
Da última vez que ouvi falar de Lawrence Lessig soube que ele tinha decidido deixar de lado a investigação académica e o activismo em defesa da cultura livre para se dedicar de corpo e alma ao estudo da influência da corrupção no sistema político.
O jurista norte-americano começou por conquistar a sua reputação de pensador e orador brilhante no campo do Direito da Informátia através da defesa de princípios como a neutralidade da rede e um regime de propriedade intelectual mais liberal em obras de referência como Code And Other Laws of Cyberspace e The Future of Ideas onde criticava o excessivo poder de controlo que os grandes conglomerados multimédia adquiriram nas últimas décadas sobre a distribuição e a produção cultural com o beneplácito dos legisladores e reguladores.
Mais tarde, em 2001, teve a ideia de implementar na prática esses princípios ao ajudar a fundar a associação Creative Commons – responsável pelas licenças com o mesmo nome que oferecem aos autores e criadores em geral um regime de protecção intelectual mais flexível do que o direito de autor convencional que ajudou a consolidar grandes oligopólios transnacionais. Graças ao seu elevado grau de liberdade, as Creative Commons ajudaram milhões de obras a chegarem a um público mais vasto sem que os autores cedessem todos os seus direitos.
Mas subitamente no Verão passado, Lessig decidiu mudar radicalmente de ênfase e dedicar-se ao tema que considera ser a raiz de todo o mal da política norte-americana: a corrupção. Depois da pressão de muitos amigos e conhecidos, tudo indica que Lawrence Lessig deverá dentro em breve apresentar a sua candidatura pelo Partido Democrata a um dos 435 lugares no Congresso dos EUA pelo 12º distrito do estado da Califórnia – que corresponde precisamente a uma das zonas que faz parte do Silicon Valley.
Até ao momento já foi criado um site onde se pode ver o vídeo de dez minutos que acompanha este artigo, um outro site de recolha de donativos e uma página na rede social Facebook. Lessig tem agora até 1 de Março para tomar a decisão. Se concorrer, irá enfrentar a ex-senadora da Califórnia Jackie Speier que também é democrata.
Lessig está convencido de que é possível reduzir o peso da influência do dinheiro da política americana a partir de dentro do Congresso, em Washington. Nesse sentido, ele começou por lançar a campanha “Change Congress” em que apela aos candidatos que se comprometam a recusar todo o tipo de financiamento privado para as suas campanhas eleitorais e a apoiar o sistema de financiamento público. Na sua opinião, só assim será possível extirpar todos os interesses comprometedores das indústrias farmacêutica, petrolífera e cultural.
Para esclarecer todas as dúvidas, Lessig esclareceu já à Ars Technica que não pretende trazer para o Congresso a sua cruzada anterior em defesa da cultura livre, uma vez que pretende dar especial atenção à questão da neutralidade da rede e ao espectro aberto.
Apesar do papel controverso de Lessig no movimento da cultura livre, creio que não há ninguem com um poder de oratória tão grande e um conhecimento tão profundo da relação intrincada entre a tecnologia, a política e o direito como Lessig. A somar a isto tudo, o jurista é também o responsável pelo programa de política tecnológica da campanha à presidência de Barack Obama. Depois da escuridão total dos últimos anos, parece que o céu de Washington está a ficar mais claro… Já se sentem as boas vibrações e os ventos de mudança.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY 2.0 e pertence a Joi.
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