Com a aquisição do uTorrent em Dezembro do ano passado pela BitTorrent.com e o lançamento pela empresa de Ashwin Navin e Bram Cohen de um serviço comercial de downloads de vídeos e músicas em Fevereiro era inevitável que algo mudasse na relação entre a companhia e a comunidade de programadores e utilizadores.
O sucesso do cliente original BitTorrent – bem como do protocolo, é claro – deveu-se em grande parte ao facto de Navin e Cohen terem disponibilizado o código fonte da aplicação de modo a que todos os interessados pudessem consultá-lo e fazer as modificações que quisessem. A partir daí surgiu a vasta gama de programas diferentes que actualmente existem, com o efeito não muito benéfico para os fundadores do BitTorrent do seu software-cliente ter sido largamente ultrapassado em número de utilizadores por outras aplicações com mais funcionalidades e mais rápidas, em especial o Azureus/Vuze e o uTorrent.
Foi aliás talvez devido aos 17 milhões de utilizadores deste último – não obstante o facto de ser uma aplicação proprietária, de código-fonte fechado e apenas disponível para Windows – que os fundadores do BitTorrent se decidiram pela sua aquisição. Na altura, Bram Cohen assegurou à comunidade de utilizadores do uTorrent que nada iria mudar e que o programa iria manter um site e fóruns próprios.
E na verdade não mudou nada no uTorrent, mas o que mudou foi com o próprio software-cliente oficial da BitTorrent.com. No final de Julho foi lançado o BitTorrent 6.0, a primeira versão baseada no uTorrent, mas ao contrário da versões oficiais anteriores a actualização não vinha acompanhada do respectivo código-fonte, muito embora o protocolo do BitTorrent continue -por agora… – a ser open-source e que o código-fonte das versões anteriores do programa continua a estar disponível.
Como Ashwin Navin, director-executivo da companhia, explicou à Slyck a decisão deve-se ao facto de:
Os programadores que produzem produtos de código-fonte aberto vêm frequentemente o seu produto ser redistribuído com outra designação por empresas com intenções maliciosas. Elas disponibilizam o software com spyware ou cobram pelo produto. Recebemos muitas vezes telefonemas de pessoas a queixarem-se que pagaram pelo cliente do BitTorrent
De acordo com Navin, o acto de fechar o código cria um “certo grau de distinção” entre o cliente oficial e software malicioso. Mas com isto, o que é que irá acontecer aos programadores que quiserem manter-se a par dos avanços técnicos no protocolo? Apesar das versões mais recentes da documentação deixarem de estar imediatamente disponíveis a todos, os interessados em saber mais pormenores sobre as extensões do protocolo e as revisões mais recentes poderão obter uma licença SDK.
Esperemos é que Navin e Cohen não acabem por lançar uma nova versão do protocolo que deixe de ser compatível com a versão actual, porque deste modo seria também o fim da interoperacionalidade entre os diferentes clientes…
Actualização (14 de Agosto): A ArsTechnica publicou posteriormente um artigo em que a BitTorrent.com desmente a versão avançada pela Slyck de que a partir de agora seria necessário obter uma licença SDK para ter acesso ao código. Assim, o protocolo continuará publicamente disponível e acessível a todos sem que seja necessária qualquer licença, sendo que a empresa irá continuar a publicar as versões mais recentes da especificação no site BitTorrent.org. Aliás, neste caso nem fazia muito sentido a referência ao SDK uma vez que este e a sua licença se destinam apenas a fabricantes de hardware como routers que querem integrar de origem suporte ao protocolo de partilha de ficheiros nos seus dispositivos e não para programadores de software-cliente.
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qual era a licença empregada no cliente de bittorrent? se fosse GPL esses problemas não aconteceriam…
Wille,
Eles usavam uma licença própria, a BitTorrent Open Source License, que segundo a Wikipedia derivava da Jabber Open Source License. Mas apesar de ter o adjectivo “open source”, a Open Source Iniative (OSI) nunca a aprovou…
O código-fonte pode ser fechado posteriormente, mesmo com a GPL. Só que, aí, outros programadores podem usar o código-fonte da versão anterior à do fechamento para desenvolver uma bifurcação (fork) livre.
A GPL não é a única licença a permitir isso. Quando o XFree86 sinalizou com rumos supostamente menos livres, foi desenvolvida uma bifurcação de seu código-fonte, gerando o X.org.