O YouTube e a ascenção dos falsos amadores Publicado 10 Set 07
Não há coisa que faça aumentar mais o ego de um fã de música indie-alternativa-cool do que a sensação de fazerem parte de um restrito clube de pessoas que acreditam sinceramente terem descoberto um novo artista ou banda completamente genuíno e de preferência sem que tenha ainda assinado um contrato com uma grande companhia discográfica. O buzz em volta do nome tende a crescer em proporções cada vez maiores à medida que a informação è divulgada “boca-a-boca”. Pelo contrário, se se der a entender que existe por detrás uma campanha de marketing cuidadosamente planeada por alguma empresa, o efeito tende a ser menos duradouro.
Hoje em dia a lenda do artista-amador que se torna grande deslocou-se para o cenário “democrático” e “participativo” do MySpace e do YouTube, onde milhares de melómanos procuram incessantemente pela next-big-thing da música na era da Web 2.0, alguém com um estilo mais autêntico e natural e que ainda não foi conspurcado pela máquina tradicional de produção de vedetas da indústria de entretenimento.
Apercebendo-se disso, as etiquetas começaram a querer explorar a ingenuidade dos fãs em proveito próprio no intuito de lançar novas “estrelas” via YouTube. É o caso de Marié Digby, uma cantora de 24 anos de ascendência nipónica e irlandesa que começou a fazer furor nos últimos meses graças aos vídeos de versões de êxitos Pop que publicou no site. O que Digby ocultou foi que ela já tinha assinado um contrato com a Hollywood Records do grupo da Disney em 2005.
Quem descobriu a marosca toda foi o Wall Street Journal. De acordo com o jornal, a etiqueta aconselhou Digby a publicar vídeos com aspecto amador/doméstico no YouTube de modo a melhor promover o seu primeiro álbum de originais na Internet. A estratégia passou por lançar clips de versões de outras canções populares de Nelly Furtado e Natallie Imbruglia. Este truque é frequentemente utilizado no YouTube por jovens artistas de modo a que os seus vídeos apareçam melhor posicionados nos resultados.
E a fórmula resultou, pois até hoje os seus vídeos foram visualizados mais de 2,3 milhões de vezes. A partir daí, o tapete vermelho para o estrelato estava lançado, com inúmeras participações em talk-shows televisivos e entrevistas na rádio. Em todas elas, Digby “esqueceu-se” de referir o seu contrato com a Disney. Do mesmo modo, a cantora apresentava-se nas suas páginas no YouTube e no MySpace como se não possuísse qualquer ligação a uma companhia discográfica, só alterando para major quando o WSJ entrou em contacto com ela.
Esta história que faz lembrar outra fraude de marketing viral na YouTube, a da LonelyGirl15 que no Verão do ano passado nos enganou a todos ao fazer-nos acreditar de que se tratava da vida real de uma adolescente normal de 16 anos - na verdade não passava de uma personagem de ficção interpretada por uma actriz de 19 anos.
Mas será que no caso de Digby foi tudo inventado e não há ali nada de genuíno? Leiam a defesa da cantora no seu blog no MySpace:
I think today will be the first ever blog that I write … as i’m furious. fuming. angry beyond words.
Thank god for blogs because I can say whatever the F.. i want to .
So basically, I got a call recently that some shmuck from the Wall Street Journal wanted to do an article about me. He interviewed some people at my label and then asked to talk to me on the phone. I talked to this guy for an hour, told him every detail of my journey so far in music…
Here’s Lesson 1 for me in Media - The writer will use whatever quote he wants of yours to make it fit his ‘angle’. This loser was desperate for a good story… he knew what he wanted to write before he ever even talked to me.
The guy’s angle is this : that I am a complete phony and fake and a pawn of my record label in some brilliant marketing scheme.
(…)
What hurts the most is that this loser took every genuine thing i said and made it sound like I am acting, that this whole thing is scripted. The dude is desperate to be onto the next ‘ lonely girl’ or whatever.. i’ve actually never seeen that but its obvious that’s what he wanted me to be.
Nos comentários, a opinião parece ser unânime: não importa tanto quando e como Digby assinou um contrato com a Hollywood mas sim a qualidade e a beleza da sua voz. No fim de contas, talvez a cantora se situe de facto algures entre o grassroots e o astroturfing, para utilizar as palavras de Jonathan Coulton, esse sim, um verdadeiro músico “auto-publicado” que ganhou fama graças aos seus vídeos no YouTube. Leiam também as opiniões de Bob Lefsetz (bastante crítica, por sinal) e de Lucas Gonze (este num tom mais optimista).
Artigos relacionados:
- Poderão as aplicações para o iPhone tornar-se nas novas páginas do MySpace?
- Tori Amos poderá ser a próxima superestrela a seguir o caminho da autopublicação
- Universal Music quer criar um site de vídeos para concorrer com o YouTube
- Vídeos do concerto dos Led Zeppelin desaparecem do YouTube devido a erro de anti-”piratas”
- Novo site de vídeos de música da MTV não traz nada de novo






