Depois da aposta na música grátis financiada por publicidade através do We7, Peter Gabriel está de volta com algo que promete melhorar a forma como descobrimos música nova. O The Filter pretende ser, como o nome indica, O FIltro para acabar com todos os filtros, isto é, os outros motores de recomendação de conteúdos como o Last.fm, o Pandora e o MyStrands.
A empresa foi criada há cerca de um ano e tem funcionado em modo de beta privado como serviço de descoberta de música. Contudo, ontem o serviço foi relançado e passou a integrar não só música, mas também filmes, séries de televisão e vídeos da Web. Para gerar mais hype, alguns dos maiores blogs de tecnologia como o TechCrunch e o Mashable distribuiram convites entre os seus leitores, convites esses que como é lógico acabaram por se esgotar em poucas horas. O lançamento ao público deverá ocorrer já no próximo mês. Por essa altura, será também possível descobrir livros com base nos nosso hábitos de leitura anteriores.

Quando ficamos a conhecer mais em pormenor o sistema de funcionamento do The Filter, a primeira impressão que nos passa pela cabeça é algo do tipo: “Uau! Isto é incrível; é mesmo o que estava a faltar para me orientar pela enorme oferta actual de conteúdos”. Só passado algum tempo é que nos apercebemos das implicações potencialmente assustadoras deste serviço a nível da privacidade dos nossos hábitos de consumo.
E a verdade é que o próprio Peter Gabriel não faz nada para serenar os temores quando refere frases como esta:
Nesta era em que o curador se está a tornar tão importante como o criador, o disc jokey transforma-se no life jokey. Tu transportas isto contigo para todo o lado como uma ferramenta que está disponível 24 horas por dia e que te ajuda a tomar decisões.
O que Gabriel não sabe é que nem toda a gente quer viver num mundo filtrado, mesmo que tenha a capacidade de controlar os filtros. Como é óbvio, o artista limitou-se a dar a cara e a investir na empresa. O site foi criado por Martin Hopkins e Rhett Ryder. O desenvolvimento e a conceptualização técnica do The Filter ficou a cargo da empresa britânica Exabre.

O The Filter baseia-se em algoritmos proprietários para sugerir músicas e filmes que são semelhantes aos nossos preferidos, recorrendo para tal a uma base de dados de mais de 4,5 milhões de músicas e 330 mil filmes, para além de 50 milhões de transacções de músicas e playlists. O sistema de recomensação utiliza um tipo de inteligência artificial chamada matemática bayesiana em que o filtro “aprende” e “esquece” os nosso hábitos de consumo tendo em conta a sua evolução e frequência ao longo do tempo. Ou seja, quando deixamos de ouvir músicas dos Velvet Underground ele passa a atribuir menos importãncia aos grupos associados a essa banda.
Para recolher toda a informação de que necessita para funcionar como deve ser, o The Filter utiliza um plugin para o iTunes que vasculha a nossa biblioteca pessoal e acompanha os nosso hábitos musicais comparando em seguida esses dados com estatísticas relativas às compras de música digital efectuadas através da OD2, a loja online de música que pertence desde 2006 à Nokia.
Uma vantagem do The Filter é que os utilizadores podem também integrar as suas contas no Last.fm e no Imeem. Outras empresas poderão também licenciar o seu sistema de recomendação e integrá-lo nos seus sites. Depois, existe uma componente “social” que a mim me parece bastante creepy. Um exemplo:
Se um utilizador quer comprar um presente de aniversário para a sua filha, ele pode aceder ao Filter partilhado dela para obter uma recomendação de um novo livro daquilo que é na sua essência o seu assistente pessoal online.
O grande calcanhar de Aquiles do The Filter é que por agora ele limita-se a transmitir excertos de 30 segundos das músicas e toda a gente sabe que música grátis atrai tráfego. Para incentivar a compra dos produtos, o site irá incluir links para o iTunes e para a Netflix onde terá que pagar e descarregar pelas músicas ou filmes. Depois do The Filter, só falta alguém inventar um filtro que diga o que deveremos vestir, o que deveremos comer, onde deveremos morar, etc. Será que o futuro que os engenheiros reservam para nós é uma vida programada?
Nota: a imagem do plugin do The Filter para o iTunes que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY 2.0 e pertence a panpot.
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