Mashups e a ascensão da democracia semiótica Publicado 27 Abr 07
E esta, hein? Uma avózinha de 80 anos chamada Sue Teller colocou no YouTube um vídeo de três minutos em que ensina a fazer mashups. O vídeo tem muita piada e demonstra como a tecnologia permite que pessoas normais façam coisas que nós não esperávamos - mesmo que esses actos sejam considerados ilegais à luz dos direitos de autor -, porque estamos habituados a julgar os membros de uma determinada categoria demográfica ou social de acordo com determinados estereótipos. Por outro lado, a nossa tentação de fantasiar a realidade e de nos abstrairmos-nos do poder do marketing é demasiado grande.
Digo isto, porque se repararem bem no vídeo, poderão observar como ela está sempre acompanhada por uma lata de Mountain Dew, um refrigerante propriedade da Pepsi e no final aparece a mensagem “Promotional consideration provided by Mountain Dew.” A atitude cool e descontraída do clip condiz bem com o espírito do site da MDTV, onde se podem ver uma série de vídeos sobre desportos radicais, música, jogos e… claro, anúncios televisivos da marca. Embora todos os indícios apontem para que se trate de uma campanha de marketing de guerrilha, pode-se dizer que é um excelente exemplo de democracia semiótica ou semiológica. Há muitas definições desse conceito, a começar pela do teórico dos media John Fiske no livro de 1987 Television Culture, onde, desenvolvendo o conceito de tácticas de Michel de Certeau, defende que, ao contrário das vozes apocalípticas que proclamam, a cultura de massas e, em particular, a televisão transforma os cidadãos em couch potatoes passivos que se limitam a assimilar as mensagens veiculadas pela indústria cultural, os espectadores resistem e subvertem os significados originais dessas mensagens. Mas penso que esta citação é bastante explicativa:
Um dos determinados efeitos da era electrónica é que ela irá alterar definitivamente os valores que atribuímos à arte. De facto, o vocabulário do critério estético que tem sido desenvolvido desde o Renascimento diz sobretudo respeito a termos que se têm vindo a demonstrar pouco válidos na análise da cultura electrónica. Refiro-me a termos como “imitação”, “invenção” e, acima de tudo, “originalidade”, que nos últimos tempos têm transmitido implicitamente vários graus de aprovação ou crítica, em conformidade com a acepção peculiarmente distorcida de evolução histórica que a nossa era aceitou, mas que deixaram de ser capazes de transmitir os conceitos analíticos exactos que anteriormente representavam
A transmissão electrónica já inspirou um novo conceito de responsabilidade de autoria múltipla em que os conceitos específicos de compositor, intérprete e até mesmo de consumidor se sobrepõem. …Não demorará muito, parece-me, para que se identifique um carácter de auto-afirmação na participação dos ouvintes; antes que, para dar apenas um exemplo, a edição “faça-você-mesmo” de cassetes se torne na prerrogativa de todo o consumidor razoavelmente consciencioso de música gravada (talvez a actividade da Hausmusik do futuro!). E ficaria bastante surpreendido se o envolvimento do consumidor parasse neste nível. De facto, implícita à cultura electrónica está uma aceitação da ideia da participação multinível no processo criativo.
Isto foi escrito em 1964 por um canadiano - não, não é tirado de Understanding Media de Marshall McLuhan. Quem assina é o exímio pianista Glenn Gould.

Já agora, encontrei o vídeo de cima através de Adam Sinnreich, fundador da empresa de análise da indústria da música Radar Research e investigador da Annenberg School for Communication. A 22 de Março, Sinnreich deu uma conferência num seminário nessa faculdade de Los Angeles onde fez um resumo do seu projecto de doutoramento sobre aquilo a que chama cultura da configurabilidade - termo a que atribui um significado mais abrangente do que remix ou remistura, uma vez que não se limita aos media e à música - e analisou alguns dos efeitos estéticos, legais, políticos e comerciais que derivam do acesso generalizado às ferramentas de produção de músicas e outros conteúdos culturais que todos podem copiar, reapropriar e disseminar entre si. Howard Rheingold escreveu sobre a apresentação aqui. Parece-me a mim que a configurabilidade a que Sinnreich alude também sugere uma referência à fase de composição que Jacques Attali apresenta em Noise. A imagem de cima refere-se a um slide exibido durante o seminário.
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