Existe uma “cauda longa” no mercado da música? Publicado 7 Abr 07
O livro “A Cauda Longa” de Chris Anderson, lançado no ano passado com grande sucesso junto do segmento da literatura de negócios - e agora com tradução disponível em português numa edição da Actual -, apresentou uma teoria com o mesmo nome segundo a qual a passagem do analógico para o digital irá permitir um aumento nunca antes visto da oferta informativa e cultural, permitindo que os nichos comerciais que até há pouco eram desprezados pelas grandes superfícies comerciais possam subsistir e encontrar o seu público natural num mercado global e sem fronteiras. Em lugar de um ecossistema concentrado num reduzido número de êxitos com vendas na ordem das milhões de unidades, passaríamos para um ecossistema em que, apesar de não desaparecerem de todo, esses grandes êxitos deixariam de ocupar todo o espaço, ao mesmo tempo que um sem número de outras opções encontrariam procura por parte de milhões de consumidores com gostos completamente distintos.
Mas no caso do sector da música, será que os dados empíricos recentes confirmam essa teoria optimista ou há razões para estar pessimista? Na continuação do artigo publicado na semana passada sobre a inovação comercial no sector da música no âmbito do projecto Musique et Numerique: la carte de l’innovation, o investigador francês Daniel Kaplan tenta responder a essa questão e chega à conclusão que, pelo menos no que toca ao mercado da música, os factos não corroboram a teoria.
Assim, se o surpreendente aumento das vendas de CDs de música clássica registado no ano passado prova que a Internet pode dar uma nova vida às colecções de fundo de catálogo, no cômputo geral os números relativos às vendas de álbuns na França não dão sinais de uma desconcentração - os hits continuam a dominar o mercado (será que em Portugal o cenário é idêntico?). Outro dado a acrescentar e que Kaplan não refere é o sucessivo encerramento de lojas de discos e companhias discográficas independentes que tem ocorrido nos últimos tempos.
Desta forma, os dados parecem fazer crer que a teoria da “cauda longa” se adequa sobretudo aos grandes distribuidores que dispõem da capacidade de administrar um vasto número de referências e que podem comercializar mais facilmente artistas menos conhecidos, cujos direitos de exploração são bastante reduzidos ou até mesmo gratuitos. Apesar de Kaplan não adiantar nomes, um dos exemplos desse tipo de agregador baseado num modelo de crowdsourcing que eu considero bastante apto é o MySpace. Ali se podem encontrar todos os nomes conhecidos e desconhecidos do Rock, do Pop e do Hip-Hop. Os músicos que abrem uma página no site da News Corp. sabem que podem disponibilizar ali as suas músicas e assim promover o seu trabalho sem terem que pagar nada. Mas quais são os custos secretos por detrás dessa benevolência? Até há pouco tempo, ao assinar o contrato inicial com a empresa, o utilizador cedia todos os direitos sob os dados disponibilizados à Fox Interactive Media, uma subsidiária da News Corp.
Mas para que esse modelo de “cauda longa” funcione é indispensável a existência de uma rede social que distribue a informação sobre as obras disponíveis, fazendo assim corresponder os nichos ao seu público-alvo específico, os potenciais compradores, como refere Guillaume Champeau do site Ratiatum. Esta perspectiva é também partilhada por Daniel Kaplan, segundo a qual a “cauda longa” seria não tanto uma teoria explicativa mas mais o resultado de uma dinâmica virtuosa.
Creio, contudo, quanto a mim que esta análise ignora o simples facto de que a maior “cauda longa” que existe é uma rede P2P como o BitTorrent. Ali se pode encontrar de tudo para todos. Acontece que, tal como todos os sistemas de partilha de ficheiros, o BitTorrent desmorona todos os conceitos tradicionais associados ao mercado, fazendo mais sentido falar em “economia da dádiva” ou “produção entre pares”, como refere Michel Bauwens. A digitalização implica uma mudança profunda de paradigma. Não se pode voltar atrás e, principalmente, não se pode cobrar pelo que já é gratuito. Como o próprio Chris Anderson admitiu em Janeiro passado no MIDEM de Cannes, “Tudo aquilo que está ligado ao formato digital será gratuito. Serão as outras experiências musicais, isto é, aquelas que não são duplicáveis até ao infinito, que vão ser pagas”. Por outras palavras: concertos, merchandising, etc. E neste processo, a morte do CD é apenas um primeiro passo na direcção de uma nova concepção da economia da música, à margem do mercado e longe das divisões ultrapassadas entre produtor e consumidor. É neste espaço que surge a oportunidade de um contacto directo entre o músico e o seu público, em que aquele recebe doações deste. Este é o circuito das netlabels e dos artistas autopublicados.
É claro que o peso de agregadores como o MySpace não irá diminuir, antes pelo contrário. Mas o dinheiro virá através da publicidade a bens tangíveis ou outros que nunca poderão ser digitalizados. O Google foi o primeiro a aprender essa lição. O perigo que se corre é justamente o de assistirmos a uma excessiva concentração na esfera do mercado que implique uma excessiva dependência dos nichos em relação a estes agregadores, na medida em que são as redes sociais que permitem encontrar um público para cada um desses nichos.
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[...] artificial destes artistas. Ou seja, trata-se de um mecanismo de feedback que apenas prejudica a cauda longa, em vez de a [...]
Comentário de O Top das novas estrelas: o P2P não matou a rádio | Remixtures em 27 Mar 08 22:40.