
Tenho-me fartado de escrever por aqui sobre diversas formas dos artistas tirarem partido da Web para ganharem a vida, através do financiamento pelos fãs, mas parece-me que muita gente continua a não levar a sério estas iniciativas, a avaliar pelo silêncio a que os meus artigos sobre este tema são vetados. Talvez pensem que se tratam de “experiências” vãs que nunca poderão ser adaptadas a um cenário lusófono – já não digo português, para não me chamarem de louco varrido… Mas olhem que não. Uma banda com talento pode mesmo ganhar muito dinheiro através da Web.
Senão vejamos: na editora comunitária Sellaband os metaleiros nipónicos Electric Eel Shock conseguiram a proeza de recolher 20 mil dólares em doações dos fãs em apenas dez dias depois de se juntarem ao site. Com 25930 dólares angariados até ao momento, já só lhes falta menos de metade para atingir os 50 mil dólares e poderem gravar um álbum num estúdio.
Provando que é ainda possível juntar mais dinheiro num período de tempo mais curto, a rapper francesa Agonie conseguiu obter os 70 mil euros exigidos pela MyMajorCompany, uma das quatro labels comunitárias francófonas. Agonie inscreveu-se no site a 5 de Maio e a 17 de Maio já tinha conseguido o dinheiro necessário para entrar em estúdio.
Quem achar que este modelo de crowdfunding – financiamento pelos fãs – apenas faz com que novos intermediários ocupem o lugar dos antigos (as editoras discográficas tradicionais), não poderia estar mais enganado. Para não dizer que estou sempre a tirar da cartola os exemplos de bandas mais estabelecidas como os Radiohead e os Nine Inch Nails que conseguiram promover o seu trabalho à custa do esforço das majors, posso indicar o caso dos Marillion que conseguiram recolher 725 mil dólares para gravar o seu novo disco ou dos Einsturzende Neubaten.
Não chega? Querem mais? Há pouco mais de quatro meses, a cantora Jill Sobule (de quem eu nunca tinha ouvido falar até então) adoptou um sistema de patrocínio pelos fãs para financiar a gravação do novo disco. Neste momento, o dinheiro angariado já vai nos 82.557 dólares. Outro exemplo: depois de ter lançado o projecto CASH Music no final de Novembro de 2007, a ex-Throwing Muses Kristen Hersh anunciou em Fevereiro deste ano que já tinha conseguido juntar o apoio de 350 mecenas em 13 países.

Recentemente, fiquei a conhecer mais duas iniciativas semelhantes de artistas que se inspiraram nestes modelos que eu acabei de referir para assegurarem por si próprios a viabilidade financeira das suas carreiras e romper com o ciclo vicioso de dependência que os contratos com as editoras tradicionais implicam. O primeiro foi o do músico australiano Clint Crighton que teve a ideia de montar um plano de financiamento pelos fãs para o seu primeiro lançamento internacional (via Bob Lefsetz).
Para que o negócio dê certo, Crighton precisa que mil fãs adquirem uma parte no valor de 100 dólares australianos (menos de 61 euros). Em compensação, os investidores habilitam-se a uma viagem de dez dias a Los Angeles para acompanhar a gravação do álbum. Mesmo que não ganhem, os membros terão direito a entradas grátis em todos os concertos ao vivo do músico até ao final das suas vidas bem como a receber um CD autografado antes do lançamento comercial.
Como se isso não fosse suficiente, o seu nome virá impresso na versão comercial do CD. No caso do disco atingir as 100 mil cópias vendidas, os membros terão direito a receber o seu dinheiro de volta. Desde o início da campanha na terça-feira passada, já 31 pessoas contribuiram com 100 dólares australianos.
Outro caso refere-se aos indie nova-iorquinos Telling On Trixie que lançaram ontem o site ABandWithAPlan.com com o objectivo de recolherem directamente junto dos fãs 50 mil dólares para a gravação do seu segundo álbum de estúdio e de um vídeo (via Hypebot). O plano da banda passa por disponibilizar várias modalidades de participação no processo de gravação do disco.
Tudo começa no nível “Trixie” que custa 10 dólares e dá direito a receber uma versão digital do álbum. Vem em seguida o nível “Green Room” que custa 25 dólares e oferece uma cópia pré-lançamento do CD e o acesso a áreas seguras do site. A partir daqui, todos os fãs podem participar nos fóruns e inquéritos realizados pela banda para escolher o nome do álbum, a imagem da capa ou os actores que deverão aparecer no vídeo. O último nível é o “Iconic Living Legend”: quem pagar dez mil dólares pode participar no álbum como artista-convidado, ser tema de uma canção composta pela banda em sua homenagem, aparecer no vídeo, receber entradas grátis para concertos da banda, etc.
Ao segundo dia, os Telling On Trixie já recolheram 1.375 dólares. Todos estes exemplos que eu referi aqui mostram que é possível fazer mais e melhor do que encostar-se à sombra da bananeira a lamentar-se dos malvados piratas “partilhadores” que estão a arruinar não só as grandes editoras, mas também as independentes e os músicos. Do mesmo modo, eles também revelam que a desculpa habitual de que o modelo de auto-publicação “Faça-Você-Mesmo” apenas funciona com as bandas que conseguiram construir uma grande legião de fãs por todo o globo.
Se querem mesmo viver da vossa arte, não fiquem especados à espera daquele contrato fabuloso que nunca virá. O momento é já, aqui e agora. Apenas depende de vocês e da vossa força de vontade. O que acham? Se gostaram do que leram, passem a mensagem.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e pertence a mhaithaca.
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