Um dos truques utilizados pelas empresas de estudos de mercado para fazer vender a sua banha de cobra – isto é, estatísticas – consiste em divulgar a informação a conta-gotas ou às fatias. Alguns dias depois do NPD Group ter revelado dados sobre um suposto estudo do sector da música digital comparando o desempenho da loja de MP3 da Amazon com o iTunes da Apple, segundo o qual a gigante de comércio electrónico estava a crescer mas ainda apenas representava um décimo da quota de mercado do serviço da Apple, o New York Times publicou uma peça com base nesse mesmo inquérito anual aos internautas norte-americanos.
(O mais hilariante é que só depois de ter escrito este artigo é que me dei conta de que a NPD já tinha deixado passar algumas “migalhas” deste mesmo inquérito em Fevereiro passado. A isto é que se chama fazer render o peixe…)
E o que há de novo nesses números que nós já não soubessemos? Na verdade, não muito: de toda a música “adquirida” (não seria melhor dizer escutada ou obtida?) em 2007, 58 por cento tratou-se de música pela qual os norte-americanos não pagaram, o que representa um salto de seis por cento no sector “cinzento” face aos 52 por cento registados em 2006. A maioria dessas faixas são descarregadas via P2P ou obtidas através dos amigos.
Apesar do mercado de downloads pagos ter crescido de sete para 10 por cento, as vendas de CDs cairam ainda mais: de 41 para 32 por cento. Isto significa que a percentagem de música obtida legalmente desceu de 48 para 42 por cento. Em contrapartida e comprovando pela enésima vez que os processos instaurados pelas grandes editoras apenas geram um efeito de ricochete, o volume de música descarregada em redes de partilha de ficheiros subiu de 14 para 19 por cento – exactamente a mesma percentagem atribuída pelo NPD Group à cópia de CDs de amigos para MP3 (burn) e à gravação de música em formato digital disponível nos discos rígidos e iPods dos amigos (rip) para CD.
Segundo Russ Crupnik, analista de música da NPD citado pelo jornal:
O número de pessoas que recorreram à partilha de ficheiros em 2007 face a 2006 estabilizou. O número de ficheiros descarregados por cada utilizador é que aumentou significaticamente.
É óbvio, não é: Limewire e eMule está tão fora de moda! Agora o pessoal quer é torrents, de preferência servidos por trackers privados, pois aí é muito mais fácil encontrar álbuns completos. De entre outras migalhas adiantadas pelo NPD Group ao NY Times, podemos ficar a saber que os suportes mais utilizados pelos norte-americanos para ouvirem música continua a ser a rádio FM/AM e o leitor de CDs. Um pouco mais atrás vem a música digital. Aqui está talvez a razão pela qual os Tops da Web e do P2P continuam inundados da mesma porcaria que encontramos nos Tops dos CDs. E todos nós sabemos como as playlists das rádios são influenciadas pela máquina bem oleada do marketing das majors…
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