A história da campanha de quatro anos da RIAA contra o P2P

by Miguel Caetano on 30 de Agosto de 2007

Relatório da EFF sobre a campanha da RIAA contra o P2PNão sei se repararam mas nos últimos meses não tenho dado muita atenção à saga interminável da RIAA, a associação que representa a indústria discográfica norte-americana, contra os fãs de música e os cidadãos dos EUA em geral que partilham músicas na Internet. Os episódios são tantos e tão rocambolescos que é bastante difícil acompanhar aquilo que é realmente relevante – ainda para mais porque estes processos envolvem muitas vezes recursos e contra-recursos, chegando a demorar anos. Por outro lado – e felizmente… -, o cenário jurídico dos EUA tem um impacto insignificante nos utilizadores portugueses e europeus de redes de partilha de ficheiros.

Ontem, a Electronic Frontier Foundation (EFF) publicou um relatório de 25 páginas intitulado RIAA v. The People: Four Years Later que analiza detalhadamente a campanha da RIAA contra mais de 20 mil norte-americanos que descarregaram músicas da Internet. De acordo com a EFF, os processos instaurados não conseguem travar a partilha de faixas via P2P, pelo que a única solução possível passa pela implementação de uma licença voluntária que ofereça a possibilidade de fazer legalmente downloads ilimitados a troco de uma pequena quantia mensal.

O documento mostra como mesmo antes de ter instaurado os primeiros processos contra utilizadores individuais – 261 estudantes universitários em Setembro de 2003 -, a RIAA começou por ir atrás das empresas fabricantes de aplicações P2P como o Napster, AudioGalaxy, KaZaA, Grokster, LimeWire e outros. Como de cada vez que acaba com uma, surgiam logo duas a substitui-la passou entretanto a enviar intimações aos fornecedores de acesso à Internet dos suspeitos, baseando num pretenso poder concedido pela Digital Millenium Copyright Act, uma lei de 1998 destinada a adaptar o copyright à era digital.

Mas quando a Verizon e outros ISPs começaram a ripostar, as companhias discográficas mudaram outra vez de táctica instaurando acções judiciais contra utilizadores não identificados suspeitos de serem uploaders que estavam associados a determinados endereços IP de modo a convencer os juízes a autorizarem o envio de intimações contra os ISPs.

Ultimamente e como eu dei conta aqui, a RIAA tem vindo a centrar a sua atenção nos estudantes universitários, enviando mensalmente centenas de cartas ameaçadoras a universidades espalhadas pelo país. Estas, por seu lado, têm vindo a ceder e impor sanções aos seus alunos.

Contudo, a EFF refere uma série de estudos empíricos relativos à evolução dos downloads de músicas a partir de redes P2P para demonstrar que a campanha da RIAA tem sido um rotundo fracasso. E mesmo os downloads legais não representam actualmente mais do uma pequena parte de todas as músicas disponíveis na Internet: de acordo com estimativas da própria IPFI relativas a 2006 por cada música adquirida legalmente da loja do iTunes deveriam existir cerca de 40 downloads ilegais…

O combate ao P2P apenas tem conduzido os fãs de música a tecnologias mais díficeis de detectar, que oferecem uma maior privacidade e segurança, como a gravação e troca de CDs e DVDs entre amigos e a partilha em redes privadas, isto é, darknets.

“Os artistas devem ser recompensados, mas estes processos não estão a colocar dinheiro nos bolsos de nenhum criador”, conclui o advogado da EFF Fred von Lohmann. É por isso que a EFF propõe a criação de uma licença voluntária global, blanket license ou tarifa plana que remunere os artistas e detentores de direitos pela partilha de ficheiros oferecendo aos fãs a possibilidade de legalizarem a sua situação em troca do pagamento de uma quantia mensal – cerca de cinco dólares por mês. Já aqui referi várias vezes este modelo, mas queria salientar que este é o mesmo sistema aplicado às estações de rádio e estabelecimentos comerciais que costumam passar música.

Resta porém convencer as companhias discográficas e os editores de música a juntarem-se para alcançarem uma solução que agrade a todos e desenvolver uma tecnologia que seja capaz de calcular com rigor e exactidão o número de vezes que as músicas são transferidas das redes de partilha de ficheiros ou reproduzidas nos computadores dos utilizadores. Por enquanto, o mais provável é que o número de processos não pare de aumentar tão cedo. Para quem quiser acompanhar a situação aconselho a leitura do blog Recording Industry v. The People escrito pelos advogados Ray Beckerman e Ty Rogers.

Bookmark e Compartilhe

Artigos relacionados:

  1. RIAA continua a instaurar processos contra partilhadores
  2. Juiz rejeita acusações da RIAA contra advogado dos partilhadores
  3. RIAA desiste de processo contra avozinha do Texas
  4. RIAA exige injunção contra Joel Tenenbaum
  5. Juiz indefere processo de LimeWire contra RIAA por abuso de posição dominante

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

{ 4 trackbacks }

RIAA vence primeiro processo em tribunal
5 de Outubro de 2007 ás 12:22
Electronic Frontier Foundation oferece ajuda legal a Jammie Thomas
12 de Outubro de 2007 ás 12:18
A proposta de Reznor: é uma licença para descarregar música e não um imposto | Remixtures
11 de Janeiro de 2008 ás 17:09
LimeWire desenvolve rede social para artistas e fãs de música | Remixtures
14 de Janeiro de 2008 ás 17:26

{ 1 comment… read it below or add one }

1 Mind Booster Noori 31 de Agosto de 2007 ás 10:37

As blanket licenses não podem funcionar… Acabei de escrever um artigo sobre o porquê, e que apresenta uma alternativa.

Responder

Leave a Comment

Previous post:

Next post: