
Afinal, tudo não passou de uma vez sem exemplo. Depois de terem sido consagrados como autênticos revolucionários da indústria discográfica por terem em Outubro passado disponibilizado na Internet o seu novo álbum In Rainbows segundo um modelo “você decide o preço” – dando inclusivamente aos fãs de música a hipótese de descarregarem gratuitamente o disco – os Radiohead acabam de dar uma machadada fatal nas expectativas de todos aqueles que pensavam que o grupo britânico iam repetir a experiência.
Em declarações ao Hollywood Reporter, Thom Yorke afirmou o seguinte:
Penso que foi uma resposta isolada a uma determinada situação. Foi uma daquelas coisas em que nos encontrávamos numa posição em que toda a gente nos perguntava o que é que nós iríamos fazer. Não penso que voltaria a ter a mesma relevância agora, de qualquer das formas, caso decidíssemos oferecer algo de novo. Foi um momento específico no tempo.
Não sei o que se pode depreender das palavras do vocalista dos Radiohead senão que afinal que a experiência não foi tão lucrativo como a banda estava inicialmente à espera e que os dados revelados pela empresa de estudos de mercado ComScore sempre estavam certos. Um mês depois do lançamento online, a ComScore divulgou que maioria das pessoas (62%) que descarregara a versão digital do disco não tinha pago nada e que o valor médio desembolsado pelos 38 por cento que pagaram foi de uns meros seis dólares (4,14 euros). Apesar dos Radiohead se terem apressado a desmentir esses números, a verdade é que até hoje eles escusaram-se a divulgar os seus próprios dados.
Mesmo assim, Thom Yorke admite que as bandas de maior dimensão podem tirar partido de novas formas para comunicar directamente com os fãs: “Nós apostámos agora numa relação directa com os fãs porque somos suficientemente grandes para isso.”
No entanto, isso não passa de um lugar-comum que casos como as de artistas autoproduzidos como os norte-americanos Jonathan Coulton e Brad Sucks ou o brasileiro Bnegão desmentem. Estes artistas disponibilizam a sua música segundo licenças livres mas que ganham dinheiro dando concertos um pouco por todo o lado. Porque o ganha-pão dos artistas sempre foram os concertos. É certo que são exemplos ainda isolados, mas esta “classe média” de músicos que tira partido da “cauda longa” é cada vez maior.
Com estas afirmações, os Radiohead acabam de prestar um mau serviço a todas as bandas e todos os fãs que acreditam na viabilidade de um outro modelo de negócio para a música. Do mesmo modo, Thom Yorke dá assim razão às críticas tecidas por Trent Reznor dos Nine Inch Nails de que a iniciativa dos Radiohead tinha sido apenas uma mero truque promocional para vender mais CDs de In Rainbows. Com efeito, Reznor foi mais longe e chegou mesmo a disponibilizar de borla, com uma licença Creative Commons e via BitTorrent o primeiro volume do álbum Ghosts I-IV. E o que é certo que graças ao seu plano de oferecer vários planos de oferta aos fãs dos NIN, Reznor conseguiu recolher 1,6 milhões de dólares só na primeira semana após o lançamento. Afinal de contas o que é que correu mal aos Radiohead para eles não quererem repetir a experiência?
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a Ben Ward.
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