Editoras comunitárias de música made in France Publicado 24 Fev 08
Será que a Internet matou as editoras discográficas? Talvez a resposta seja afirmativa no caso das tradicionais gravadoras que se limitavam a descobrir por entre a multidão de novos artistas aqueles que eram supostamente os mais talentosos e ajudavam-nos a promover a sua música e a construir uma carreira.
Enquanto as vendas de CDs continuam em queda livre e as vendas digitais não conseguem compensar essa diminuição, as quatro majors persistem em apontar o dedo aos utilizadores de redes de partilha de ficheiros e ao P2P em particular. A música grátis financiada por publicidade não parece descolar e as promessas mirabolantes que depois se vêem a revelar falsas não ajudam em nada a situação. Por outro lado, as grandes experiências de venda directa ao consumidor encetadas até agora por nomes como Radiohead e Trent Reznor/Saul Williams não parecem ter sido muito conclusivas.
No entanto, todos os dias parecem surgir modelos diferentes a pensar nos mais variados tipos de artistas e fãs de música. Mesmo assim, podemos já vislumbrar alguns casos de sucesso no campo da Música 2.0. Refiro-me em particular às editoras comunitárias: SellABand e SliceThePie. O objectivo aqui não é tanto eliminar o intermediário mas sim ocupar o seu lugar através de um modelo de negócio em que todas as três partes - empresa, artista e fãs - ficam a ganhar.
O fã investe uma determinada quantia mínima em dinheiro num artista da sua preferência com a esperança de vir a recuperar mais tarde o investimento efectuado, tal e qual como se fossem accionistas. A partir do momento em que os artistas conseguem recolher um determinado montante, os artistas ganham o direito de gravarem um CD num estúdio profissional produzido por técnicos experientes ligados a grandes vedetas.
Inspirados pelo sucesso do SellABand - que já conseguiu com que 15 dos seus artistas chegassem aos 50 mil dólares exigidos para irem para um estúdio gravar -, surgiram nos últimos meses uma série de novas editoras comunitárias europeias que confiam aos fãs a função de selecção de talentos. A maioria delas tem sido lançada em França.A vantagem para essas empresas é óbvia, já que na maioria dos casos os riscos de todos os eventuais investimentos falhados são transferidos para os próprios fãs.

Lançada apenas no final de Novembro por Michael Goldman - filho do popular cantor Jean-Jacques Goldman - e Simon Istolainen, a MyMajorCompany é de todos os projectos que eu encontrei até agora aquele que estabelece uma fasquia mais alta para o artista ter o direito a gravar um álbum num estúdio profissional com a ajuda de engenheiros de som: 70 mil euros.Também englobado no pacote do prémio está a filmagem de um clip de vídeo.
Mas isso não impediu que tenha sido também a primera das quatro editoras comunitárias francesas a conseguir lançar um artista segundo este sistema. A nova vedeta da era da Web 2.0 tem por nome Grégoire, um cantor romântico que representa fielmente a tradição da chanson française de um Léo Ferré, juntando-lhe algumas influências de Cat Stevens e David Bowie.
No MyMajorCompany, cada fã é convidado a investir um mínimo de dez euros mas quanto mais apostar, mais poderá vir a ganhar se o artista acabar por se tornar um grande sucesso de vendas. Em troca, obtém 20 por cento das receitas geradas pela exploração comercial do álbum, tanto em formato físico como digital (downloads de singles, toques de telemóveis e outros goodies). Outros 30 por cento vão para o bolso dos artistas e o distribuidor recebe 15 por cento. Mesmo assim, a maior fatia acaba por ir parar ao bolso da própria MyMajorCompany.
Segundo os responsáveis pela empresa, para que cada fã recupere a soma que investiu inicialmente o artista tem que vender pelo menos 30 mil discos, o que mesmo no mercado francês não é pêra doce nos dias de hoje. Um ponto positivo é que antes do artista chegar aos tais 70 mil euros mágicos, existe sempre a possibilidade de transferir o dinheiro para outro artista ou recuperar o montante.
