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META: Sobre Posts Convidados Publicado 18 Abr 08

Devido a algumas solicitações que eu tenho recebido ultimamente, resolvi aproveitar esta ocasião para desfazer possíveis mal-entendidos que possam haver. Mas antes de mais tenho que esclarecer que este post não é contra ninguém em particular. Apesar de não ganhar manifestamente balúrdios com a publicidade no Remixtures, eu vejo o que eu faço aqui todos os dias como uma espécie de “evangelização”.

Não se trata tanto do que eu (não) ganho mas da capacidade de propagar e disseminar as ideias e os valores em que acredito: na partilha de informação, cultura e conhecimento, na reapropriação de ideias, na capacidade de construir uma indústria cultural e em último caso uma sociedade mais equitativa sem deixar de abdicar da criatividade e do gozo pessoal que criar algo nos dá. Acredito sinceramente que os artistas não devem ser condenados a viver como mendigos debaixo de uma ponte apenas porque não produzem músicas que se encaixem nos gostos das “massas”. Mas por outro lado, tenho consciência de que vivemos ainda numa economia de mercado.

E por mais blogs de MP3, MySpaces e Last.fms que existam, o risco de concentração do mercado continua a ser exactamente o mesmo antes da Internet. Basta ver como a maior editora do mundo passou a controlar os dois maiores blogs de música do mundo, como as majors acabaram de criar uma “panelinha” com a rede social do senhor Murdoch e como uma das maiores cadeias de rádio e televisão dos EUA “abocanhou” a Last.fm.

O que eu disse em relação à música também é válido em relação aos blogs e à escrita. Penso que os escritores devem ser remunerados se o que escrevem exige dispêndio de tempo, dedicação e recursos de investigação. Em mercados online mais (ou menos) avançados onde os leitores não se deixam enganar pela quantidade de conteúdos e sabem valorizar a qualidade, foi possível a criação de redes de blogs cujos autores são pagos para escreverem. Uma vez que o número de visitantes é suficientemente alto, essas redes de blogs conseguiram atrair anunciantes que estão dispostos a pagar para promoverem as suas marcas aí, porque sabem que podem beneficiar da relação mais directa, próxima e de confiança que o blogger conseguiu estabelecer com a sua audiência. Na medida em que souberam tirar partido da filosofia de relacionamento da Web 2.0 baseada na constituição de comunidades, os blogs conseguiram assumir-se como os sucessores directos de publicações “profissionais” como a Salon e outras (Quem é que nos últimos tempos visitou a Salon?).

Quem pensar que esse modelo de profissionalização dos blogs apenas se aplica aos Estados Unidos, está profundamente enganado. Isso acontece tanto no Brasil, como na Espanha, na França ou na Itália. Infelizmente em Portugal, a maioria dos internautas ainda continua agarrada ao modelo primitivo dos fóruns. Não é que eu não goste de fóruns - sou frequentador bastante assíduo de um… -, mas a verdade é que os fóruns são para os escritores um autêntico quebra-cabeças uma vez que vão contra todos os seus princípios. Práticas tão comuns como o anonimato, a cópia e colagem inteira de textos sem atribuição da fonte, deturpação de textos, acusações torpes sem fundamento, calúnias, etc., escandalizam qualquer escritor - quer este seja jornalista, colunista, romancista, poeta, ensaísta, etc.

Pela parte que me toca, isso não me provoca grandes dores-de-cabeça. Seria o mesmo que eu enquanto músico estar a criticar a partilha de ficheiros. Seria uma atitude hipócrita, porque se eu não pudesse ter acesso grátis e imediato aos textos estupendos do Bob Lefsetz - o maior “evangelizador” que já alguma vez conheci -, do Mike Masnick, do Nate Anderson, do Antony Bruno, do Glenn Peoples, do Guillaume Champeau, do Bruce Houghton, do Eliot Van Busbirk, do Janko Roettgers, do Alexandre Matias, do Juliano Spyer, do Sérgio Amadeu, do Tiago Dória, etc. eu não seria quem eu sou.

Sendo o mercado online português o que é, eu vejo o Remixtures como uma forma de chegar ao maior número de pessoas, de atingi-las com as minhas ideias. Em suma, eu vejo-me como um pregador que prega um novo evangelho, que prepara as mentes das pessoas para a realidade que aí vem. Mas também não tenho ilusões e a longo prazo as pessoas não vivem do ar. Por mais avanços que a economia do Peer-to-Peer tenha feito nos últimos anos com a Wikipédia e o software livre, existem factores intrínsecos à natureza humana que são difíceis de eliminar. É claro que os incentivos não-materiais são muito importantes nas actividades intelectuais, mas por mais que se queira, ninguém consegue subsistir a médio-longo termo sem incentivos materiais. Pela parte que me toca, eu deixei bem claro desde o início que a missão deste blog era conciliar altruísmo com egoísmo.

