Patrão da Universal Music confessa sofrer de iliteracia digital

by Miguel Caetano on Novembro 27, 2007

Não é normal que um avozinho de 68 anos com cara de poucos amigos seja um perito em novas tecnologias. O problema é que este avozinho é “apenas” o director executivo da Universal Music, a maior editora discográfica do mundo – com uma quota de mercado de 25,5 por cento da indústria do disco -, aquela que perseguiu e intimidou milhares de fãs de música através dos seus braços armados chamados RIAA e IFPI.

Mais grave ainda é que o desconhecimento de Doug Morris do mundo digital não foi suficiente para que o CEO da Universal rotulasse peremptoriamente os leitores de MP3 de “repositórios de música roubada”. Isso não impediu, no entanto, que anos mais tarde e num volte-face surpreendente o nosso avozinho tenha decidido cobrar uma taxa sobre as vendas do Zune à Microsoft em troca do licenciamento do seu catálogo. Mas tudo faz sentido se tivermos em conta que nessa altura o sistema iTunes+iPod da Apple já estava a colocar a Universal numa perigosa situação de dependência.

Outro episódio trágico que revela bem a incompetência de Morris é a relação esquizofrénica da sua companhia com o YouTube e o MySpace. Primeiro, acusou-os de serem violadores de copyright e processou-os. Depois acabou por negociar com a YouTube e espera-se que venha a fazer o mesmo com o MySpace. Mais recentemente e depois de anos a tentar proteger as músicas do seu catálogo disponibilizadas em lojas online lá acabou por iniciar uma tímida “experiência” de venda online de músicas sem DRM.

A bem da verdade é preciso reconhecer que ninguém fazia sequer ideia de que o sector da música se iria deslocar em poucos anos para a Internet e outros suportes digitais quando Douglas Morris assumiu o comando da Universal Music em 1995. Mas e em 1999, no ano zero da era pós-Napster? A resposta de Morris é típica de um pragmatismo corporativo um pouco confrangedor, como se pode ler num artigo da edição de Dezembro da revista Wired:

Existe a falsa noção entre os jornalistas de que a indústria discográfica não deu conta do que se estava a passar. Não foi isso que se passou. As editoras apenas não sabiam o que fazer. É como se de repente lhe pedissem para operar o seu cão de modo a remover-lhe o rim. O que é que você fazia?

Não só Morris dá a entender que não havia nenhum “veterinário” entre as suas tropas, como pior ainda:

Nós não sabíamos quem é que havíamos de contratar (…) Eu não era capaz de reconhecer um bom profissional de tecnologias de informação – qualquer pessoa com uma boa conversa da treta teria me enganado.

De facto, quando um avozinho com cara de “Padrinho” de Nova Iorque chega a este grau de honestidade, isto é sinal de que o negócio que ele lidera se encontra em muito mau estado. Mas talvez a honestidade não seja a melhor política nesta altura do campeonato, para responder à pergunta colocada por Bob Lefsetz. Ou por outra, talvez a honestidade já não sirva para grande coisa numa altura em que o rei vai nú já há vários anos. Agora é só uma questão deste império em decadência ruir de vez…

Nota: a imagem que acompanha este post está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e foi tirada por deepsignal.

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