Itunes: 5 mil milhões de downloads e muito dinheiro roubado aos artistas Publicado 21 Jun 08
Cinco anos após o lançamento da loja de música online do iTunes, a Apple anunciou que o seu serviço ultrapassou a fasquia dos cinco mil milhões de downloads de música comercializados. Se isto dá uma média de mil milhões ao ano desde a abertura da loja a 28 de Abril de 2003, a verdade é que o ritmo de crescimento das vendas ao longo do último ano e meio tem sido frenético: dois mil milhões a 6 Janeiro de 2007, três mil milhões a 31 de Julho de 2007 e quatro mil milhões a 27 de Fevereiro de 2008.
E apesar da forte concorrência por parte da loja de MP3 da Amazon - que ainda só se encontra disponível nos Estados Unidos - e das inúmeras pressões por parte das maiores editoras discográficas do mundo no sentido de obrigarem Steve Jobs a introduzir preços de venda variáveis, a verdade é que o iTunes continua a ser a maior loja de música digital do mundo, tendo mesmo recentemente se tornado o maior retalhista de música nos Estados Unidos. Para além disso, os dados disponíveis em relação ao resultados financeiros indicam que o serviço é rentável.
No entanto, em grande parte devido a este conflito com as editoras, até hoje o iTunes apenas disponibiliza músicas sem DRM pertencentes ao catálogo da EMI e de editoras independentes. Quem sofre com isto tudo é o consumidor honesto de música que paga 99 cêntimos por uma canção que só poderá copiar para um máximo de cinco computadores e que não poderá ser reproduzida por outros leitores de MP3 para além de iPods/iPhones
Mas qual a parte do dinheiro gerado pela venda de downloads digtais que vai realmente parar ao bolso dos artistas, depois de descontados os cerca de 25 a 30 por cento que vão para a Apple? Bem, a verdade é que na melhor das hipóteses os artistas apenas ficam com 14 cêntimos dos restantes 70 cêntimos. O resto vai para pagar as despesas de marketing e de gravação do disco, mas a fatia de leão vai mesmo para a editora.
Foi por isso com uma certa satisfação que eu li esta semana uma entrevista de Kid Rock à BBC em que o rapper de nome verdadeiro Robert Ritchie afirma que decidiu boicotar o iTunes porque acha que os artistas não estão a ser devidamente pagos pela Apple. Kid Rock recusa-se a disponibilizar os seus álbuns no serviço de música online por considerar que ele se baseia “num sistema antigo, onde o iTunes fica com o dinheiro, a companhia discográfica fica com dinheiro e os artistas acabam por ficar sem nada.”
Quando a sua editora Atlantic - subsidiária da Warner Music - sugeriu a Kid Rock que denunciasse publicamente a partilha ilegal de ficheiros argumentando que os partilhadores estavam a “roubar-lhes” a ambos, o rapper disse: “Esperem aí, vocês têm estado a roubar aos artistas desde há anos. Agora querem que eu vos apoie?”
Daí que ele aconselhe os fãs a descarregarem de borla - ainda que ilegalmente, as suas músicas a partir de serviços P2P. O que ele se quer é que mais pessoas ouçam os seus discos de modo a encher os concertos. Segundo o artista, “a Internet foi uma oportunidade para todos serem tratados como deve ser, para o consumidor obter um preço justo, para o artista ser pago convenientemente, para as companhias discográficas ganharem algum dinheiro.”
É claro que as coisas acabaram por não se passar bem assim e como é óbvio mais tarde ou mais cedo ele terá inevitavelmente que disponibilizar os seus álbuns através do iTunes, acrescenta. Apesar de concordar inteiramente com tudo o que Kid Rock refere até aqui, o aspecto cínico e hipócrita da mensagem do rapper fica bem evidente quando ele acaba por dizer que apesar de não concordar com os downloads ilegais, ele não se importa que as pessoas “roubem” a sua música. O artista vai mesmo ao ponto de comparar quem copia música digital com ladrões de petróleo o que é totalmente despropositado:
Eu acho que as pessoas deviam roubar tudo. Vocês têm noção do dinheiro que as empresas petrolíferas ganham? Se precisarem de gasolina, não hesitem em atestar o depósito sem pagar. Elas não vão sentir falta do dinheiro.
O que se pode chamar a isto senão uma total idiotice? Quem tem a desfaçatez de comparar um dos bens mais preciosos do mundo com ficheiros digitais facilmente reproduzíveis não está bom da cabeça ou não quer ser levado a sério. No fim de contas, Kid Rock acaba por dar ainda mais razão ao argumento da Warner Music de que a partilha de ficheiros está a matar o negócio da música.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a Will Lion.
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