Indústria musical britânica: Cópia privada? Só taxando os iPods

by Miguel Caetano on 17 de Abril de 2008

Nem a propósito do artigo recente que escrevi sobre a taxa pela cópia privada: os bloggers anglo-saxónicos estão muito escandalizados com a exigência feita pela indústria musical britânica ao governo britânico de apenas aceitar a legalização do simples acto de se copiar a música contida num CD adquirido legalmente para um leitor de MP3 como o iPod caso seja imposta uma taxa a acrescentar ao preço de venda ao público dos aparelhos.

Mas por muito que custe a esses libertários, a prática de taxar os iPods e outro tipo de dispositivos capazes de armazenar ficheiros de música não é uma bizarrice inventada pelos britânicos apenas para chatear os fãs de música. Trata-se de algo que já se encontra instituído em vários outros países europeus, de entre os mais recentes a Espanha e a França.

Convém também recordar que o Reino Unido e a Irlanda são os únicos Estados-membros dos 25 que pertencem à União Europeia onde ainda não é permitido copiar os CDs que legalmente comprámos. Mas esses são detalhes de só-menos importância que não alteram em nada a posição dos nossos libertários, habituados que estão ao sol californiano e aos ambientes new age que emanam desse canto do mundo.

Isto não implica, é claro, que eu partilhe da posição do Music Business Group (MBG), um grupo que representa os interesses de managers, compositores, editores e intérpretes e que abrange organizações como a BPI, a AIM e a MCPS-PRS comentando a proposta apresentada em Janeiro por Lord Triesman, ministro responsável pelas questões de propriedade intelectual para a revisão da lei do copyright de modo a descriminalizar a cópia privada. Mas não me parece correcto abstrair o que se passa no Reino Unido do que ocorre no resto da União Europeia, como o fazem William Patry – conselheiro do Google para assuntos de copyright -, Michael Arrington e Mike Masnick

O problema está na argumentação usada pelo MBG: “Existe um enorme valor derivado da capacidade de transferir música (…) Só no ano passado foram comercializados cerca de 20 milhões de dispositivos portáteis capazes de reproduzir MP3 e cerca de 90 por cento da música num leitor vulgar de MP3 é música que foi copiada.” Basicamente, a indústria tem a lata de dizer que o valor criado com a cópia e reprodução ilimitada de música lhe pertence única e exclusivamente.

Mas então se há realmente valor a extrair dessa funcionalidade porque é que a indústria não deixa de perseguir legalmente os fãs de música e facilita ela própria a livre distribuição de música através de redes P2P cobrando uma pequena mensalidade por mês a quem quer descarregar essa música? O que ela não pode é ficar com o bolo e comê-lo: cobrar preços caríssimos por CDs e músicas em formato digital, perseguir os suspeitos da partilha de ficheiros e receber um dinheirinho extra por cada iPod e iPhone que o Tio Jobs vender.

No caso desta taxa, o pior ainda é mesmo o facto da MBG não estar disposta a que o governo meta o bedelho; isto é, quer ser ela própria a negociar directamente com os fabricantes um montante que estes deverão pagar. O mais ridículo é que o plano do governo aplica-se apenas a música adquirida num formato físico pelo próprio consumidor para uso privado e individual e copiada através de um dispositivo na posse desse consumidor.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a fabbriciuse.

Bookmark e Compartilhe

Artigos relacionados:

  1. Reino Unido prestes a legalizar cópia privada de CDs
  2. Leitores de MP3 passam a ser mais caros em Espanha devido à taxa digital pela cópia privada
  3. O MP3 e os iPods estão a matar a música Pop e outras histórias da carochinha
  4. Manifesto de indies britânicas apoia licença global
  5. Leitores de MP3 dos franceses estão cheios de música pirata

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

{ 1 trackback }

Manifesto de indies britânicas apoia licença global | Remixtures
13 de Maio de 2008 ás 0:16

{ 0 comments… add one now }

Leave a Comment

Previous post:

Next post: