
A flexibilidade e facilidade de gravação de música que as ferramentas online oferecem não pára de aumentar. Isto são boas notícias acima de tudo para os músicos que enveredam pelo caminho da autopublicação em lugar de assinarem um contrato de longa duração com uma companhia discográfica que os coloca sob a dependência desta sem terem a mínima garantia de que acabarão por ser justamente recompensados pelas vendas dos seus discos.
Recentemente fiquei a conhecer o Songcooker, um serviço de pós-produção colaborativa online criado pela empresa francesa MIST Technologies que apesar de poder fazer torcer o nariz dos engenheiros de som, DJs e técnicos de estúdio mais exigentes – para esses a companhia tem uma solução profissional – poderá, em compensação, fazer as delícias de todos aqueles sem ambições profissionais que apenas se querem divertir desconstruindo e remisturando as suas músicas favoritas.
Através do Songcooker, o utilzador pode separar os diferentes instrumentos de qualquer canção – mesmo aqueles gravadas em mono. Deste modo pode-se isolar cada pista individual de um instrumento, quer este seja um piano, baixo, guitarra ou bateria. Em alguns casos pode-se também separar a voz do cantor. Outras opções consistem em aumentar ou diminuir o volume de cada pista, mover as pistas para outras posições ao longo da música e misturá-las como quisermos.
A tecnologia Unmixing da MIST foi desenvolvida em 2004, tendo recentemente sido utilizada no filme La Vie en Rose que conta a história de Piaf para produzir versões com uma qualidade adequada às salas de cinema de dez canções da cantora francesa. Os responsáveis da empresa decidiram adaptar a sua solução profissional às exigências mais básicas do grande público, nomeadamente, a simplicidade e facilidade de utilização. A grande mais valia do serviço é que ele irá permitir não só modificar as “receitas” previamente elaboradas pelos técnicos da MIT como também as preparadas pelos outros remisturadores.
Por enquanto as músicas disponibilizadas pelo Songcooker consistem apenas numa selecção de faixas antiga gravadas até 1956 e que por isso já se encontram disponíveis no domínio público. Isto porque na França os direitos conexos relativos aos produtores de fonogramas e artistas duram 50 anos. Desta forma, a MIST evita potenciais problemas legais com as editoras e os músicos. Quanto aos direitos de autor, relativos aos autores-compositores e que têm um prazo de validade de 70 anos após a morte, a empresa optou por pagar as licenças devidas à SACEM, a Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música.
Contudo, a empresa promete dentro em breve passar a permitir a utilização de músicas mais recentes adquiridas legalmente em formato MP3 ou CD mas antes terá que negociar com os representantes dos direitos de autor, em particular, as editoras discográficas. De resto, a MIST não pretende alojar ela própria as remisturas criadas a partir do Songcooker. Isto porque o utilizador não irá poder partilhá-las com os outros internautas. Em compensação, poderá divulgar a “receita” que utilizou, isto é, o modo como decidiu misturar as pistas isoladas dos diferentes instrumentos.
Eis-nos assim perante mais um exemplo de como o grande braço da Lei consegue constranger a expansão da criatividade. De qualquer das formas, vale a pena “brincar” com o Songcooker. Aqui em baixo podem remisturar à vontade o clássico “Heartbreak Hotel” de Elvis Presley. Boas remisturas!
(via Ratiatum)
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