricato e corriqueiro - um fait-diver mesmo, se quiserem -, mas por detrás dele encontramos a verdadeira lógica da ética da economia da dádiva da partilha de ficheiro.

No seu blog warsystems, Bodó Balázs considera que o que está em causa na partilha de ficheiros é, sobretudo, uma necessidade social que já existia previamente em nós e que é essa necessidade que explica o facto de que a tecnologia P2P ter sido uma das poucas invenções da história que não precisou de qualquer tipo de campanha promocional para obter a adesão do público. Daí que, segundo, Balázs, será impossível convencer as pessoas a não “piratearem”.

Mas será que faz sentido falar em termos de necessidades para explicar esta motivação humana quando já não se trata da carência de bens informacionais - para aplicar aqui o esquema da pirâmide das necessidades concebido pelo psicólogo social Abraham Maslow -, mas sim de acumulação pela acumulação? Em Torrents of Desire and the Shape of the Information Landscape” Felix Stalder considera que esta explicação deixou de ter validade para dar conta da vitalidade do fenómeno P2P, sendo que este resulta de um desejo irrepremível no sentido de Deleuze & Guattari, enquanto força produtiva primária (nota filosófica: de certo modo, pode-se ver esta noção de desejo como um reciclagem a cabo de D&G do conceito de despesa tal como teorizado por George Bataille décadas antes, enquanto força energética criativa e imanente; mas com uma ressalva: enquanto que para Bataille a despesa é uma forma de destruição sumptuosa ligada à esfera do consumo, logo desligada da esfera de produção, o desejo na acepção da dupla está contido na produção, sob a forma de (anti)produção). Assim, o desejo acaba por criar a realidade.

Para Stalder não existe qualquer motivo final no acto de partilhar ficheiros, seja ele comercial ou social. “Porque é que nós descarregamos? Porque podemos!”. A tecnologia desencadeia os seus próprios desejos (e vice-versa, acrescento eu…). É esta pulsão que nos leva a, quando temos conhecimento de uma cópia de um novo disco ou de um novo filme que ainda nem sequer foi comercialmente publicado, desejar possuí-lo, nem que seja preciso derrubar intrincados mecanismos de encriptação de dados. Fazêmo-lo apenas pelo prazer de superar um obstáculo ou um desafio, tal como os montanhistas da década de 20 do século passado se atreveram a subir mais alto e a desafiar os limites.

Essas “Torrentes do Desejo” presentes na partilha de ficheiros revelam-se no seu aspecto mais extremado, segundo Stalder, nos fóruns de discussão da “cena”, onde se encontram os grupos que se dedicam a lançar cá para fora filmes, discos, vídeojogos e software antes de estes chegarem ao circuito comercial. Aqui é raro encontrar o espírito de harmonia e comunidade que se costuma associar ao termo “partilha de ficheiros”, sendo mais frequente depararmos-nos com uma competição desenfreada, uma corrida contra o tempo no intuito de ser o primeiro a ter acesso ao “material”. Para obter gratificação imediata é, contudo, necessário levar a cabo uma série de operações complexas, envolvendo dezenas de pessoas espalhadas pelo mundo: derrubar os códigos de protecção anticópia, comprimir os ficheiros de modo a que caibam num CD e distribui-los por meio de servidores protegidos por senhas e tecnologias de encriptação. É toda uma economia clandestina baseada no desejo que se processa nos meandros destas redes, sendo que muitas vezes esta é mais eficiente que a indústria cultural - hoje em dia é raro o filme disponível na “Mula” que não tenha uma ou mais legendas em português; o díficil é escolher a melhor…

Mas, tal como D & G notaram, todos os desejos acabam por ser, mais tarde ou mais cedo, contidos pelo sistema, institucionalizados, canalizados para outras actividades que não coloquem em causa o equílibrio do sistema. Nesse sentido, como Stalder dá a entender, muito mais eficaz do que hostilizar abertamente essas forças do novo ambiente informacional de abundância será optar por cooptá-las e integrá-las no seu interior. Vista nessa óptica, a actuação da associação Creative Commons pode então ser entendida como uma tentativa de domesticação de algo que é incompreensível para os conglomerados multimédia, habituados que estavam a controlar a informação num ambiente de escassez.

Embora concorde em grande parte com os argumentos de Stalder, não me parece que o novo cenário informacional de abundância seja exclusivamente caracterizado por essa força ou pulsão competitiva de ser o mais rápido e de ter acesso imediato ao material. Quando por força da evolução tecnológica passamos de um cenário de escassez para outro onde reina a abundância, a possibilidade de recuperar as obras a que a pressão comercial dos êxitos fabricados pela indústria vetou ao esquecimento altera radicalmente o ritmo de fruicção da cultura. Por detrás dessa face rude e desafiadora da comunidade P2P a que os media comerciais concedem habitualmente honras de destaque esconde-se também outra vertente, aquela dos grupos de pessoas que se dedicam a digitalizar as suas colecções de cassetes de vídeo, cassetes de áudio e discos em vinil inéditos em CD, colocando os ficheiros à disponibilização dos demais. Essas comunidades não deixam de constituir também à sua maneira um potlatch, na medida em que geram laços de reciprocidade - quem recebe tem que retribuir com algo que possua pelo menos parte do valor (em termos de Megabytes) do ficheiro que descarregou -, mas a sua lógica de funcionamento encontra-se menos dependente da agenda de lançamentos do momento. O sentimento de pertença a uma comunidade de indivíduos com uma afinidade de interesses - quase sempre, por uma banda ou estilo de música comuns - é a força que une os seus membros.

Nota: a imagem que acompanha este post é de skeg e está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-S.A 2.0.

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