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Para além da cultura da remistura Publicado 25 Abr 07

“O que vem a seguir ao remix?” pergunta Lev Manovich num ensaio escrito em Fevereiro passado e que Eduardo Navas repassou no seu Remix Theory. Depois de ler o artigo poderemos não ficar a saber a resposta, mas pelo menos ficamos com um itinerário genealógico do remix ou da remistura nas últimas três décadas, a começar pelas origens do sampling nos primeiros DJs do disco sound e acabando nas aplicações Web que remisturam dados, os chamados mashups de software. O texto explica de uma forma acessível como é que o remix alastrou progressivamente para outros domínios da criação artística como o design, a fotografia, a arquitectura e as artes plásticas e estabelece uma comparação com termos que já eram anteriormente empregues nessas áreas como “apropriação” e “citação”. Alguns excertos:

É um truísmo dizer que hoje em dia vivemos numa “cultura da remistura”. Nos dias de hoje, muitas dos sectores culturais e estilos de vida - música, moda, design, arte, aplicações Web, media criados pelo utilizador, alimentação - são dominados por remisturas, fusões, colagens ou mash-ups. Se o pós-modernismo definiu os anos 80, a remistura predomina definitivamente nos primeiros dez anos do século XXI e irá provavelmente continuar também a prevalecer ao longo da próxima década.

(…)

Inicialmente, a remixagem tinha um significado preciso e restrito que veio gradualmente a estender-se. Embora se possam identificar antecedentes da remixagem em períodos anteriores, foi a introdução das mesas de mistura multi-pista que tornou a remixagem uma prática comum. A partir do momento em que cada elemento de uma música - vozes, batidas, etc. - passou a estar disponível para manipulação , passou a ser possível “re-misturar” a música: alterar o volume de algumas pistas ou substituir novas pistas pelas anteriores. Progressivamente o termo veio a tornar-se mais e mais abrangente, referindo-se actualmente a qualquer recriação de obras culturais já existentes.

(…)

Por volta do virar do século XX para o XXI, as pessoas começaram a aplicar o termo “remistura” a outros media para além da música: projectos visuais, software, textos literários. Uma vez que, do meu ponto de vista, a música electrónica e o software funcionam como os dois principais reservatórios de novas metáforas para a restante cultura contemporânea, esta expansão do termo é inevitável; apenas podemos nos admirar porque é que não aconteceu mais cedo. Contudo, acabamos por nos deparar com um paradoxo interessante: enquanto no domínio da música comercial, a remixagem é oficialmente aceite, em outras áreas culturais ela vista como uma violação do copyright e, consequentemente, como um roubo. Assim, embora cineastas, artistas visuais, fotógrafos, arquitectos e Web designers costumem remisturar obras anteriores, isto não é abertamente admitido e não existem termos adequados equivalentes à remistura na música para descrever estas práticas.

O teórico da cibercultura e autor de The Language of New Media já tinha abordado anteriormente em “Remixability” - um ensaio datado de Outubro/Novembro de 2005 - as possibilidades criativas que a modularização do digital oferece no sentido da recombinação de dados. Mas neste novo ensaio, nota-se que há um esforço de Manovich em querer sair do “jardim murado” da academia e do “cubo branco” da galeria de arte e embarcar numa pequena viagem pelas ruas e pistas de dança onde a música popular é produzida, disseminada e escutada. Ainda que curto, o texto é interessante pois não é todos os dias que um guru da “cibercultura” se atreve a sujar as mãos com a cultura da periferia. Regra geral, a música Pop continua a ser estranhamente ignorada e desprezada por muitos teóricos da arte.

Não será o caso da redoma dourada do “umbiguismo estético” que alguns projectos de novos media ditos de vanguarda exibem ser mais conveniente que o confronto com o mundo concreto da realidade urbana que nos circunda a todos e que tem implicações políticas e sociais bastante profundas, que dizem respeito a grupos abrangentes da sociedade? Não será devido ao poder extraordinário de resistência que a música é capaz de exercer sob a populaça “promíscua” e que constitui por si só uma ameaça a bastiões sagrados das elites como os conceito de “originalidade”, “autoria” e “beleza estética”?

Voltando à pergunta retórica de Manovich, talvez a resposta do que está para além da remistura seja o mashup, para retomar aqui a distinção explorada por Jim Barrett. Partindo das definições de remix e de mashup na Wikipedia, ele contrasta a conotação de limpeza branca presente na remistura, enquanto criação atribuída a um “remisturador”, o que faz pressupor uma continuidade da presença do artista enquanto génio - sempre ele, esse ser angélico isolado dos restantes entes terrestres… - com a “sujidade” implícita ao mashup, um processo que dissolve todas as fronteiras entre o original e a colagem ou o plágio de várias músicas, um híbrido ou mutante que desafia todas as convenções estéticas. Em resultado, ao passo que a remistura, por se tratar de uma nova canção criada a partir de certas partes de uma outra, perpetua a cultura mercantil e o conceito de originalidade a que esta está parcialmente associada, os mashups, por seu lado, subvertem todos os valores dessa cultura. Isto porque, como Attali explica em Noise é o conceito de autoria, central à noção de propriedade intelectual, que faz com que a música adquire um valor de troca passível de gerar lucro. Mas os mashups removem todos os vestígios dessa ficção muito conveniente do autor individual enquanto dono da sua obra. Eles estão para além do copyright, numa terra de ninguém a que Rasmus Fleischer dá o nome de Commons cinzento.

Barrett parte do pressuposto que a remistura, tal como o mashup, também é um processo. Mas tendo o conta o referido atrás, será talvez mais adequado encará-la como um produto, pegando aqui na distinção estabelecida por Giuliano Bonorandi AKA Djahdjah entre as Creative Commons e a General Public License. Enquanto que nas remisturas, tal como nas CC, podemos encontrar ainda os resquícios do individualismo autoral do copyright que legitimou a mercantilização da cultura, nos mashups, tal como na GPL, o que está em causa é um processo colaborativo no sentido da permanente modificação dos samples e do código de software. Podemos até imaginar um futuro próximo em que a música será levada ao máximo da modularização, em que cada composição será apenas o resultado efémero da combinação de certos samples que constituem por sua vez modificações de excertos de outras músicas - cada módulo seria contribuído por um de entre os vários elementos do projecto, segundo uma estrutura descentralizada semelhante à adoptada no projecto de desenvolvimento do kernel do Linux. Aí sim, estaríamos no domínio de uma democracia semiótica em que todos poderiam participar na criação de um signficado cultural, fora dos constrangimentos ditados pelo “gosto estético” autorizado pelas elites e pelas leis que favorecem a indústria cultural.

Nota: a imagem que acompanha este post foi tirada por FullFlava e está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0.

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