Sobre a falta de ética nos blogs de música

by Miguel Caetano on Novembro 29, 2007

Tal como em todos os nichos da Internet, nos blogs de música tanto podemos encontrar bloggers mal comportados e bloggers bem comportados. Os blogs de MP3, aqueles que se limitam a publicar duas a três faixas indicando ao lado alguns links para quem gostar do que ouviu e quiser comprar o CD ou a versão digital do disco, são relativamente “inócuos” e como tal tolerados tanto pelos artistas como pelas editoras. Algumas das bandas chegam por vezes até a distribuir temas originais ainda indisponíveis comercialmente aos mais reputados. Os problemas apenas surgem quando o blogger decide publicar essa “fuga” sem a autorização dos detentores de direitos.

Outros blogs há que são mais mal encarados pela indústria. É o caso dos blogs de RARs que disponibilizam links para álbuns completos normalmente alojados em serviços de “um só clique” como o Rapidshare e o Megaupload. Mesmo assim, a maioria dos seus autores segue o mesmo código de etiqueta dos blogs de MP3 mediante a publicação de links para o CD ou download legal e um aviso esclarecendo os utilizadores de que os ficheiros estão apenas acessíveis nas 24 horas seguintes à sua publicação. Outra regra de conduta habitual é que o autor se compromete a remover automaticamente o link assim que o artista, a banda ou um seu representante o solicite.

Em Portugal, um dos mais populares no sector da música independente electrónica e alternativa é o Bolachas Grátis, que conta com várias actualizações diárias. Outro com gostos mais eclécticos é o MP3 Maníaco. Especializado em música portuguesa na área do metal underground existe o Portugal Underground. Para quem gosta de música brasileira, existem dezenas deles. O mais conhecido é o Brazilian Nuggets, dedicado às “pérolas” do rock/pop do final dos anos 60 e início dos 70. Todos estes blogs prestam um autêntico serviço público de difusão da cultura, não obstante funcionarem no âmbito de uma “nuvem” legal bastante espessa…

Mas há alguns blogs que vão mesmo longe de mais. É o caso de um blogger que decidiu disponibilizar um link para uma versão bootleg – gravação não autorizada – de um concerto de Robert Fripp e da sua League of Crafty Guitarists. Mas ao contrário de outros como os míticos Grateful Dead, o ex-elemento dos King Crimson é um daqueles artistas que se opõe desde há muito à gravação das suas actuações ao vivo pelos fãs.

Fripp ficou irritado porque o autor do Astronation of The United Worlds decidiu publicar a gravação juntamente com fotografias à revelia das suas regras, ainda mais porque a gravação parece incluir um aviso do próprio músico relativo à proibição de fotografias e gravações:

Quem faz bootlegging não está a apoiar o nosso trabalho. O bootlegging do Sr. Blogger, neste contexto específico, é um roubo.

(…)

O Sr. Blogger quer fazer passar-se como um fornecedor de música ou um apoiante da música e de alguns músicos em particular que não pretende lucrar comercialmente com isto. Isto é uma mentira. Ele não tem autoridade para oferecer o nosso trabalho. Ele atrai atenção para si próprio, não do e pelo seu trabalho e esforços mas através do roubo e da exploração do trabalho de outros, não apenas sem autorização mas também com conhecimento da sua desaprovação. O Sr. Blogger está a usar o nosso trabalho como moeda de troca num esquema de partilha e conquista de atenção, que é um comércio de outra espécie. Ele é um exemplo de desonestidade disfarçada com roupas finas e apresenta-se a si próprio como se estivesse à espera da aprovação do público.

O protesto ganha algum sentido se tivermos em conta que o link publicado nos conduz a um tracker privado de BitTorrent. Neste caso, a moeda de troca é o rácio, esse bem tão precioso nos sites de torrents com acesso restrito. Ainda para mais, como David Jennings refere no Net, Blogs and Rock’N'Roll, a nota final deixado pelo blogger para que os seus leitores comprem os discos de Fripp soa bastante a hipocrisia quando os endereços que ele indica não contêm os links – já talvez com o receio de suscitar a atenção e a consequente fúria natural do visado…

Seja como for, ao responder publicamente no seu blog à atitude provocatória deste admirador “narcisista” Fripp apenas contribui para despertar a atenção das pessoas pelo bootleg – muito embora o artista não tenha incluído qualquer elemento concreto que pudesse conduzir ao blog em questão. Teria sido talvez melhor e mais eficaz se Fripp tivesse entrado em contacto com os admnistradores do tracker privado de modo a banirem o utilizador…

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