O Muzak como arma de controlo do espaço público Publicado 2 Jul 07
Os leitores regulares do Remixtures sabem que o pensamento de Jacques Attali é uma das maiores inspirações teóricas deste blog. Tal como o economista francês, partilho da perspectiva que a música exprime relações de força no seio de cada sociedade, reflectindo o ambiente económico e político de cada época. Nesse sentido, o seu controlo e domesticação pelos poderes vigentes é uma tarefa essencial para a sobrevivência destes últimos a longo prazo. Se é verdade que nos dias de hoje o pano de fundo preponderante assenta na guerra travada entre a indústria discográfica - os dominadores - e os fãs e apreciadores de música - os dominados - pela partiha entre pares via Internet, também é verdade que o poder pela música se exerceu ao longo de muitas décadas (e continua a exercer-se) no espaço público e, em particular, no espaço urbano das grandes cidades.
Sob este ponto de vista, podemos extrair ensinamentos fascinantes e, até certo ponto, extrapoláveis ao ambiente da tecnologia digital se olharmos para o modo como o Muzak tem vindo a ser utilizado como arma de controlo. Trata-se de um género musical correntemente conhecido por música de elevador e que consiste num conjunto de selecções easy listening de versões de clássicos do Rock e de música clássica suave. Como dei aqui anteriormente conta, em Noise Attali faz uma crítica contudente a este tipo de música programada, comparando-a a uma técnica de vigilância e espionagem social, chegando mesmo a dizer que poderá ser “o prenúncio do silêncio geral dos homens perante o espectáculo das mercadorias”.
Recentemente descobri um artigo publicado no número 9 da revista holandesa OPEN (via Networked Music Review) dedicado a examinar a função do som no domínio público escrito por Jonathan Sterne - autor de The Audible Past, “Uma História Cultural da Reprodução do Som” - que explora esse espaço de investigação deixado em aberto por Attali. Neste ensaio intitulado “Urban Media and the Politics of Sound Space”, o investigador de estudos de media analisa o modo como esta “arma dissuasora não agressiva” é empregue pelos propretários de estabelecimentos comerciais no sentido de tornar o espaço público mais seguro e controlável através da exclusão de grupos indesejáveis e que à partida não constituem potenciais consumidores, como jovens irreverentes e sem abrigo. Vale bem a pena a leitura por quem se interessa pelas implicações políticas da música. Alguns excertos (tradução minha):
Desde o início da sua adopção comercializada nos anos 30 enquanto alternativa às jukeboxes, a música programada operou no interior destas lógicas culturais contraditórias. Por um lado, é uma tentativa de atribuir a um espaço sónico a assinatura privada do seu proprietário. Em termos políticos, é o equivalente ao canto das aves ou aos gatos que assinalam os seus territórios. Quando a música programada preenche um espaço, ela cria uma versão sónica de um interior e de um exterior e a companhia que paga pelo serviço de música está a marcar e a atribuir consistência ao seu território. Por outro lado, a Muzak (em particular) é também famosa pelas suas tentativas behaviouristas de regular os mínimos detalhes de movimento dentro do seu espaço. Seguindo as conclusões de um estudo da British War Plants que demonstrou que as pessoas fabricavam bombas mais rapidamente se elas tivessem a ouvir música, o governo dos Estados Unidos atribuiu à Muzak um contrato para fornecer uma banda sonora para o seu esforço de manufactura bélica. A música programada também tem sido usada como um calmante para aliviar os ouvintes de outros ruídos. Filtra o barulho das conversas nos restaurantes e silencia o zumbido da broca do dentista.
Espaço de Defesa
A música como arma dissuasora não agressiva reordena estas funções históricas da música programada. Como uma forma de ruído branco urbano, instrumentaliza o gosto musical para afastar as pessoas e ao fazê-lo, cria um interior e um exterior. Se até agora o parque de estacionamento estava ‘fora’ do espaço detido pela loja, a arma dissuasora não agressiva transmite a mensagem de que ele passou a estar ‘dentro’ do espaço detido pela loja. Ocupa um espaço que se situa ambiguamente entre o público e o privado e transforma-o num espaço privado. Do ponto de vista dos proprietários das lojas, a música programada empregue desta forma ajuda a abafar o ruído das diferenças sociais ao limitar as interacções entre a clientela que desejam e públicos que os deixam desconfortáveis, quer sejam adolescentes, sem abrigo ou outros. De certa forma, a música enquanto arma dissuasora não agressiva poderá assemelhar-se a uma resposta benigna a populações que as lojas ou as autoridades municipais não querem ver por perto - basicamente, elas afastam as pessoas ao tornarem menos agradável o espaço que estas ocupam.
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[...] da lendária banda britânica de música electrónica KLF sobre o qual eu já falei aqui. Farto do Muzak e do ruído branco que lhe inundava constantemente os ouvidos, Drummond começou a pensar numa [...]
Comentário de Remixtures » Blog Archive » Dia 21 não há música para ninguém em 20 Nov 07 00:26.