Quero com isto dizer que o Remixtures tornou-se a minha forma de expressão natural e quase que adquiriu uma vida própria. Eu tenho um cuidado bastante grande por tudo aquilo que é aqui publicado. Eu tento investigar para não fazer borradas. Eu tento corrigir um texto logo que descubro um erro. E adoro quando os leitores se dão ao trabalho de me corrigir. Mas isso é porque este é - salvo seja - o meu espaço. Todos os conteúdos aqui são da minha exclusiva responsabilidade. Como tenho consciência das minhas limitações, adorava ter alguém que servisse como meu editor, que revesse a ortografia, que me ajudasse a rever e a compor um texto mais estruturado mas que não restringisse a minha liberdade de expressão e que não me “roubasse” os textos. É por isso que eu nunca me atrevi a “convidar” ninguém para escrever um artigo para aqui. Se eu admiro um texto de outro blogger, eu comento e linko esse texto - quanto a mim, essa é a forma mais apropriada de agradecer alguém que existe na Web. Porque de uma forma ou de outra, acredito que a escrita continua a ter valor e cada blog deve ser o espaço de expressão pessoal do seu autor.

Agora, admito que se o que queremos é de facto competir em número de hits e pageviews com os media tradicionais - coisa que acho francamente possível se for feita com CONVICÇÃO e ABNEGAÇÃO: basta conciliar quantidade (o que eles têm) com qualidade (o que eles não têm) - , existem vários modelos de produção online que oferecem uma eficácia mais elevada do que o blog individual escrito por um autor solitário. No Brasil, o sucesso do blog colectivo MeioBit é fenomenal. Apesar da concorrência da “mídia” tradicional no campo da tecnologia ser “barra pesada” - e não como aqui, que é praticamente inexistente -. eles já conseguiram alcançar um número superior a mais de 21 mil assinantes. A força da comunidade deles é tão grande que eles conseguiram atrair anunciantes de peso. Mas para que um blog colectivo funcione é preciso que sejam fixadas metas - número de posts diários de cada escritor - e que as receitas obtidas sejam partilhadas equitativamente entre todos. Infelizmente, como todos sabemos, a quantidade não é sinónimo de qualidade, muito pelo contrário, e fica complicado chegar a uma sintonia de interesses, ao ponto de equilíbrio necessário para que uma iniciativa desse tipo vá a avante. Infelizmente, eu acho que isso exige algo que muita gente não tem para dar: dedicação, missão, abnegação, persistência, rigor.

Por isso eu digo: muito obrigado, Bruno, pelo convite para escrever para o WebTuga - que é, afinal de contas, o melhor blog generalista de tecnologia em português de Portugal - muito obrigado, Hugo, pelo convite para escrever para o novo e redesenhado Rascunho e espero que o vosso site se torne a referência indispensável no campo da informação cultural online - capaz de competir ombro a ombro com o Blitz, já para não falar no não-linkável Ipsilon - e desculpem-me por recusar o vosso convite, mas não quero dispersar os meus esforços. O Remixtures é algo em que acredito profundamente. É a minha missão.

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Algumas respostas a “META: Sobre Posts Convidados” :

  1. Para o Webtuga seria apenas um guest post em que escreverias sobre a chamada música 2.0, mas com liberdade para abordares o tópico que quisesses. A decisão é tua e respeito-a, mas o convite mantém-se. :)

    Comentário de Bruno Miguel em 18 Abr 08 12:36.
  2. Bruno,

    Obrigado por teres compreendido. No hard feelings ;-)

    Comentário de Miguel Caetano em 18 Abr 08 13:41.
  3. Gostei de ler. Mas há mais vida criativa para além dos músicos, os fotógrafos têm a vida dificultada, já que cada vez menos há quem ache importante pagar, mesmo quando são meios em papel e não se importam de usar imagens de pior qualidade por serem de uso livre.

    Comentário de Mário em 18 Abr 08 16:49.
  4. Claro que no hard feelings. As ligações para o Remixtures não faltarão, estou certo. ;)

    Comentário de Hugo Torres em 18 Abr 08 20:30.
  5. Um guest post é uma excelente forma de evangelizar novos discípulos e de multiplicares o valor para ti e para o projecto. Faz como entenderes mas, por exemplo, um post no webtuga que é lido por um grupo imenso de gente que nunca ouviu falar do Remixtures, seria uma excelente forma de conquistares um pouco da atenção dessas pessoas e quem sabes converteres novos leitores/fãs… e não precisas inventar nada de novo, podes fazer um post para leigos ou um mashup de várias ideias que desenvolves(te)aqui em postes individuais, para tentar chegar a leitores de diferentes sensibilidades. E não esqueças o pagerank, links (x3):)

    Comentário de António em 18 Abr 08 20:33.
  6. António, é para isso que a linkania existe. O Bruno já me linkou várias vezes nos últimos dias e eu também já linkei para o WebTuga. Eu acho que se deve valorizar mais os links, apreciar o valor deles. Nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil, onde as coisas não são a brincar, os bloggers de topo linkam-se uns aos outros, fazem quotes, comentam os posts dos outros, o que por sua vez gera novos comentários por parte do autor original na caixa de comentários.

    Por exemplo, eu nunca vi o Matthew Ingram a escrever para o TechCrunch mas sei que o Ingram é o “menino do coiro”/fanboy nº 1 do Michael Arrington porque eles estão sempre a linkar-se um ao outro.

    Comentário de Miguel Caetano em 18 Abr 08 20:48.
  7. Eu não contesto as tuas opções, nem sequer tenho palpite a dar sobre isso mas deixa-me que te diga que o link não é a mesma coisa que um texto convidado, são situações diferentes. Por uma, apenas uma parte dos leitores segue os links ao passo que muitos mais lêem o que é escrito no blog; por outro lado a “voz”/tom do autor poderá ser adaptada a um público necessariamente diferente. Ando para escrever um texto onde pretendo fazer justamente isso.

    Comentário de António em 19 Abr 08 15:16.
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