O vídeo que podem ver em cima é retirado da série de televisão WKRP in Cincinnati que foi transmitida pela cadeia norte-americana CBS entre 1978 e 1982. Infelizmente nunca chegou a ser transmitida cá em Portugal, pois a história era bastante interessante. A sitcom centrava-se nas peripécias dos funcionários de uma estação de rádio em vias de fechar e, como tal, continha muitas cenas como essa onde podiam ouvir algumas faixas de Rock da altura passadas pelos DJs da estação. Para além de Pink Floyd, outras músicas de nomes de bandas famosas como Foreigner, Queen, Blondie, Doors, Eagles e Talking Heads apareciam também de vez em quando, frequentemente encadeadas ao argumento de cada episódio.
Como é natural, os acordos de licenciamento destas faixas aos detentores do copyright para que elas pudessem ser difundidas envolviam quantias bastante elevadas e, dado que na altura os gravadores de vídeo ainda estavam longe da massificação, as licenças negociadas apenas abrangeram um período bastante curto. Mais de uma década depois, quando a produtora MTM quis vender os direitos de retransmissão a outras estações de televisão, de modo a evitar o pagamento de mais royalties decidiu-se substituir as músicas originais o que, como podem imaginar, deturpou completamente o simbolismo e o espírito da série. Conseguem imaginar aquela cena de cima sem Dogs dos Pink Floyd ou esta aqui de baixo sem Hot Blooded dos Foreigner? Eu não.
Em lugar de músicas que marcaram indelevelmente a história do Rock e que dizem bastante à geração de norte-americanos que tem hoje entre 50 a 60 anos, foram colocadas faixas desse género execrável de música, também conhecido por música de elevador ou Muzak, fabricada em quantidades industriais por músicos de estúdio a imitarem os originais e que pelo facto de os direitos serem tão baratos, podem ser licenciadas perpetuamente.
Pequena digressão: a designação Muzak tem origem no nome de uma companhia norte-americana com o mesmo nome fundada em 1934 que se dedicava à produção e distribuição de música a lojas e outras empresas. Ao longo dos anos, o termo foi ganhando o significado genérico e de conotação pejorativa relativa a todas as músicas instrumentais de fundo, repetitivas, banais ou derivativas. Pelo que a Wikipedia informa, desde os anos 90 que a Muzak Holdings, LLC já não se dedica a tão infame negócio, mas o que é facto é que a fama ficou. Mas ao que parece, a distribuição de música original também já não é um bom negócio: correm rumores de que a empresa está a negociar uma fusão com a rival DMX Inc. Um exemplo clássico de Muzak são as mil e uma versões insípidas de Garota de Ipanema que “assassinam” e roubam a alma da melodia intemporal dos mestres Tom Jobim e Vinicius de Morais.
A história da WKRP in Cincinnati fascinou-me por isso, por ser sintomática de algo mais geral e hediondo: ela mostra como a indústria cultural desfigurou o Rock, essa pulsão primária, “viva” mas constituída por watts de electricidade, a ponto de lhe roubar a alma. Como Jacques Attali refere em Noise, a música fabricada pela Muzak – o “sistema de segurança dos anos 70″ como a firma se apresentava na época – pode ser comparada a uma técnica de vigilância e espionagem social, um “monólogo estereotipado e padronizado que acompanha e cerca a vida diária de pessoas que perderam o direito de falar” (1985, pág. 8). Mais à frente o teórico francês aborda em pormenor os procedimentos empregues por esta firma dedicada ao silenciamento da música:
As peças de música usadas nas cassetes que eles vendem são sujeitas a um tratamento semelhante à castração denominado “série de limitação de intensidade” que consiste em diminuir o timbre e o volume. Elas são então inseridas em cartões perfurados, agrupadas por género, duração e tipo de conjunto musical, sendo em seguida programadas por um computador em sequências de 13 minutos e meio, que são por sua vez integradas em séries completas de oito horas, antes de serem colocadas no mercado.
(…)
De acordo com David O’Neill, um dos executivos da Muzak: “Nós não vendemos música; vendemos programação.”
(…)
Esta música não é inocente. Não é apenas uma forma de tornar imperceptíveis os ruídos enfadonhos do local de trabalho. Poderá ser o prenúncio do silêncio geral dos homens perante o espectáculo das mercadorias (idem, pág. 112-113)

Portanto, em vez de Doors e outras bandas que continham uma mensagem de revolta contra o sistema vigente, os responsáveis da MTM meteram esta imitação grotesca da obra original nas versões para redistribuição da WKRP. Em algumas cenas, quando a música estava a tocar ao mesmo tempo que os diálogos, determinadas frases das personagens tiveram que ser redobradas por actores com vozes semelhantes. Justin Levine, o técnico encarregado dessa “excisão” fez recentemente um relato dessa história no blog Against Monopoly (via Wired). Nas suas próprias palavras: “The new music that was inserted into the show sucked ass. It was wrong for the feel and attitude of the show.”
O medo de que algum episódio integral da série fosse por engano distribuído às estações de televisão e acabasse por ser emitido que a maioria das cópias originais foram destruídas. Como se sabe, nos EUA os advogados da indústria musical não brincam em serviço e se algum azar desse tipo acontecesse, a MTM sujeitava-se a levar com uma catadupa de processos judiciai
Mas a história não acaba aqui. Qual não foi o espanto de Levine, que pensava que a versão original da série de televisão nunca iria ver a luz do dia em DVD dados os elevados custos dos royalties relativos ao seu licenciamento, quando ficou a saber que a primeira temporada da WKRP será lançada a 24 de Abril em DVD pela Fox – que entretanto passou a ser a proprietária da MTM, depois de ter “abocanhado” uma empresa de televisão por cabo, a Family Channel, que tinha já anteriormente comprado a MTM…
Acontece que, a versão agora lançada é ainda pior que a produzida nos finais da década de 90 para retransmissão. Para além de várias das músicas que tinham permanecido foram substituídas, muitas das cenas foram simplesmente cortadas, dado que na maior parte dos episódios a música está integrada nos diálogos. A lista das várias adulterações efectuadas à série revela bem o grau com que a indústria do entretenimento está disposta a atropelar a integridade artística de um produto cultural, ainda que este seja proveniente da “cultura popular” – tudo em nome do “sagrado” copyright.
Mas não será o copyright e a imagem de protector do direito dos criadores a serem recompensados que está associado a ele apenas uma forma velada de esconder os interesses gananciosos de conglomerados multimédia? No final, quem fica a perder é a própria indústria, pois os fãs acérrimos que estavam dispostos a comprar sentem-se ofendidos; as vendas ressentem-se. Vale sempre mais a pena pagar mais por uma cópia pirata e de má qualidade mas que contém integralmente todos os episódios. E da mesma forma, também os artistas são afectados. Obras de bandas como os Foreigner e Earth, Wind & Fire continuam relegadas ao esquecimento pelas gerações mais recentes.
Nota: a imagem de uma caixa Muzak que acompanha este post é da autoria de
iluvrhinestones e está disponível aqui sob licença CC-BY-SA 2.0.
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Miguel, ao tentar acessar o video diretamente na página do YouTube, porque por aqui não estava “rolando” está dando a seguinte mensagem: “Este vídeo foi removido por violação dos termos de uso. “