Co-autor do livro The Future Of Music (“O Futuro da Música”) juntamente com David Kusek, Gerd Leonhard auto-intitula-se de futurólogo, sendo também um dos responsáveis pela Sonific, uma empresa que desenvolve widgets que permitem promover, comprar e comercializar músicas em redes sociais e blogs.
Conhecido por ser um dos mais acérrimos defensores da livre distribuição da música através de um modelo baseado em serviços de subscrição mensal de downloads ilimitados em troca de uma quantia mínima, Leonhard decidiu agora lançar o seu novo livro The End Of Control (“O Fim do Controlo”) em moldes bastantes semelhantes aos que advoga para o sector da música.
Semanalmente ele irá lançar um capítulo completamente editado e finalizado na Internet segundo uma licença Creative Commons BY-NC-SA 3.0, de modo a que qualquer pessoa possa redistribuí-lo e modificá-lo como quiser, podendo até inclusivamente traduzi-lo. Cada capítulo pode ser recebido via RSS e inclui ainda uma versão áudio em podcast lida pelo próprio Leonhard. Eventualmente sairá também um livro em formato de papel, mas só depois de publicados todos os capítulos. Do comunicado oficial:
O Fim do Controlo aborda a questão mais importante que está subjacente a muitos dos debates sobre o futuro dos media: quem controla o quê, porquê, quando e onde, e como é que o conteúdo digital poderá continuar a gerar receitas quando a maioria das formas tradicionais de controlar o seu fluxo (isto é, a distribuição) deixaram de estar disponíveis. No livro eu defendo que no futuro o controlo da distribuição será substituído com a obtenção e manutenção da atenção; que no futuro dos media a fricção é ficção; e que as “pessoas anteriormente designadas por consumidores” vão passar a controlar o jogo.
Esta tranformação radical, explica Leonhard, irá exigir que os fornecedores de media mudem de uma abordagem de empurrão (“push”) para outra de tracção (“pull”). Ao avançar com formas de monetizar o conteúdo digital no futuro, ele revela o novo e arrojado paradigma que tem pendido em frente dos nossos narizes desde o surgimento do navegador da Web: Ao abandonarmos a nossa obsessão com o controlo, iremos receber em troca novas fontes de receita e vastas oportunidades de crescimento
Mas será que existe alguma consistência por detrás deste discurso de vendedor de sonhos ou trata-se apenas da vulgar e corriqueira “banha da cobra” tão característica em outros futurólogos de má fama (Nicholas Negroponte, George Gilder, etc.)? Há quem seja dessa opinião. É o caso de Andrew Dubber que no seu New Music Strategies desanca no determinismo tecnológico de Leonhard.
Falando em termos gerais, penso que a distribuição tornou-se problemática para as pessoas que costumavam ganhar dinheiro com a cobrança pelo acesso a conteúdos de media. Não penso que isto signifique que o futuro irá obrigar que todos disponibilizem gratuitamente o acesso a todas as pessoas em todas as ocasiões.
Isto é o pior tipo de determinismo tecnológico: a ideia que as mudanças na tecnologia dos media FAZ as coisas acontecer. As novas tecnologias criam de facto novos ambientes dentro dos quais diferentes rácios de efeitos são possíveis – mesmo incentivados. Mas as transformações nos media são sempre socialmente negociadas. Não é a internet que decide o que acontece, mas sim as pessoas. E as pessoas são imprevisíveis.
(…)
Leonhard parece ter sido totalmente engolido pela ideia das “pessoas anteriormente designadas por consumidores” – ou, como ele as define,’usadores’ (arrepio), uma combinação das palavras ‘utilizador’ com ‘criador’. É uma ficção que está relativamente na moda e de algum modo totalizadora que se baseia num pensamento profundamente preguiçoso.
Eu, que até tenho uma visão relativamente optimista do impacto da tecnológica na forma como as pessoas consomem e produzem media e cultura, sou também da opinião que Leonhard exagera por vezes na sua visão cor de rosa das alterações. É certo que as mudanças se têm sucedido a uma velocidade espantosa mas por isso mesmo é que é mais importante compreender o que se está a passar e tentar analisar o que se poderá passar a partir da evolução histórica, a partir de contextos concretos. E isso é uma tarefa um bocado complicada para quem, quer queira, quer não, se apresenta como “futurólogo”. No fundo, trata-se de vender ilusões e não de identificar e responder aos problemas que se colocam hoje em dia ao acesso e produção da cultura, com todas as partes em conflito que puxam a corda num sentido ou no outro. O futuro não é unidireccional nem se prognostica. Constrói-se colectivamente todos os dias.
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