
“Telemóveis lideram vendas de música digital” é o título de uma notícia publicada no Diário de Notícias de ontem sobre a evolução do mercado da música digital em Portugal, ficamos a saber alguns números concretos que apontam para um crescimento do sector dos downloads pagos, com grande destaque para os toques e outros conteúdos para telemóveis. Contudo, a informação adiantada é demasiado escassa para permitir traçar um retrato claro do que realmente se passou.
O jornalista Tiago Pereira cita dados da Music Control, uma auditora que pertence Nielsen SoundScan, segundo a qual se registaram durante os primeiros nove meses de 2007 261 mil downloads de música a partir da Internet em Portugal – supostamente, pagos e legais… -, o que representaria um aumento de 110 mil unidades (58%) face aos 151 mil registados em igual período de 2006. De acordo com a mesma fonte, o período de maior actividade teria-se registado entre Julho e Setembro, com 89 mil faixas comercializadas.
O mais complicado de compreender, no entanto, é o que vem a seguir: “O mercado de downloads nacional acompanha, portanto, o aumento de 89% registado até Setembro na contabilidade conjunta de 17 países europeus. Neste grupo, Portugal preenche 0,24% do total (para 2,7% da população), liderado pelo Reino Unido, com quase 50% (com 15,4% dos habitantes dos países em questão).” Quererá isto dizer que o crescimento registado em Portugal foi igual à média desses 17 países (89%)? Fica a dúvida…
Como a informação de base devia ser escassa, o jornalista decidiu complementar a peça com informação relativa ao mercado de conteúdos para telemóveis – “que de acordo com a Associação Fonográfica Portuguesa representa mais de 60% do total digital nacional” (números de que ano?) – recorrendo aos depoimentos de responsáveis de duas editoras discográficas para sustentar a afirmação de que também aí se verificou uma continuação do crescimento.
Assim, Paulo Ferrreira da Sony BMG revela que facturou em 2007 “1 milhão de euros com os conteúdos digitais, que representam já 30% do total de vendas, o dobro da fatia registada em 2006″. Desse montante, 90 por cento referem-se a ficheiros para telemóveis – a grande maioria (80%) são toques adaptados de canções. Especulo que os restantes 20 por cento digam respeito a vídeos, mas não tenho a certeza.
Segundo o executivo da Sony BMG a preferência dos portugueses pelos conteúdos móveis justifica-se pela “fraca adequação de serviços como o iTunes ao mercado português”. Na sua opinião, os produtores e as editoras discográficas deviam unir esforços no sentido de avançar com a criação de um serviço de subscrição capaz de dar resposta às exigências dos consumidores nacionais.
Acho digno de nota que um responsável de uma major refira explicitamente a necessidade de um serviço de subscrição. Creio, no entanto, que se ele está a falar de um modelo semelhante ao dos serviços norte-americanos Napster, Rhapsody ou Yahoo Music Unlimited que dão acesso a downloads ilimitados de músicas então é melhor pensar duas vezes, pois é de esperar que os consumidores não estejam interessados em ofertas que constrangem e restringem a sua liberdade de utilização das músicas digitais através de tecnologias DRM.
Quanto às vendas em CDs e outros suportes físicos, a tendência é para uma continuação da descida, mas os pormenores são – mais uma vez – escassos. Apenas sabemos que na Sony BMG a descida foi de 10 por cento. João Teixeira da EMI confirma que, sim senhora, houve de facto uma descida – e um aumento nas vendas digitais – mas não acrescenta mais nada. O artigo do DN podia de facto ter sido um bom artigo. Podia, mas acaba por não ser…
Nota: A imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e foi tirada por cicerone.
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Portugueses preferem toques de telemóveis a downloads do iTunes http://tinyurl.com/2autbh