Uma economia da música para além do preço zero Publicado 29 Mar 07
Não há um dia sem que surjam mais estudos sobre a viabilidade de um mercado sustentável para a música num cenário a médio prazo. Um primeiro estudo - “Is The Price of Music Heading Towards Zero?” (via Wired) - da responsabilidade do economista Will Page, da MCPS-PRS, uma sociedade de gestão colectiva de direitos conexos sediada em Londres, propõe-se à arriscada missão de responder à pergunta se o preço da música está de facto prestes a chegar a zero e foi inicialmente apresentado numa conferência em Vancouver, Canadá, no final do ano passado. Para além das razões óbvias normalmente apontadas como a partilha de ficheiros e o empréstimo de CDs, o autor conclui que a indústria musical tem a possibilidade de fazer face a essa situação ao tornar outra vez a música um bem exclusivo, não através do recurso à famigerada tecnologia de DRM mas pela venda de faixas em pacotes e outros serviços adicionais.De um bem privado puro, a música está-se a tornar um bem público puro, graças à tecnologia digital e, em particular, às redes P2P que geram uma cauda longa de oferta ilimitada de conteúdos. Isto coloca problemas, porque se passa a ser um bem não rival (se eu “consumo” um ficheiro MP3, isso não impede os outros de o “consumir” e vice-versa) e não exclusivo (é impossível impedir o acesso de outros), o seu valor torna-se nulo. O seu argumento é que apesar de ser impossível introduzir um elemento de rivalidade na música digital, a opção da venda em pacotes é a melhor estratégia para que uma unidade de música volte a ser exclusiva, porque os consumidores estarão mais dispostos a pagar pelo conjunto, se este incluir também concertos ao vivo e serviços de subscrição.
A análise económica de Page faz sentido mas não parece trazer nada de novo para a discussão e as pistas apresentadas são pouco desenvolvidas, em comparação com outros estudos recentes. Ainda para mais, porque no final ele acrescenta umas observações críticas em relação às licenças Creative Commons que indicam o seu viés marcadamente liberal-economicista. Segundo ele, as CC não são nada de revolucionário, pois não constituem uma alternativa radical ao sistema vigente de direitos de autor e muito do que elas permitem pode ser feito de acordo com as leis convencionais. Para além destes lugares-comuns (verdadeiros), ele apresenta as CC como se fosse um método para entregar o “ouro”, os conteúdos, aos bandidos, isto é, os consumidores. “Os benefícios isolados desta abordagem, como marketing, podem à primeira vista parecer persuasivos, mas eles não compensam os custos, nomeadamente, os custos de oportunidade ao permitir que a sua obra seja usada livremente.” Claro, só interessam as receitas que entram no bolso da indústria; o resto, o acesso à cultura, a possibilidade de criação adicional de bens não rivais e não exclusivos, como se diz em economês, não interessam…
Outro texto que me parece bem mais interessante, pois aponta para modelos concretos que já estão a ser postos em prática por start-ups e outras empresas, é “Musique et numérique : Crise ou âge d’or ?”, da autoria de Daniel Kaplan e Arnaud Klein, dois investigadores franceses da Fondation Internet Nouvelle Génération. Para além do “recurso a um financiamento público e/ou mutualista da criação da música, de um regresso em massa à música interpretada ao vivo ou de um abandono deliberado dos circuitos económicos actuais em benefício de uma autoprodução generalizada”, eles examinaram o vasto número de inovações comerciais que têm vindo a ser lançadas no mercado. Assim, propõem três formas complementares de criação de valor económico no sector da música mas não só:
- A economia dos fluxos, que consiste em passar de uma economia baseada em preços unitários elevados e quantidades reduzidas, para uma economia baseada em quantidades elevadas e preços unitários reduzidos - isto é, não significativos, o consumidor paga apenas um direito de acesso ao fluxo (a tal metáfora da “música como àgua”).
- A economia dos serviços, em que a raridade e unicidade é obtida através da experiência musical, que organiza e valoriza as formas e os momentos através dos quais a relação com uma obra ou com os artistas surge como singular, exclusiva e não reprodutível.
- A economia da atenção, ou seja, a intermediação entre uma “oferta” sobreabundante, diversificada, mundial e uma procura cada vez mais individualizada e móvel.
Esta tipologia parece-me ser bastante mais útil e interessante que a análise básica e um pouco batida de Will Page. Kaplan e Klein prometem continuar a abordar o assunto numa série de artigos posteriores que se inserem no estudo Musique et numérique : la carte de l’innovation, cujas conclusões deverão ser anunciadas a 19 de Abril. No final do presente artigo podem ler um excerto desse estudo; pelo que li, promete uma excelente leitura, dado que se baseia na análise empírica de cerca de 50 empresas e mais de 30 modelos económicos diferentes.
Independentemente dos méritos de cada um, os estudos que eu referi aqui mostram que na Inglaterra e na França se dá a atenção devida à música, essa força-motriz das indústrias culturais ou criativas. Só nos resta esperar para saber quando é que as entidades públicas e as associações sectoriais portuguesas darão o primeiro passo nesse sentido.
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