A diferença entre música grátis e livre Publicado 24 Abr 07
No mundo da cultura a distinção entre livre e grátis faz tanto sentido como no do software. Se somos obrigados a aturar com um minuto de publicidade para ouvir uma música de quatro minutos, não será correcto dizer que se trata de música livre, mas sim gratuita. As companhias discográficas não parecem, contudo, ter compreendido essa distinção e, sobretudo, ainda não perceberam que não é isso que os apreciadores de música desejam. Aliás, talvez essa seja a razão do sucesso da tecnologia de gravador de vídeo digital TiVo nos Estados Unidos: as pessoas não querem assistir aos anúncios. O sucesso da YouTube também está, em grande parte aí: a publicidade não se encontra “colada” aos vídeos mas sim ao lado, pelo que os utilizadores não são forçados a prestar atenção aos anúncios.

Em Agosto passado, soube-se que a Universal Music tinha assinado uma parceria com a start-up SpiralFrog para o lançamento de um serviço gratuito de downloads de músicas em que as receitas assentariam na publicidade. No seguimento de alguns rumores que davam conta de desentendimentos e saídas de vários executivos da companhia, a data prevista de abertura - final de 2006 - foi adiada para Fevereiro. Entretanto, já passaram quase dois meses e ainda não há novidades.
Para além de apenas contar com o catálogo de uma das quatro “grandes” da indústria da música e algumas outras independentes, o SpiralFrog tem também como inconvenientes o facto de se tratar de um serviço de subscrição que, devido à tecnologia DRM que irá empregar, obriga os utilizadores a visitarem o seu site para validarem a música que transferiram; impede a cópia das faixas para CD; não permite que a música possa ser ouvida em mais do que um PC ou de dois dispositivos móveis; e, por último, faz com que se tenha que esperar 90 segundos para que o download de cada faixa se inicie. Em resumo: custo zero, liberdade mínima…

Quando se pensava que a ideia da música com anúncios à força era um nadomorto, eis que surge esta semana um artigo no New York Times - automaticamente linkado por centenas de outros sites e blogs - sobre a Qtrax que se apresenta, nada mais, nada menos, como a primeira rede P2P legal de música financiada por anúncios. A grande vantagem da Qtrax face ao seu concorrente SpiralFrog é que conta à partida com um catálogo muito maior. Depois da Warner Music e da EMI, chegou também agora a vez da Sony BMG assinar com a empresa. Na calha estão também a própria Universal Music e a Merlin, uma associação de labels independentes. A Qtrax conta ainda com os serviços de consultoria de Robin Kent e Lance Ford, ex-director executivo e director de vendas da SpiralFrog, respectivamente, através da sua empresa Rebel Digital. Mas será de facto que estamos perante uma verdadeira rede P2P de partilha de ficheiros como o site apregoa, ou o autor do artigo do NYTimes deixou-se levar pelo entusiasmo?
Há não muitos anos, quando surgiu na cidade australiana de Melbourne, a Qtrax oferecia de facto uma verdadeira aplicação P2P. Contudo, actualmente de P2P o seu serviço só tem o facto de utilizar um cliente Gnutella, dado que não está prevista qualquer tipo de partilha das faixas entre os utilizadores; por outro lado, embora não haja qualquer informação concreta a esse respeito, é muito provável que os ficheiros disponíveis para download estejam protegidos por DRM, ao contrário do que sucede com as faixas disponíveis no eMule.
Mas como Glenn Peoples esclarece no blog da indústria Coolfer a maior contradição entre o que é publicitado e o que podemos ler dos dados concretos adiantados no artigo é que, apesar de o site da Qtrax dizer que o serviço oferece “unlimited free downloads and plays”, se ler no texto do artigo que os utilizadores (apenas) poderão ouvir as faixas um determinado número de vezes - provavelmente cinco, no caso da maioria dos grupos das majors. Se quiserem ouvir mais terão que comprar. Ou seja, se lermos bem o que se esconde por detrás das frases grandiloquentes de marketing, o serviço da Qtrax vai ser apenas uma imitação do iTunes com a diferença de que se poderá ouvir o streaming completo da faixa antes de pagar para fazer o download, mas apenas se concordarmos levar com publicidade. Isto é que é um modelo de negócio a pensar nos interesses do consumidor!
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