Empresário dos U2 diz que experiência dos Radiohead foi um fracasso Publicado 11 Jun 08

Os U2 foram a banda que me fizeram começar a gostar a sério de música, quando ainda nem sequer tinha 10 anos. Mas na última década aquela que foi em tempos a minha banda preferida tem desiludido inúmeros dos seus fãs mais antigos como eu com uma série de álbuns supostamente de originais mas desinspirados e outros lançamentos que apenas se limitam a reempacotar os êxitos de antigamente.
Não obstante, os seus concertos continuam a encher multidões e os seus discos têm surgido regularmente nas primeiras posições das tabelas de vendas. Poder-se-à então concluir que estamos perante mais um caso fatídico em que a criatividade de uma estrela Pop diminui em sentido proporcionalmente inverso ao ritmo de crescimento da sua conta bancária.
O mesmo já não poderá ser afirmado a respeito de um grupo como os Radiohead que depois de terem lançado um esplêndido álbum de melodias Pop em 1997 chamado OK Computer que obteve a unanimidade tanto da crítica como dos Tops, conseguiram a proezar de subir ainda mais a fasquia ao nível da radicalidade e inovação estética com Kid A (2000) e Amnesiac (2001) - álbuns que tendo embora sido automaticamente considerados clássicos pela crítica não conseguiram “cair no goto” de muitos fãs.
Em Outubro do ano passado, os Radiohead voltaram a surpreender com o lançamento de In Rainbows. Não tanto pela originalidade estética - o álbum é bom mas não excepcional -, mas sim pela forma inusitada de lançamento do disco: em formato digital via Internet e segundo um modelo “pague o que quiser”.
Para além de terem provavelmente arrecadado uns bons milhões de euros com a boxset exclusiva composta por dois CDs e dois discos em vinil, Thom Yorke e companhia conseguiram também a proeza de fazer com que o CD físico tradicional chegasse a número 1 dos tops um pouco por todo o mundo, já para não falar do desempenho da versão digital na loja de MP3 da Amazon.
Pois bem, o empresário dos U2 Paul McGuinness - quem haveria de ser senão o ludita preferido da indústria discográfica que não gosta da Internet e chama os ISPs de ladrões? - declarou ontem à estação de rádio britânica BBC 6 Music (via No Rock and Roll Fun) que a decisão dos Radiohead de permitirem que os fãs fixassem o preço que gostariam de dar pelo disco acabou por ser um rotundo fracasso.
Segundo o manager, a maioria dos fãs que descarregaram o álbum optaram por recorrer a meios ilegais e não ao site da banda: “60 a 70% das pessoas que fez download do disco acabaram por roubá-lo, apesar dele estar disponível gratuitamente.”
Ao ler esta frase, fico sinceramente sem saber por onde começar, tal é a dimensão do disparate. Se o disco foi oferecido de borla pela banda como é que se pode acusar as pessoas de roubo? Ponham de vez uma coisa na cabeça: tratam-se apenas de ficheiros digitais que podem ser copiados, modificados, cortados, misturados, partilhados, etc. O seu valor em si é absolutamente nulo. Seja como for, os Radiohead não se importaram com isso pois apesar de terem disponibilizado apenas uma versão em MP3 com um bitrate medíocre (160 Kbps), eles não inseriram qualquer tipo de tecnologia anti-cópia como DRM nos ficheiros.
Depois, McGuinness confunde os dados revelados pela Comscore - prontamente desmentidos pela banda - segundo os quais 62 por cento das pessoas que fez download do disco não pagou pelo disco - quando afirma que 60 a 70 por cento preferiu “roubá-lo”. E a verdade é que não existem quaisquer números rigorosos a respeito da percentagem de pessoas que optaram pelo BitTorrent e pelos Rapidshares. Mesmo se o disco tivesse sido lançado exclusivamente pela via tradicional - CD físico + download via iTunes e Amazon -, ninguém garante que a taxa de downloads a partir de fontes “não autorizadas” deixaria de ser maioritária.
Os tempos mudaram. É por isso que o próximo álbum dos U2 - com data de lançamento marcada para o final de Outubro - acabará inevitalmente por vender bastante menos CDs do que os discos anteriores da banda. Essa será, aliás, mais uma excelente ocasião para McGuinness vituperar pela enésima vez as Internets. Quem acabará por pagar as favas serão os fãs indefectíveis da banda de Bono que terão quase de certeza que acarretar com um aumento do preço dos bilhetes para os concertos… Mas ninguém vai ligar a isso, pois não? Afinal de contas, o que é importante para os interesses instalados do negócio da música é passar a imagem de crise.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e pertence a Nina Gold.
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