O remix entre a arte do excesso e a arte do pobre Publicado 29 Ago 07
Não é propriamente sobre música mas interessa a todos aqueles que se preocupam com a cultura livre, o copyleft e a defesa do commons esta entrevista a Rick Prelinger ao Musica Radiklal Brasca que eu encontrei via mediateletipos.
Prelinger é um escritor, cineasta e arquivista que criou os famosos Prelinger Archives, uma colecção de mais de 60 mil filmes de carácter amador, promocional, educativo e industrial realizados entre 1927 e 1987 na sua maioria nos Estados Unidos, no sentido de preservar e disponibilizar o acesso a este tipo de obras em risco de desaparecimento. Cerca de duas mil dessas curta-metragens encontram-se disponíveis sob domínio público no Internet Archive, o que quer dizer que toda a gente as pode reutilizar livremente. Alguns excertos da entrevista:
Quando uma imagem ou um som estão em todos os lados, o seu valor aumenta e, ainda que o dinheiro não mude de mãos, o seu valor cultural é de primeira ordem. O princípio da ubiquidade é para mim equivalente ao de valor.
(…)
Admiro Lawrence Lessig mas, no fim de contas, as CC (Creative Commons) não deixam de ser um projecto reformista que visa melhorar o funcionamento do copyright. Devemos situar a cultura mais além da propriedade intelectual; não centrá-la na noção de dinheiro mas de dádiva, respeito e intercâmbio. Pensar como a cultura é distribuída é o primeiro passo para pensar como a propriedade é distribuída. Neste sentido, trabalhar no âmbito da cultura pode ser subversivo e fazer muito sentido.
(…)
Tenho muitas reticências em relação à lei do copyright. Porque, obviamente, o copyright nasceu como uma forma de censura. Em Inglaterra, graças ao copyright o rei podia controlar todas as publicações subversivas, tal como fez a Igreja. Deste modo, o copyright foi protegendo os monopólios e crescendo ao mesmo ritmo que o capitalismo. Os artistas, escritores, professores e o público em geral nunca puderam decidir que tipo de copyright gostariam de ter.
(…)
O “domínio público” é um espaço utópico, um espaço onde a experimentação infinita é possível e onde não existe o conceito de propriedade (…) Um lugar que pertence a todo o mundo, onde as obras podem ser fisicamente preservadas e disponibilizadas a todos (…) Creio que é muito importante que o artista deixe de pensar na lei (…) Os artistas não devem pensar no polícia que têm em si, mas em fazer o seu trabalho. Se queremos conquistar novos territórios, se queremos ampliar o espaço disponível, não podemos pensar em pedir permissão. Temos simplesmente que fazer as coisas. O mundo da arte apoiou-se sempre na reutilização do trabalho de outros artistas. E com isto não me refiro ao top-manta (vendedor ambulante), aquele que vende DVDs pirateados em frente ao Corte Inglés. Não temos que deixar que o nosso espaço seja contaminado com estas ideias, porque isso não tem nada a ver com a arte. Todos sabemos que o copyright faz muito pouco para proteger os autores. Hoje em dia o copyright protege certos modelos de negócio, mas mesmo estes modelos são antiquados.
(…)
Em muitos casos, a arte existe porque não ofende nem incomoda ninguém. As instituições culturais mantêm-se em funcionamento quando são inócuas e não ameaçam o status quo. Quando o fazem, deixa-se de as financiar. Muito do que fazemos sobrevive porque não ofende ninguém. Seria interessante ver o que aconteceria se houvesse mais activismo cultural (…) Gostaria de ver se o remix sobreviveria em períodos de ameaças ecológicas ou escassez massiva. Por outras palavras: será o remix a arte do excesso porque temos muitos restos? Ou é de facto a Arte do Pobre? Eu creio que é as duas coisas. Temos que pagar muito mais dinheiro por camisolas com buracos!
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O colectivo mediateletipos é muito bom!
Comentário de Jorge Vieira em 30 Ago 07 09:01.