
Desde que os Radiohead anunciaram o lançamento do seu novo álbum In Rainbows, em que os fãs escolhem o preço que pretendem pagar pelo download da versão digital, que a blogosfera musical entrou em polvorosa. Não se fala noutra coisa, o que só é bom para eles porque vão acabar por ganhar em vendas de bilhetes adicionais aquilo que eventualmente irão perder com a “brincadeira”.
Embora a ideia não seja propriamente original, diga-se em abono da verdade. No rescaldo do abalão, Chris Anderson pede no Long Tail aos seus leitores que adivinhem o preço médio final que os fãs estarão dispostos a pagar pelo download do disco. Os leitores do New Musical Express, conhecido por ser umas das publicações especializadas com um público mais fiel aos Radiohead, disseram que irão pagar em média cerca de cinco libras pelo álbum, embora muitos tenham acrescentado que irão desembolsar as 40 libras (57 euros) que a banda está a pedir pelo pacote de luxo CD+Vinil que irá sair em Dezembro. Steven D. Levitt do Freakonomics, por seu lado, já se ofereceu para ajudar a banda a analisar os dados desta “experiência” e diz mesmo que tem algumas ideias que lhes poderão ser muito úteis.
Segundo dados avançados pelo próprio porta-voz da banda Murray Chalmers ao The Independent, a maior parte dos fãs têm optado por indicar um montante semelhante ao preço normal de venda de um CD – é mesmo?
. Chalmers acrescenta que o afluxo de tráfego gerado pelo anúncio foi tão avassalador que fez com que o site tenha ficado inacessível durante algumas horas.
Quem não deve ter ficado lá muito satisfeito com a jogada foram os jornalistas/críticos de música e os fanáticos do Oink – um tracker privado de BitTorrent a que chegam em primeira mão muitas das “fugas” de novos discos que ainda não chegaram às lojas. Isto porque a Nasty Little Man, a empresa de relações públicas dos Radiohead, mandou dizer a todo o mundo via Idolator que nnguém terá acesso a quaisquer cópias promocionais, pré-lançamentos ou outros brindes antes da data de lançamento oficial marcada para 10 de Outubro (os mais impacientes poderão satisfazer a sua dependência com estes vídeos de versões ao vivo das faixas disponíveis no YouTube)
Como seria previsível, o exemplo dos Radiohead serviu já para inspirar outros músicos indie interessados em conceber modelos de negócio alternativos. É o caso de Bob Mould, ex-vocalista dos norte-americanos Husker Du e Sugar, que lançou no seu blog um inquérito aos fãs no sentido de determinar a viabilidade de algumas modalidades de preços variáveis. O que é estranho é que embora Mould esteja a pedir balúrdios por um álbum em formato digital – 10 a 20 dólares, o preço normal de um CD físico -, e por uma subscrição anual de todos os seus lançamentos, bem como conteúdos online exclusivos – 20 a 40 dólares -, há mesmo muita gente disposta a dar os valores que ele pede. Até ao momento estão registados 394 votos, sendo que em primeiro lugar com 39 por cento está o modelo da subscrição anual no valor de 40 dólares.
Pessoalmente e mesmo se a paixão pela música nunca pode ser avaliada em termos estritamente económicos – logo racionais -, não me parece que isto acabe por ser um negócio muito cativante para lá de um pequeno círculo de admiradores incondicionais. Os Radiohead perceberam que a música digital não tem valor como artefacto, pela sua própria natureza efémera e intangível e que a mais valia está num bem analógico e tangível, justamente porque, ao contrário do digital, o analógico é difícil de replicar.
Os Charlatans, aquela banda que ficou famosa no início dos anos 90 por “imitar” os Stone Roses, também já perceberam essa lição e vão disponibilizar gratuitamente no seu site e no da rádio britânica Xfm já no próximo dia 22 de Outubro o single “You Cross My Path”. Mas isto é só para abrir o apetite pois no início de 2008 irão oferecer de borla o seu novo álbum, ainda sem título. Como explicou o empresário da banda Alan McGee – o fundador da mítica label independente Creation -, a banda irá ganhar dinheiro ao atrair mais pessoas aos concertos e através da venda de camisolas e da concessão de direitos de licenciamento. McGee não tem dúvidas: “Acredito que é o modelo de negócio do futuro.”
Outra banda indie que seguiu os passos de Prince foi os Travis que ofereceu de graça o seu novo single com uma edição do jornal britânico Mail On Sunday do final do mês passado. Os Deerhoof foram ainda mais longe e estão a disponibilizar no seu site um álbum completo em formato MP3 com 13 faixas, entre gravações ao vivo, remisturas e versões de outras bandas. Por este andar, é provável que dentro de um ano uma boa parte dos maiores nomes do Rock e Pop independente tenham já aderido à moda do livre…
Nota: A imagem de Bob Mould que acompanha este post está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e foi tirada por St. Murse. A foto dos Charlatans está disponível aqui segundo uma licença CC-BY 2.0 e foi tirada por Ventura Mendoza.
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