MP3 Blogs: o princípio do fim do crítico de música? Publicado 8 Jun 07
Net, Blogs and Rock’n'Roll é o nome do livro de David Jennings AKA DJ Alchemi que contém tudo o que queríamos saber sobre o modo “como a descoberta digital funciona e o que isto significa para os consumidores, criadores e a cultura” mas tínhamos medo de perguntar. O livro deverá sair entre o Outono e o Inverno com a chancela da Nicholas Brealey Publishing, uma editora britânica especializada em títulos sobre negócios e educação.
Como Jennings refere no texto de apresentação do livro, é um facto que os apreciadores de música têm hoje a oportunidade de descobrir e aceder a uma quantidade anteriormente inigualável de novas obras publicadas por artistas de todos os cantos do mundo. Este aumento no número de discos disponíveis deve-se em grande parte devido às facilidades no processo de distribuição que a Internet oferece. Os MP3 Blogs desempenham aqui um papel crucial pois ajudam a divulgar a música e as bandas de qualidade de um modo “passa a palavra”, mais pessoal, directo e sem intermediários. Pelo que o índice provisório do livro deixa antecipar, Jennings vai mais longe na sua análise do processo de descoberta de música nova na Web para abordar também serviços de recomendação social como Last.fm, Pandora e o recente Slacker.
Retomando uma discussão muito frequente sobre a relação entre o blogger amador e o crítico musical profissional que escreve para um órgão de comunicação social, Alchemi deixa entender que é da opinião que os dois papéis funcionam simultaneamente em concorrência e cooperação no processo de descoberta musical por parte do fã.
Mas a verdade é que a blogosfera musical sofreu uma transformação radical desde os seus primeiros dias. No início, em meados de 2003, as poucas vozes que se faziam ouvir beneficiavam de uma notoriedade que lhes advinha do facto de escrevem regularmente nos media tradicionais como críticos de música profissionais, servindo os seus blogs frequentemente como veículos dos gostos e das tendências reflectidos na linha editorial dos órgãos de comunicação social em que colaboram; isto quando não se tratavam de professores universitários. Estou-me a referir particularmente a nomes como Simon Reynolds (Blissblog), Matt Woebot e Mark Fisher (k-punk).
Desde então, o papel destes “curadores” oficiais do underground parece ter-se desvanecido e perdido a sua importância. Em parte devido à multiplicação do número de blogs que não só comentam sobre os novos lançamentos como disponibilizam online as músicas sobre as quais escrevem, em parte porque esses pioneiros impediram a discussão ao removerem a possibilidade de os leitores comentarem os seus posts... Contudo, Simon Reynolds - que acaba de lançar Bring The Noise, onde retrata as linhas de convergência entre o Rock e o Hip Hop nos últimos 20 anos -, parece não se ter conformado com essa mudança:
The web has extinguished the idea of a true underground. It’s too easy for anybody to find out anything now, especially as scene custodians tend to be curatorial, archivist types. And with all the mp3 and whole album blogs, it’s totally easy to hear anything you want to hear, in this risk-less, desultory way that has no cost, either financially or emotionally.
O que parece estar implícito nas palavras de Reynolds é a constatação de que a abundância da economia da Rede acaba por comprometer a legitimidade do crítico profissional. Este até há pouco funcionava - com a rádio - como um dos poucos mecanismos de recomendação à disposição do apreciador de música. Dado a escassez provocada pelos constrangimentos físicos da tecnologia analógica, o fã apenas tinha acesso a um número muito limitado de obras. O crítico funcionava assim como um selo de garantia, um filtro. Com a passagem para a Net, o seu capital cultural sai abalado. Quando não se encontra protegido por detrás dos seus jardins murados que impedem o diálogo com o leitor, transforma-se apenas em mais uma voz entre muitas outras que se podem encontrar nos blogs, no MySpace ou nas críticas da Amazon, Discogs, GEMM ou eBay. Disso mesmo faz eco Woebot:
Even if you take the position of not downloading music, if as a music buyer you rely on eBay and GEMM, there is an implicit disconnection from the grassroots networks that used to contain one’s consumption of music. The barriers once erect, if not demolished, have been lowered.
(…)
Myspace has thrown up some interesting phenomenon, eroding insurmountable obstacles to the will-to-glom in otherwise hopelessly disconnected and fractured networks. It has created scenes where otherwise there would be none; for instance the healthy collectives of Gypsy music. An institution like The Wire magazine could be seen as proto-web, relying not on hegemonies bound by geography, but by forming a focal point for like-minded individual across the globe. As such it managed to survive the extinction that befell many other mags earlier on this decade. Much of the cultural impulse behind blogs like WOEBOT and the sharity mp3 LP sites works on a similar premise to The Wire. Of course, infintely more than the press, the web is the perfect vehicle for narrowcasting. But crucifying the net itself for being the perfect utility to channel what are indubitably swelling currents in society is unfair. Indeed there’s an irony in recognising that by “Underground” here Simon means an alternative consensus.
I’m not sure if what Simon regards as the “Underground” doesn’t by definition (cf Dick Hebdige) require a greater investment in fashion and style, music and literature than will ever be available through the internet. Scenes require talismans.
Mas será que a fragmentação e o imediatismo reinantes na Web têm como consequência o fim de um suposto underground musical tão cultivado e prezado pela crítica ou será que significam apenas que o underground já não precisa do selo de aprovação oficial para ser reconhecido como tal? Talvez os eríticos se tenham de conformar com o facto de que se passa muita coisa de interessante para além do campo de alcance do seu radar….
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Já te tinha falado nesta questão, até por causa da minha dissertação, onde os dados académicos e de estudos privados confidenciais realizados por alguns jornais portugueses apontavam para a quase irelevancia da crítica cultural de uma forma geral e musical em particular. A critica, como elemento ligitimador, é transferido, num âmbito de actuação das Indústrias Culturais num sistema capitalista, para as grandes massas. E isso é realizado essencialmente pela televisão, rádio, promotores de espectáculos e mesmo as editoras fonográficas. A legitimação passa a ser implicita e não expressa. Este novo paradigma abre portas aos chamados fenómenos marginais que a propria indústria musical sempre deixou que existisse e se mantivesse sob a sua asa, como elementos de experimentação mais flexiveis que os grandes grupos económicos.
Comentário de Mikasmokas em 9 Jun 07 12:34.O paradigma já mudou há uns bons anos, até mesmo em Portugal (basta olharmos para os suplementos e publicações especializadas de música há 15 anos atrás e as de agora), e não só na área musical mas em muitas outras áreas. A mediação continua a existir, deixa provavelmente é de deixar progressivamente de estar tão dependente de um mediador. No entanto, devemos fazer a resalva de que cada país é um país, e que os mercados ainda funcionam de alguma maneira de forma muito nacional, regionalizada. E o que é válido para POrtugal já não o é em Inglaterra ou no Japão.