Talvez o que explique melhor o sucesso do MyMajorCompany em comparação com as outras editoras comunitárias francesas que impõem requisitos inferiores seja um vídeo de promoção publicado no Dailymotion em que Jean-Jacques Goldman - o pai de Michael - é enxovalhado por um produtor irascível e insuportável. O clip que brinca com todos os estereótipos e clichés da indústria do disco conseguiu propagar-se de uma forma viral, contando actualmente com mais de 135 mil visualizações.
Em consequência desse êxito instantâneo o número de visitas diárias ao MyMajorCompany é já superior às 50 mil. O montante total de dinheiro arrecadado também já ultrapassa os 140 mil euros.

O modelo de funcionamento do Spidart é quase decalcado do SellABand, sendo exclusivamente reservado a artistas francófonos. Aqui, um artista também precisa de reunir 50 mil euros para poder gravar um álbum. Essa verba inclui também uma fatia destinada a uma campanha promocional. Do mesmo, modo, é pedido aos utilizadores que invistam um mínimo de dez euros. No entanto e tal como no MyMajorCompany, o fã tem também a possibilidade de retirar a sua parte e transferi-la para outro artista.
A divisão das receitas obtidas com a exploração comercial do álbum (correspondente ao preço de venda menos as licenças de direitos de autor, IVA e custo do distribuidor) parece ser mais vantajosa, tanto para o artista como para o fã: cada um recebe 35 por cento. Assim, se o CD custar 13 euros, tanto o artista como o fã-produtor recebem 2 euros. No caso de uma música em formato MP3 com um preço de 70 cêntimos, cada um recebe 15 cêntimos. Os restantes 30 por cento vão para o bolso da empresa. Ao contrário do MyMajorCompany, parece que o Spidart tem tido alguma dificuldade já que o artista que recolheu mais dinheiro até agora - Naosol, um cantor folk-pop com uma voz a fazer lembrar Ben Harper - ainda só vai nos 20 mil euros.
Para quem tinha dúvidas, o Spidart não pretende entrar em concorrência directa com as editoras tradicionais. Isto porque não só os produtores e engenheiros de som encarregados da produção do disco são profissionais com anos de experiência na indústria discográfica, mas também porque os responsáveis pelo projectos não hesitaram em assinar um acordo de distribuição com a EMI Music Publishing. A relação entre as duas partes é pois mais a de uma sinergia do que de hostilidade, na medida que os novos talentos descobertos pela “multidão” acabam por ser recuperados pelo circuito discográfico tradicional.

Ao contrário dos restantes, o NoMajorMusik - que abriu a sua versão beta a 5 de Dezembro - apenas convida os fãs a financiarem a produção de singles que serão exclusivamente distribuídos em formato digital pela Internet, quer no próprio site da plataforma, quer em lojas de música online. Posteriormente, será também lançada uma compilação em formato CD a ser distribuída. Outra vantagem é que a repartição dos ganhos é a mais equitativa: 40 por cento das receitas são alocadas aos investidores, outros 40 por cento ao artista e apenas 30 por cento
Um aspecto engraçado do NoMajorMusik é que esta plataforma recorre a uma moeda virtual, os $oux. Cada euro corresponde a seis $oux. Esta moeda permite adquirir os singles produzidos e financiar a produção de artistas. Cada single pode ser comprado por cinco $oux - isto, é cerca de 80 cêntimos - no próprio site ou por 99 cêntimos em lojas como o iTunes. A diferença de preço deve-se à margem cobrada pelo retalhista. Os $oux adquiridos podem ser a qualquer instante reconvertidos em euros. A primeira banda a atingir o valor de 18 mil $oux (três mil euros) foi o grupo de rock alternativo Vernon Project, com a sua música “The Cave Of Night”

Aberto a 28 de Janeiro, o ProduceMyLive tem um modelo que - na minha opinião - é dos que faz mais sentido, se tivermos em conta a diminuição do valor que os consumidores atribuem ao suporte discográfico tradicional. Em detrimento de um simples longa-duração de estúdio, a proposta oferecida aos artistas consiste na organização de um concerto ao vivo, seguida do lançamento de um DVD e CD com uma gravação desse mesmo concerto e da gravação de um single num estúdio profissional.
