O fracasso do Tribler: BitTorrent não combina com “social”

by Miguel Caetano on Setembro 3, 2007

Logotipo do TriblerHoje decidi experimentar o Tribler. Provavelmente já ouviram falar nesta aplicação P2P que tem vindo a agitar as águas da blogosfera nos últimos dias. O Tribler consiste num software-cliente para BitTorrent de origem holandesa que partiu de um projecto de investigação da Universidade Técnica de Delft e da Universidade Vrije de Amesterdão. O projecto integra um programa de investigação financiado pelo governo holandês designado I-Share.

E o que tem o Tribler de tão especial para merecer tanta atenção? Bem, essencialmente trata-se de (mais) um programa para partilhar ficheiros, em especial vídeos, através de torrents, disponível para Windows, Mac e Linux segundo uma licença livre GNU LGPL e baseado no cliente ABC. Para além disso incorpora uma série de funcionalidades adicionais. Uma delas é a possibilidade de descobrir vídeos no YouTube e visualizá-los no leitor integrado. Mas isso já o Miro (ex-Democracy Player) faz, com a vantagem de permitir copiar os ficheiros para o nosso PC.

Mas a equipa responsável também anuncia uma qualidade de imagem HDTV – equivalente à televisão de alta definição – e suporte para Video On Demand. Contudo, na verdade essas características já estão disponíveis desde há algum tempo noutros clientes BitTorrent como o Vuze da Azureus (ex-Zudeo), já para não falar noutros programas de P2P como o Joost.

O que o Tribler traz de novo

Uma das coisas que o Tribler traz realmente de novo é uma faceta “social” que inclui a possibilidade de criar comunidades de amigos e um sistema de recomendações personalizadas semelhante ao da Last.fm que uma vez efectuados alguns downloads sugere vídeos que nos possam eventualmente interessar com base na lista de ficheiros da nossa biblioteca, através do recurso a um algoritmo de filtragem colaborativa. É suposto que a qualidade das recomendações bem como o número de ficheiros e utilizadores encontrados aumentem quanto mais tempo o utilizador estiver ligado à rede.

Esta faceta “social” coloca desde logo um grande problema: de modo a sugerir ficheiros novos, o Tribler tem que monitorizar o histórico de downloads do utilizador, o que quer dizer que todos os outros utilizadores poderão ver quais os filmes que descarregámos. Ora, como toda a gente sabe, a esmagadora maioria dos conteúdos que circulam na rede BitTorrent são ilegais, o que já motivou a instauração de vários processos a utilizadores e administradores de trackers por parte da indústria cinematográfica. Ainda que esta funcionalidade possa ser desactivada nas preferências, serão poucos os que cederão de bom grado a sua privacidade em troca de mais um mecanismo de recomendação social sabendo que do outro lado poderá estar um funcionário ao serviço da MPAA.

Embora o Tribler tenha sido criado para fomentar a partilha e descoberta de “conteúdos gerados pelo utilizador” – o que explica o interesse de várias estações europeias de televisão em relação ao programa, em especial a emissora pública da Holanda que já começou a testá-lo em serviços de Video On Demand – o que é facto é que quem utiliza actualmente aplicações BitTorrent apenas o faz para aceder a material protegido por direitos de autor.

Interface do Tribler

Aliás, isso fica bem demonstrado quando depois de instalarmos o programa e o executarmos pela primeira vez ele entrega-nos uma série de vídeos pornográficos ou de cópias de êxitos do momento como The Simpsons – O Filme, Transformers e Piratas das Caraíbas 2, como podem ver pela imagem em cima.
Como não queria ser apanhado desprevenido, decidi experimentar o Tribler para descarregar a versão com legendas em português do Brasil do documentário Good Copy, Bad Copy sobre copyright e cultura livre, um dos raros filmes que pode ser legalmente transferido de redes P2P. É claro que para encontrar o torrent tive que ir ao Pirate Bay, pois a pesquisa do programa só me apresentou vídeos do YouTube – alguns extraídos do filme, outros completamente despropositados.

Outro ponto fraco do programa é que apenas podemos escolher o local onde queremos guardar os ficheiros e quais os ficheiros que queremos descarregar depois de iniciado o download, nas “opções avançadas”. O interface em si também peca por uma falta de gosto extrema. Mas o que eu menos gostei foi a dificuldade em saber o que estava a acontecer em cada momento. Para obter mais informação sobre o download tive que pesquisar pelo nome do ficheiro e em seguida clicar no botão da Library. Parece-me que os programadores, ao quererem simplificar ao máximo o processo, apenas conseguiram tornar o interface mais confuso.

Pesquisa no Tribler

Downloads mais rápidos para quem partilhar mais

A versão anterior à mais recente da aplicação já incorporava uma funcionalidade destinada a aumentar a velocidade mediante a cooperação com os restantes membros do nosso grupo social, o Download Booster. Mas com o lançamento do Tribler 4.1 no final do mês passado e a integração de alguns investigadores da Universidade de Harvard (Massachusetts, EUA) na equipa de desenvolvimento, o software passou a contar com um sistema que utiliza a largura de banda como “moeda de troca” para incentivar os utilizadores a continuarem a fazer upload do ficheiro depois do receberem por inteiro e impedir que o ficheiro fique indisponível.

Basicamente, isso faz com que aqueles que contribuem com mais uploads tenham direito a fazer downloads mais rápidos, condenando todos os outros egoístas ou os simples desafortunados com velocidades de upload muito baixas – a grande maioria dos utilizadores, graças às ligações assimétricas dos ISPs que privilegiam os downloads -a um tempo de espera muito maior.

Este sistema consiste numa melhoria dos algoritmos tit-for-tat (dente por dente, olho por olho) do protocolo original BitTorrent mediante o recurso àquilo a que os investigadores designam de algoritmo give-to-get (dar para receber) num artigo académico (via Torrent Freak). O mecanismo é semelhante ao aplicado na maior parte dos trackers privados de BitTorrent que obrigam o utilizador a cumprir um rácio positivo – a quantidade de uploads tem que ser igual à de downloads – de modo a poder continuar a descarregar. Da mesma forma, também a rede eMule já funciona em moldes semelhantes, embora ofereça velocidades piores.

A grande diferença é que os investigadores prometem uma infra-estrutura totalmente descentralizada, em que são os pares que velam pelo cumprimento do rácio e não um servidor central. Para incentivar a dádiva, existe um ranking que identifica os 10 utilizadores que contribuíram com mais Gigabytes.

Como eu já dei a entender lá atrás, não obstante os seus benefícios aparentes, o grande inconveniente deste sistema é a criação de uma desigualdade e uma divisão maior entre duas classes de utilizadores: aqueles que usufruem de uma ligação rápida com uma boa velocidade de upload e os pobres coitados que não dispõem de tanta largura de banda. O protocolo BitTorrent foi concebido justamente para contornar as injustiças da economia de mercado e garantir a reciprocidade sem o mínimo de intervenção. Quanto mais se tenta incorporar metáforas oriundas da imaginário capitalista como a de “moeda” no P2P, mais se contribui para desvirtuar o verdadeiro espírito da partilha livre.

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