Quando as estatísticas sobre a pirataria mentem Publicado 23 Jan 08

Será que o lobby da indústria discográfica também andou por descuido a inflacionar os seus números relativos às perdas provocadas pela pirataria? Em 2005, a MPAA - organização que representa os interesses dos grandes estúdios de Hollywood - encomendou um estudo à consultora LEK que demonstrava que 44 por cento das perdas atribuídas directamente à pirataria se deviam às partilhas ilegais de filmes efectuadas por estudantes universitários, na maioria dos casos a partir das redes de banda larga das próprias universidades.
É claro que este estudo serviu que nem gingas para a MPAA pressionar os políticos a apoiar uma proposta de lei que, caso venha a ser aprovada, obrigará as universidades a filtrar as suas ligações e a promover serviços alternativos legais, isto é, que integram DRMs e outras tecnologias anti-cópia. Os alunos reincidentes na violação do copyright poderão até ver o seu acesso definitivamente cortado.
Eis senão quando ontem a MPAA veio a público informar através da Associated Press que aqueles números estavam bastante inflacionados e que na verdade os estudantes apenas são responsáveis por 15 por cento das perdas de receitas - ou seja, três vezes menos do que a percentagem adiantada inicialmente.
Mas se a MPAA admite que se tratou de um “erro humano” ela não pretende dar a mão a torcer na sua luta contra a partilha de ficheiros realizada a partir dos estabelecimentos de ensino superior. “Mas qual a legitimidade que resta ao cartel da indústria cinematográfica no seu combate às universidades depois de ter confessado que os seus números estavam errados?”, pergunta Mark Luker, vice-presidente da Educause, uma associação não-lucrativa para a promoção de tecnologias de informação na educação:
Esses 44 por cento foram utilizados para demonstrar que se as universidades pudessem de algum modo resolver este problema no seu campus, isso iria fazer uma enorme diferença para a saúde do negócio da indústria cinematográfica.
Tendo em conta que apenas 20 por cento dos estudantes vivem dentro do campus e que nem todos recorrem necessariamente à rede da universidade, Luker estima que o verdadeiro impacto das partilhas efectuadas pelos alunos ronde os três por cento.
Fica assim comprovado mais uma vez que os estudos baseados em estatísticas podem ser manipulados e interpretados do modo que se quiser, de acordo com diferentes perspectivas sobre o assunto em análise. A credibilidade concedida hoje em dia pelos media e pelos políticos a tudo o que envolve grandes números e percentagens roça por vezes quase o fetichismo. Deve-se por isso tentar analisar todos estes estudos a partir de uma perspectiva mais crítica.
Veja-se outro exemplo recente: na mais recente edição do estudo anual sobre a pirataria informática da Business Software Alliance encomendado à IDC, tenta-se demonstrar que uma redução em 10 por cento na taxa de pirataria informática iria representar milhares de milhões de dólares em receitas adicionais para a economia nacional de 42 países.
Infelizmente, o site está neste momento em baixo pelo que não posso indicar os números relativos a Portugal, mas no que toca aos EUA isso equivaleria a 41 mil milhões de dólares em crescimento económico, sete mil milhões de dólares em receitas fiscais recolhidas pelo Estados e 32 mil novos empregos. Já na França, seriam criados mais 14.465 postos de trabalho, arrecadados mais 2,8 mil milhões de euros em receitas fiscais e 4,9 mil milhões de euros em despesas adicionais efectuadas pelo sector informático.
Todos estes números servem para pretensamente provar que a luta contra a pirataria beneficia o crescimento económico. Mas será mesmo assim? Ou não será mais importante persuadir o Estado, os políticos e as empresas a aderirem à utilização de software livre? É sabido que frequentemente os interesses de um pequeno grupo de empresas tendem a ser antagónicos aos de uma sociedade inteira.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e foi tirada por danbri
Artigos relacionados:
- Think-tank conservador diz que pirataria de música custa 71 mil empregos por ano nos EUA
- IFPI alemã coloca estudantes a protestarem contra “pirataria”
- Proposta de lei apoiada pela RIAA obriga universidades a oferecerem serviços de subscrição com DRM
- O valor económico do “uso justo”
- Brasil: IFPI apreende computadores em lan houses