O pacote completo custa 20 mil euros e para ajudar os artistas a atingirem esta maquia, os fãs podem adquirir partes de 10 euros. Em troca, recebem um título exclusivo do artista e uma versão digital do concerto em áudio ou vídeo. Para além disso, têm direito a 40 por cento das receitas geradas com as vendas do CD e do DVD. Existem também ofertas adicionais como convites para o concerto (no caso do fã ter sido um dos 50 primeiros a investir), convite + acesso aos bastidores (se o fã foi o primeiro a investir 200 euros), e convite para uma visita guiada ao estúdio de gravação do single (se o fã foi um dos dois primeiros a investir 150 euros).
Quanto aos artistas, esses recebem 40 por cento das receitas. Os restantes 20 por cento vão parar ao ProduceMyLive. Um pormenor interessante é que os artistas são obrigados a recolherem os 20 mil euros pretendidos dentro de um prazo de cinco meses após a inscrição no site. Isto evita que o dinheiro investido pelos fãs esteja parado durante anos num mesmo artista. Isto diminui o receio dos fãs de virem a ser defraudados. Passados esses cinco meses, se o objectivo não for alcançado, o fã apenas necessita de transferir as suas partes para outro artista.
Conclusão
Não tenhamos ilusões: apesar de toda a retórica e do ênfase concedido à participação, o sistema de funcionamento destas editoras comunitárias perpetua o gosto ditado pela maioria, o mínimo denominador comum. Ainda para mais, porque os fãs/investidores têm a noção de que têm mais chances de recuperarem o seu investimento se apostarem naqueles artistas mais populares. Trata-se do mesmo mecanismo especulativo em que os mercados accionistas se baseiam.
Poder-se-á argumentar que os valores exigidos pela gravação de um disco estão bastante inflacionados. Afinal de contas, para se gravar música de qualidade nunca foi necessário ir para um estúdio profissional recheado de apetrechos técnicos topo de gama e contar com a produção de engenheiros de som pagos a peso de ouro. Basta lembrar a filosofia DIY do Punk. Ao mesmo tempo, a drástica diminuição dos custos de produção e do equipamento fazem com que hoje em dia seja possível a uma banda ou um músico gravar em casa no seu próprio Home Studio.
No fim de contas, pode-se até contrapor, todo este aparato “oferecido” pelas editoras comunitárias serve apenas para dar uma nova vida 2.0 ao modelo de vedetariado que fez com que as grandes editoras discográficas se tornassem empresas com orçamentos de centenas de milhões de dólares e pelo caminho ainda sustentou os extravagantes estilos de vida das estrelas do Pop e do Rock a que nos já habituámos graças aos inúmeros reality-shows da MTV.
Tudo isso não deixa de ser verdade mas também é preciso ver que a Internet não traz só vantagens para a cauda longa, aquela que sempre foi responsável pela inovação estética, que sempre apostou antes de todos os outros nos estilos musicais que ficaram para a história. E hoje mais do que nunca, a fama tornou-se um bem escasso a que só alguns afortunados têm acesso. Numa era em que a ausência de referências comuns é cada vez mais notória e em que a fragmentação do cenário musical numa panóplia de nichos é um dado adquirido, os fãs procuram desesperadamente por referências comuns. As editoras comunitárias podem servir essa função, ao funcionarem de elo de ligação entre o mundo online dos blogs e das redes sociais e o mundo offline das televisões, das rádios e das revistas. O fenomenal sucesso do SellABand comprova-o. A experiência do MyMajorCompany na França também. Mas este não é o único modelo possível e esta é a vantagem da Internet, o meio onde a liberdade de escolha impera.
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