Partilha de ficheiros faz aumentar “cauda longa” do negócio da música Publicado 3 Out 07
Para além da mais que falada descida das vendas de CDs e da crise da indústria discográfica mas também do crescimento de todos os sectores ligados à actividade musical, como os concertos e produtos promocionais, desconfiava-se desde há muito que a partilha de ficheiros tinha afectado de algum modo as tendências das tabelas dos discos mais vendidos. Só não se sabia era qual o grau dessas mudanças e em que sentido.
Agora uma equipa de cinco investigadores da área de Gestão em universidades norte-americanas publicou um estudo intitulado “O Efeito das Tecnologias Digitais de Partilha nos Mercados de Música: Uma Análise do Tempo de Permanência dos Álbuns nas Tabelas de Vendas” que apresenta dados empíricos concretos baseados numa análise do desempenho dos álbuns na lista do Top 100 da Billboard - o indicador-padrão empregue pela indústria discográfica norte-americana para medir as vendas de música - e do cálculo dos downloads diários desses discos no P2P, refere a Ars Technica. É esta pequena minoria dos mais de 30 mil títulos lançados anualmente nos EUA que representa a “fatia de leão dos lucros” das discográficas.
Em concreto, os investigadores começaram numa primeira fase por calcular o grau de “sobrevivência”, isto é, o número de semanas em que esses álbuns permaneceram no Top dos 100 mais vendidos tendo por base os dados relativos a uma selecção de 200 semanas de informação relativas ao período entre 1995 e 2004. Depois eles dividiram esse período em três segmentos de tempo, tendo como referência o intervalo de tempo entre meados de 1998 e meados de 2000, que correspondeu à generalização do formato MP3, do Napster original e da aprovação da draconiana lei DMCA.
O objectivo foi tentar registar o que mudou antes e depois, tendo também em conta que 2001, o primeiro ano a esse período, foi o primeiro em que se registou uma descida das vendas. Os investigadores utilizaram como variáveis a posição de entrada do álbum na tabela, a reputação do artista - se era ou não já uma “superestrela” -, a ligação a uma das quatro majors, e a condição do artista (cantor/cantora a solo/grupo).
Numa segunda fase, tentaram isolar os efeitos da partilha de ficheiros no sucesso nas tabelas de vendas. Para tal recolheram dados do WinMX, uma rede de P2P bastante popular a seguir ao fim do Napster original, relativos a 34 semanas, tendo comparado o período antes e depois a Junho de 2003, quando a RIAA anunciou as primeiras intimações contra utilizadores individuais de modo a determinar o impacto desse anúncio no grau de intensidade da partilha de ficheiros.
As conclusões a que chegaram revela que a partilha sofreu uma forte descida (cerca de 80%) após o anúncio da RIAA e que o P2P parece ter contribuído para um maior desgaste ou erosão do tempo de permanência dos títulos nas tabelas de vendas, sendo bastante mais prejudicial para os álbuns mais mal posicionados - no entanto, os líderes parecem não ter sido em nada afectados. Em geral, o tempo médio de sobrevivência desceu 42 por cento, embora as superestrelas continuam a permanecer em média mais 35 por cento do tempo nas tabelas de vendas.
Estes números confirmam aquilo que há muito se suspeitava: O P2P contribui para um aumento do “défice de atenção” dos apreciadores de música, completamente bombardeados que são com novas ofertas. Isto contribui para que as vedetas com maior tempo de exposição nos media obtenham um maior avanço em relação aos artistas não tão populares.
Mas nem tudo são más notícias. Com efeito, se em termos individuais os artistas menos conhecidos acabam por sair mais prejudicados, globalmente as labels independentes tendem a sobreviver mais tempo nas tabelas de vendas do que anteriormente, diminuindo a distância que as separava das majors. Isto é mais uma prova de que o P2P contribui para a diversidade cultural. Segundo este estudo, gera-se assim um efeito semelhante de “cauda longa”, não tanto nos artistas individuais - ao contrário do que outros estudos indicam - mas no negócio da gravação de discos. Não admira por isso que as majors façam tanta questão em combater a partilha de ficheiros.
Embora tenha sido escrito em Junho de 2005, o estudo só foi publicado agora no número de Setembro da revista Management Science. Como os não-assinantes apenas têm acesso ao resumo, deixo aqui a ligação para o PDF da versão não editada. Vale a pena ler pois apesar de estar recheado de fórmulas matemáticas lá pelo meio o texto pode ser entendido por qualquer leigo.
Artigos relacionados:
- “Pares, Piratas e Persuasão”
- As 25 personalidades mais influentes da música online
- P2P: o ano de 2006 em análise
- Outro festival de netlabels - desta vez em Zurique
- Web 3.0: utilizadores de todo o mundo, uni-vos!






