Warner Music planeia licença para descarregar todas as músicas Publicado 28 Mar 08

Há cerca de duas semanas falei aqui dos planos do consultor de estratégia digital Jim Griffin no sentido de convencer as quatro majors a implementarem uma tarifa de cinco dólares/euros acrescentar à factura mensal da ligação à Internet do nosso ISP que daria direito a descarregar toda a música do mundo com total legalidade e sem qualquer risco de sermos perseguidos com processos.
Ontem, a revista Portfolio publicou um artigo em que informa que a Warner Music está bastante interessada nas ideias de Griffin. De facto, está tão interessada que até contratou o guru para chegar a uma solução viável no sentido de “monetizar a anarquia” do P2P. O esquema passaria por criar uma entidade que distribuisse o dinheiro recolhido dos utilizadores aos detentores de direitos - artistas, editoras e compositores -, tendo em conta as músicas mais reproduzidas ou descarregadas.
Edgar Bronfman Jr., o patrão da Warner Music, concedeu a Griffin um contrato de três anos para dar forma a este plano que se for bem sucedido poderá significar a total renovação e salvação do modelo económico da indústria discográfica. Como o artigo refere, é óbvio que a lógica dos processos e perseguições seguida pela RIAA contra os seus antigos clientes não tem dado resultado. Das 5400 intimações enviadas pela Associação da Indústria Discográfica Norte-americana a estudantes de mais de 150 instituições de ensino superior no ano passado, apenas conseguiu chegar a acordo em 2300 casos. 2465 dos que não responderam foram alvo de um processo judicial.
Griffin defende que a música deve deixar definitivamente de ser encarada como um produto para passar a ser vista como um serviço, na medida em que hoje em dia o acto de pagar por música tornou-se algo voluntário. Na sua opinião, este tipo de licença global é a melhor solução para acabar com a “economia à Tarzan” que a RIAA tem defendido.
Esta proposta é, na minha opinião, bastante sensata. Mas na blogosfera tecnológica há muita gente que não a vê com bons olhos, chegando ao ponto de dizer que se trata de um imposto. É o caso de Michael Arrington do TechCrunch e Matthew Ingram. A questão é que, como é costume, eles escrevem de um ponto de vista neo-liberal totalmente influenciado pela atmosfera de Silicon Valley que torce o nariz a tudo o que possa exigir a intervenção do Estado.
Eles partem do princípio de que a proposta de Jim Griffin e da Warner Music consiste numa taxa ou imposto disfarçado de licença voluntária global. Na sua opinião, trata-se apenas de um estratagema que as majors arranjaram para adiar a sua morte iminente que irá fazer com que, de uma forma ou de outra, todos os internautas acabem por financiar um modelo de negócio obsoleto - a venda de música.
Num post posterior, Arrington refere uma fonte confidencial que lhe indicou que as majors pretendem que o plano funcione como uma espécie de protecção que evite que todos os que pagarem sejam processados. Deste modo, se um ISP decidir aderir à licença, esta irá aplicar-se automaticamente a todos os clientes e será somada à sua conta mensal, quer eles queiram, quer não e independentemente deles alguma vez terem descarregado música da Internet. Os primeiros a serem abrangidos serão os estudantes universitários que terão apenas que acrescentar essa tarifa à sua propina de modo a evitarem ser perseguidos.
Ainda é muito cedo para chegar a uma conclusão taxativa a este respeito, mas se isto for realmente verdade, as majors estão a minar logo à partida as boas intenções desta iniciativa. O cliente de um ISP apenas deve pagar essa licença caso queira de facto descarregar música protegida por direitos de autor.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e pertence a *Samantha Murphy*
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